quarta-feira, março 29, 2006

Reflexões de Herman (3)

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Leonardo,
Aqui estás, uma reflexão sobre o inconsciente. Assunto espinhoso e que , provavelmente, renderá alguns outros posts e , se nos encontrarmos novamente, muitas discussões regadas a Quilmes e cigarro.



Sob o domínio do inconsciente *


Dia desses, em andanças pela noite portenha com alguns amigos, uma questão, até de certa forma inédita, surgiu para mim. Meu amigo, juntamente com outro conhecido, contava sobre sua viagem pelos campos e rios nos arredores de Buenos Aires. Sem qualquer planejamento, com muitas vezes não tendo a mínima idéia de onde estavam e para onde iam, eles foram envolvidos numa teia complexa de situações absolutamente inverossímeis se fossem criadas. Depois de muito discutir, meu amigo acabou soltando: " Nunca fiz planejamento, mas na hora sempre sabia o que fazer".
Para mim, foi a chave que me fez entender muitas de suas atitudes "malucas", diferentes. Ele foi guiado pelo seu inconsciente, que de tão treinado (não se sabe como, se soubéssemos todos treinaríamos ) sabe o que fazer em situações aparentemente cada vez mais complicadas que se apresentam para ele resolver e, de preferência, rapidamente.

Se ele não faz mil e um planejamentos sobre o que encontrará naquele rio, por exemplo, e quais as ações determinadas para cada tipo de situação adversa que ele se deparar, muito mais facilmente ele saberá sair delas. Como? não há resposta pulando para ser escolhida, mas uma escondidinha serve melhor que todas as outras: o inconsciente. Simplesmente não estando com todas as prováveis soluções definidas na cabeça, ele saberá como resolver quando aparecer alguma que não esteja prevista. E sempre há situações imprevistas em viagens desse tipo.

Alguém que vá "preparado", não saberá, ou demorará mais, para agir em uma situação completamente inesperada. Culpa do inconsciente, que não é confiável (pelo menos a pessoa não sabe que é) a ponto de não se utilizar de planejamantos para facilitar a compreensão.

Alguns poderão achar que apostar no inconsciente é uma "aposta no escuro". Pode ser, mas talvez achem isso porque não há como explicar o inconsciente, o saber agir em situações adversas sem nunca tê-las vivido. Um provável indício de que se está preparado para situações não-planejadas é a vivência constante de situações ditas "inexplicáveis"; digamos que essas situações fazem parte do "treinamento" do inconsciente, pois sempre pedem respostas rápidas quando nunca pensamos em qualquer uma resposta para situações que também nunca pensamos que possamos viver. São nessas situações que treinamos as ações inexplicáveis, e o prazer de ter enfrentado, e resolvido bem, esse tipo de situação é algo que só abre mais e mais portas para uma complexa, se algum dia possível, compreensão completa sobre si mesmo.

A inconcosciência pode se equiparar a outra palavra que, aparentemente, também não tem explicação lógica: sorte. Quando acreditamos no inconsciente, e esse meu amigo comprovou na pele isso, parece que sempre temos "sorte": perdemos o fogo, o que fazer? achamos outra forma de fazer o fogo, por "sorte". Estamos sem comida? caminhamos e encontramos, por "sorte", uma pequena fazenda que nos oferece um belo assado de ovelha. Uma tentativa de explicação de situações assim seria que o nosso inconsciente, como luz que nos guia nos escuros caminhos desconhecidos, acha sempre soluções para qualquer adversidade, e, por falta de outra palavra melhor, essa solução é atribuída a "sorte" - que nada mais é do que um refúgio para qualquer coisa que não se explica racionalmente.

Por tudo isso, levar a incosciência aos lugares mais longíquos, onde nem um rastro de situação já vivida tenha chegado, faz parte de um longo caminho que todos trilham, mas alguns nunca param para pensar nisso, para chegar ao completo conhecimento de si mesmo, que trará um enorme conhecimento do mundo consigo. A questão é que se estamos preparados para obter essa conhecimento, se a busca por ele não nos enlouquecerá no caminho, ou se, quando finalmente chegarmos lá, descobrir que todas as adversidades foram em vão e que o final encontrado não passa de uma ilusão de que nos conhecemos melhor...

* Traduzido do castelhano

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Diálogo (1)

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De um quase apaixonado diante da irmã de sua quase-alguma coisa-que pode-vir-a-ser-algo-interessante:



"
_ Sabe por qual motivo eu continuo com a tua irmã? Porque eu não entendo ela. Não consigo compreender suas atitudes e não-atitudes, sua passividade diante de certas coisas que quase que obrigam a uma atutide, qualquer que seja. E o fato de não entendê-la me faz querer ficar mais com ela, não me entregar diante do primeiro mistério que ela coloca a mim, consciente ou mesmo inconsciente do ato. Não há um prazo definido para compreendê-la; o lado ruim disso é que o fato de eu querer decifrá-la pode ser interpretado como uma desculpa para ficar mais ao seu lado, e o lado bom, se é que ele realmente é bom, é de não desistir na primeira tentativa, da primeira negativa - consciente ou não - a um convite singelo para ter sua presença junto da minha. A dúvida é que a ânsia de querer entendê-la pode acarretar em certa obsessão, e a derrota final decorrente disso pode vir a ser maior pelo empenho, inocentemente despejado, em querer tê-la o mais próximo possível..."


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segunda-feira, março 27, 2006

Divagando e brincando...

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Divagando e brincando de fingir


Complicado, certos termos e esquemas relativos tomados como principais que não deveriam ser. Fingir é necessário, se a sinceridade afronta.
Fingir, mentir, tem um quê de contadores de histórias, ficcionistas que de tanto desgate oriundos da mente fértil para criar esquecem de escrever a sua própria história de vida e precisam inventá-la, mas pela necessidade de ser uma história real eles não conseguem torná-la interessante, ao menos que contem e envernizem na hora de contar a história médíocre que criaram para si... mas o diabos é que há alguns bons séculos é assim, a necessidade de fingir se torna uma dor, por vezes, insuportável de ter de inventar um personagem que não existe, aparentemente, mas que precisa ser despertado para que a dor da sinceridade não se torne ainda pior que a do fingir, que, se fosse em um mundo perfeito, seria tão forte que ninguém poderia aguentar, prevalecendo a realidade em detrimento da falsidade de se transformar em outros para agradar, ou não sofrer (comos e o sofrimento não fosse necessário...), ou os dois...


Engraçado, mas fingir pode ser, ao mesmo tempo, uma abreviação ou uma antecipação do sofrer. Finjo, invento, para não precisar passar pelo processo natural das coisas, que não é feito de muitas mentiras, não. Finjo, crio, para poder me antecipar e saber duma vez o que me espera na encruzilhada da opção...Da mesma forma, da mesma origem e opostos.
Ainda se provará que fingir é, nada mais nada menos, que dizer a verdade que não se conhece nem se sabe que existe - por isso o fingimento. Se soubesse, seria o fim da ficção.

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Finjo que digo a verdade para poder fingir e não dizer que não consigo fingir.

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quinta-feira, março 23, 2006

Histórias da vida real (2)

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Carroceiro perde carroça e cavalo

Na madrugada de sábado para domingo, Enio Raskof se deslocava pela rua Lavras do Sul quando, na esquina com a rua Radialista Oswaldo Nobre, foi surpreendido por dois homens carregando duas facas. Temendo o pior, Enio tenou fugir, mas foi alcançado pelos homens, que o atingiram com facadas no rosto, causando um corte no supercilho direito. Após o confronto, os dois homens foram atrás da carroça de Enio, que se encontrava, no momento, na Avenida Ulysses Guimarães, no Alto da Boa vista. Chegando lá, levaram embora a carroça, o cavalo e tudo que tinha dentro, inclusive uma carteira com R$ 80,00.


Jornal A Razão, 20 de Março.

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terça-feira, março 21, 2006

Histórias da vida real (1)

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Cerveja quente causa agressão

Na noite de sábado, Alexandre Batista da Silva andava pela rua Santa Bárbara, próximo à escola Ludovino Fanton, na Vila Caturrita, logo depois de ter saído de um trabalho realizado em uma festa de 15 anos. Carregando um copo de cerveja, ele ofereceu um gole à Rodrigo Paim, que também passava pela rua na mesma hora. Este aceitou a gentileza, e bebeu, num grande gole, quase todo o copo. Mas a cerveja estava quente, e Rodrigo nâo gostou. Discutiram exaltados e, depois de alguns minutos, este último tirou o facão do lado da calça e agrediu Alexandre na cabeça, provocando um corte na face. Aturdido, Alexandre tratou de fugir.

Jornal A Razâo, 20 de Março de 2006.

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quinta-feira, março 16, 2006

Pausa para o rock'roll

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Crema no Macondo, 10 de março.

Rock'roll will never die!

Nâo tem palco. O lugar onde a banda fica é um canto no fundo do bar, demarcado por um tapete. Só se sabe que vai começar o show porque a música ambiente cessa. Baixo, guitarra e bateria entram devagar, em um volume parecido, e eis que surge o teclado, o mais alto de todos, que já toma a frente na condução da melodia e prepara para a entrada da voz, que surge de início meio tímida, mas aos poucos ganha confiança para a explosão no refrão: "You really got me!". The Kinks. Anos 60. Não, 2006, passado da uma da manhã de uma sexta-feira, dia 10 de março.

Great balls of fire, jerry Lee Lewis. Anos 50. O clássico passo de dança dos primeiros anos de rock'roll, bastante visto em bailes de formatura, é lembrado pelo público que, a essa altura,já tomou cerveja o suficiente para esquecer que o espaço disponível impede qualquer passod e dança mais ousado.
O teclado, dessa vez, entra primeiro e conduz a harmoniosa versão de "Let's spend the night together", dos Rolling Stones. Anos 60 novamente. Logo à frente do "palco", amigos e namoradas da banda, aos poucos, relaxam e curtem a música, esquecendo por algum tempo a inevitável preocupação de se procurar erros no show.

Like a rolling Stone, Brown Sugar, anos 60, e eis que os 2000 dão as caras. Franz Ferdinand, Take me out. Essa toca bastante no bar, todos conhecem, e houve-se até vozes repetindo o som da guitarra no refrão.

Neil Young, Hey hey my my. O verso "rock'roll will never die" ecoa pelo local, tanto nos ouvidos quanto nos pensamentos de todos ali, sabidos de que aqeula velha história que o rock morreu não passa disso mesmo: uma eterna velha história.

A Razão, 16 de Março.
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segunda-feira, março 13, 2006

Hibernação duvidosa (3) : dúvida

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Enquanto durar o período da hibernação duvidosa, haverá espaço para a experimentação por aqui. Por enquanto, seguindo a linha de ontem, mais um capítulo do "Big Brother Mind".

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É, duvidoso, dúvida, palavra cheia de perguntas e nenhuma resposta, carregada de angústia e de esperança, de sofrimento e de pavor com o que poderá vir a esclarecer as perguntas e transformar a palavra, dúvida, em...
outra pior talvez, certeza, certeza de não ter mais dúvidas ou de ser algo tão já definido...obtuso e sem qualquer dúvida para esclarecer, interromper o processo duvidoso que pode levar a certeza.

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Mas a dúvida, o pavor da dúvida é pior que o da certeza, porque esse é genuíno e até tradicional, mas o outro não, é limitante, desgastante, e imitador daquilo que se conhece por auto estima travestida , na real, de "i'm loser baby, e por mais que esconda, não consigo".

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Am... dúvida que me procura para um chamado, ou melhor, uma chamada e uma espera, duvidosa, de um retorno, que se não vêm provoca a dúvida, o que aconteceu?, e se vêm também aparece num duvidoso pacote de esperança embrulhado numa alegria de ser correspondido em qualquer intenção que possa ter um simples sinal de fraqueza que, muitas vezes, é o que ocasiona uma chamada, fraqueza de não ter certeza, ou de ter uma dúvida sem qualquer perspectiva de certeza, que, afinal, é mais angustiante que uma certeza bem definida. Ou não?

domingo, março 12, 2006

Hibernação duvidosa (2): Me and the devil

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O post mais rápido depois de outro.

Agitação extrema, inquietude de fazer tantas coisas ao mesmo tempo que...
Nem uma frase se completa, pois na metade dela já se pensa em outra coisa.
Calma, calma.
Tomar uma água, quem sabe?
jogar futebol (no PC), que agita mais ainda?
- Pelo menos se chegará num estágio tão grande de "agitume" que não há como não se acalmar -

Hmnn, hmnn
Hmn,

Me and the devil,
was walkin' side by side
Meeeee and the devilll,
was walkin' side by side


Espirro. Certa vez, alguém escreveu que os dois maiores prazeres para o homem era espirrar e gozar ao mesmo tempo. O cara que disse isso, ou melhor, o cara que estava num conto que outro escreveu, demorou algumas décadas para realizar a façanha. Mas conseguiu, e morreu depois, pois não há lembrança que rompe o ciclo repetitivo de filmes que passam na cabeça, e que não deixam vir à tona o que, realmente, aconteceu com o cara.

" Me and the devil,
was walkin'n side by side"

Hibernação duvidosa (1)

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O blog está em estado de hibernação, em busca de uma alternativa ao formato atual, de mero "publicador" eventual não-periódico de textos construídos e revisados na hora. O que pode acontecer é o formato mudar, ser mais rígido com relação à dias de atualização, ou então, após muitas tentativas de achar um formato diferente, ficar na mesma.

Early this mornin'

when you knocked upon my door
Early this mornin', ooh
when you knocked upon my door
And I said, "Hello, Satan,"
I believe it's time to go."


Robert Johnson - Me and the devil
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terça-feira, março 07, 2006

Ode à madrugada

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Passa das 3 e 59 da madrugada, e o cansaço recém cutucou o sono,
que estava dormindo há horas,
nocauteado por aquela água tão ativa, que ainda foi misturada com uma dose de tensão sexual não resolvida e um pó solúvel que dizia no rótulo "eloquência gratuita"

inconformismo
com a inoperância do cansaço,
a lenitude do medroso emebebido pelo vazio envergonhado de sua condição,
tão solitária,
!que vergonha de estar assim!
apavorado, teve de cutucar o sono,
que,
mesmo depois de todas aquelas doses,
voltou a penetrar como antes, ou como nunca,
como eterno perdedor que é, se fez invisível, não deu resposta, não foi percebido e resolveu, depois de muito lutar, perder mais uma vez, como sempre,
se entregar ao desconhecido, sempre comandante,
alter-ego do cansaço,
da derrota, da vitória
e do sono.



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segunda-feira, março 06, 2006

Um ano

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Completou um ano o blog.
Estudo alguma mudançcas, que , provavelmente, virão em breve.

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quinta-feira, março 02, 2006

Reflexões de Herman (2)

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Um texto mais curtinho dessa vez, minhas aulas começaram e estou bastante ocupado. Bon Apetit,

Herman Oliveira.


Ella usó mi cabeza como un revolver, e incendió mi conciencia con sus demonios

Soda Stereo


Dá para se fazer inúmeras leituras dessa frase (a primeira), e em cima dela criar inúmeras situações, metáforas e causos. Lembra frases do Cortázar, que , às vezes, cria imagens tão poderosas e complexas que, quando não se consegue imaginar o que ele quis dizer com uma frase, ele joga mais uma tão poderosa quanto a outra, criando uma espécie de confusão e curiosidade extrema que poucas vezes é saciada decentemente; o normal é desistir, ou achar que sabe o que é aquilo para poder partir para a outra. Numa comparação barata, é como se fosse explicar um conteúdo inédito - um novo tipo de equação, por exemplo - com todas as variáveis conhecidas, mas que ainda assim não se consegue juntar todas as partes e se fazer compreender o todo. As palavras são as partes iniciais, que possibilitam a criação das metáforas, que são a segunda parte, mas que podem ter fases infinitas, só que nem o compreendido na primeira fase vai poder ser útil para a compreensão do todo, a metáfora completa. Mesmo assim, a curiosidade de saber aqulo, de tentar acompanhar a imagem criada é tanta que se cria uma espécie de "atalho" ao pensar que tal coisa é aquilo ali que não se sabe, apenas para seguir adiante na intricada teia de metáforas que se pode criar a seguir. Chega uma hora que extrapolou tanto o conhecido que se desiste e se passa para outra. Mas, como um treinamento, não se pode desistir, pois o resultado, quando encontrado, é recompensador e inspirador.

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quarta-feira, março 01, 2006

Quase

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Quase um ano de blog.
Dia 4 de março completa.
Vamos ver quanto tempo mais vai durar.
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sexta-feira, fevereiro 24, 2006

Sobre ética

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O Dicionário Aurélio Buarque de Holanda, um dos mais confiáveis do país, diz que ética é "o estudo dos juízos de apreciação que se referem à conduta humana susceptível de qualificação do ponto de vista do bem e do mal, seja relativamente à determinada sociedade, seja de modo absoluto”. Ética jornalística, portanto, seria algo como “o estudo dos juízos de apreciação que se refere à conduta do jornalista”, se for possível algum tipo de definição. Geralmente, para diferenciar ética de moral, se utiliza algumas sentenças do tipo “ética é universal, moral é cultural”, ou “ética é teoria, moral é prática”.

Por ser cultural, a moral é pessoal, varia, enquanto a ética não, é intransponível. Etimologicamente falando, ética vem do grego "ethos", e moral vem do latim "morale", que tem o mesmo significado: Conduta, ou relativo aos costumes. Como os radicais trazem um conceito simplista, bastante relativo, melhor mesmo é diferenciar ética e moral do que igualá-los. Acontece que, como toda profissão que tenha um código de ética, e acredito que todas tenham, a ética da profissão exige uma adequação da moral de cada um que é impossível de se obter. Uma pessoa que se embriague de sua moral não vai respeitar a ética, pois se considera acima. E assim cometerá erros crassos, não aprenderá com eles e continuará repetindo ad infinitum até que, ingrato mundo, ela obtenha vitória seguindo sua moral e não a ética, tão solene e generalista. Pra que ética então, se ela é frágil a ponto de deixar o ser humano a desrespeitá-la?

A ética pode ser frágil, mas não é conivente, não aceita desaforos; apesar de que não pune desvios da maneira que devia por que isso faz parte de sua natureza plural. E o fato dela ser frágil não significa que ela não tenha de existir, por que, se não há ética, há o caos, a falta de juízos de apreciação e de qualificação entre o bem e o mal torna tudo suscetível e regido pela moral, senhora perversa e individualista que acabaria por espalhar o caos em todas as partes. Mas, não sendo apocalíptico, a ética profissional, como uma subdivisão da ética Ética, é apenas um conjunto de regras a serem seguidas fortemente influenciadas pela moral. E a moral de cada um, por mais desobediente e segura de si que seja, funciona, em relação à ética, como aquela velha história da utopia: não é porque não consigo adequar minha moral a ética que deixarei de tentar, assim como não é por ser uma utopia que deixarei de tentar fazer com que se torne verdade, assim como, entrando mais no jornalismo, não é porque a objetividade seja inatingível que não tentarei atingi-la.

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terça-feira, fevereiro 21, 2006

Manuscrito achado

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Parece querer diminuir e não encontrar seu lugar
De tão pequeno, livre e sonhador, não pensa mais em existir.
Donde estás, donde estás,
Não obtém resposta e teme a pergunta
Olha, enxerga, de longe, mas onde é mesmo que se esconde ?

Irritado, quer fugir, voar e planar
e encontrar aquele sinal, fraquinho,
quase embriagado de tanto esperar,

zombeteiro de tão fraco que está
aproxima e tenta provocar,
mas desiste quando ele lhe faz lembrar
que nunca soube, donde estás?

agora ele quer se entregar
e insiste em se esconder,
desaparecer de tanto lutar
evaporar, cair sem se machucar

"Não é tão fácil assim",
alguém aparece para falar
"não reconhece tua condição
ou de tão pequena já sumiu?"

Abalado ele volta atrás
ou não sabe, además,
pra que te esconde se não sabe onde?






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sábado, fevereiro 18, 2006

Cenas Buenairenses (4): Palermo

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"Pega essa rua aí da frente, a Jorge Luis Borges, e anda umas quadras que tu chega na Plaza Cortázar."






Fiz o que um simpático velhinho me disse pra fazer.


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Pega a rua Jorge Luis Borges que vai dar na Plaza Cortázar. Só Buenos Aires mesmo.
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( os velhos portenhos ,e argentinos em geral, são sempre simpáticos e parecem exalar sabedoria de vida. São as pontinhas de fio que resistiram ao tempo e trazem consigo o glamour de outras eras. Ainda bem que Buenos Aires está cheio deles)

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Palermo é um bairro residencial-boêmio; das boates, dos pubs, das lojas chiques, dos grandes prédios de apartamentos da classe média-alta e alta da cidade, das ruas arborizadas e tranquilas frequentadas por gente bonita e bem vestida, dos cafés onde os "intelectuais" gostam de se reunir ( esses mesmos cafés que, peculiaridade local, tem menus com todas as coisas em dois preços: um até as 22 e outro após), do convívio - mais explícito que outros locais da cidade - de tradição e modernidade. É um bairro um pouco afastado do centro, há cerca de uma hora de caminhada . Ao sul, o bairro conta com inúmeros parques (incluso o Jardim Botânico e o Zoológico) antes de chegar no Aeroporto Jorge Newbery e , logo após, o Rio da Prata.



Um café pelas voltas da Plazoleta Cortázar


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quarta-feira, fevereiro 15, 2006

Notícia de uma quase tragédia

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Eram alguns poucos minutos passados do meio dia, a temperatura já acima dos 30º graus, e nas proximidades de um prédio na rua Tuiuti, quase esquina com a Floriano Peixoto, houve-se um estrondo. Algumas faíscas caem na calçada, e um homem está deitado na sacada do terceiro andar, em estado de choque. Funcionários de uma loja em frente ao edifício correm para o apartamento para socorrer o homem, que pintava o lado externo do prédio. Ao que parece, num breve momento de distração, o pintor deixou o cabo que estava o pincel encostar nos fios de alta tensão situados quase na mesma altura de sua cabeça. Resultado: uma descarga elétrica forte jogou o corpo do homem, que se chama João Manuel de Oliveira e tem 29 anos, para a sacada em frente. Os funcionários da loja chegam no apartamento para o socorro, ele está consciente, mas apavorado com as queimaduras espalhadas por todo o seu corpo, principalmente no braço e na mão direita. O fotógrafo Luciano Souza, um dos funcionários da loja em frente, ouve de João "cara, perdi minha mão, tenho que trabalhar, uma família pra sustentar", e tenta acalmá-lo, "calma tche, não te apavora, a mão tá aí". E ela está mesmo, chamuscada, igual a todo o braço, que está quase em carne viva, sem pêlos. Manchas pretas estão espalhadas na camiseta, assim como na parede lateral da sacada. Alguns minutos depois das 12:10, hora em que o corpo de Bombeiros é chamado através do telefone, surge o furgão e o caminhão vermelho. A escada é colocada diretamente na sacada e , rapidamente, os bombeiros presentes descem o corpo de João, que é encaminhado direto para o Hospital de Caridade. Eles já adiantam que os braços e os dedos sofreram queimaduras de 2º grau. João ,logo que chega, dá entrada ao bloco cirúrgico do hospital. No início da noite, ele sai para a sala de recuperação, e de lá vai para o Centro de Tratamento Intensivo (CTI). Seu estado é regular.
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Jornal A Razão, 15 de Fevereiro de 2006.


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sábado, fevereiro 11, 2006

Reflexões de Herman (1)

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Herman Oliveira tem 23 anos, nasceu em Santana do Livramento, filho de pai uruguaio e mãe brasileira. Morou em Livramento até os sete e em Montevideo até os 19, quando entrou para o curso de Letras na Universidade de Buenos Aires e lá mora até hoje. Em dados momentos, sem uma periodicidade rígida, ele escreverá para o blog. Como muitos estudantes de letras, Herman também é aspirante a escritor; por isso, os temas de seus escritos serão, em sua maioria, sobre o processo de escrever e literatura em geral. Mas, segundo ele, haverá relatos sobre outras coisas também como futebol e Buenos Aires, duas coisas que ele gosta muito.

Bon Apetit!



VIVER, CONTAR, CRIAR? *

Quem lê Hemingway deduz, cheio de certeza: ele viveu isso. Basta uma olhada na sua biografia e comprovar que sua vida foi tão interessante quanto aquilo que escreveu, se não for até mais. Mas Hemingway, como poucos escritores, viveu tão "intensamente", viajou, namorou, caçou, bebeu e conheceu tantas coisas que para contar suas histórias não precisava mais que sua memória, que, diga-se, era bastante boa em lembrar de detalhes.

Por muitas vezes, ele nem precisava forçar para contar uma história: eram elas, as histórias, que se apresentavam a ele e pediam, encarecidamente, para serem contadas.Então, cabia a ele julgar o que se apresentava, moldar o material que tinha, 'martelar uma bigorna como um ferreiro até que ela se torne rígida e compacta, sem excessos desnecessários', como ele mesmo escreveu na apresentação de um dos seus volumes de contos.

Mas Hemingway é uma exceção ou uma regra?

Acredito, e não é nenhuma novidade, que temos de vivenciar aquilo que contamos, nem que seja apenas na mente, mas o 'estopim' para nossa imaginação criar a história tem de ser uma situação real, acontecida conosco ou com alguém que nos contou tão bem que conseguimos nos colocar no lugar dessa pessoa e vivenciar também.

Quando lia Cortázar sem conhecer sua biografia, pensava na amplitude espantosa de sua imaginação e me custava acreditar que aquilo fosse possível ser contado se não tivesse sido minimamente vivenciado. Mas quando li um pouco sobre sua vida pude perceber que cada conto, cada passagem de 'Rayuela' (O Jogo da Amerelinha)saiu da vivência que ele teve, das coisas que viu, ouviu, tocou. Mesmo as partes mais fantásticas e irreais, ele vivenciou o suficiente para o estopim ser dado. Borges, por exemplo, me parece que não viveu, mas conheceu pessoas que contavam muito bem aquilo que viveram, e a sua rica imaginação, regada a muitos e muitos anos de estudo, tratou de criar o resto. E, diga-se de passagem, criou maravilhosamente bem.

Mas há outra questão também com relação a Borges. Como diz Cortázar de Goethe em 'Rayuela', Borges é um daqueles que estão com seus pseudópodes estendidos ao máximo em todas as direções , e eles abrangem com um diâmetro uniforme tudo aquilo que está em seus domínios, enquanto que nós, pobres humanos, apenas soltamos nossos pseudópodes em uma direção, embora nunca se saiba qual. É essa percepção aguçada que os torna clássicos.

Para finalizar, acredito que terá um bom resultado naquilo que escreve quem mais conseguir extrair a essência do que vive e criar, refletir sobre isso; a imaginação mais fértil aliada a melhor forma de contar aquilo que imaginou. Ou, quando se tem uma vida ao estilo Hemingway, saber selecionar o que viu e relatar. Bem, como se fosse "apenas" relatar...



*Traduzido do castelhano.

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sexta-feira, fevereiro 03, 2006

Cenas Buenairenses (3): San Telmo

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Plaza Dorrego, San Telmo.



Os pássaros e o cantante de doces

18:28

Tarde de caminhada pela cidade. A temperatura é agradável tendendo a ficar calor, mas coloco o casaco para poder carregar a máquina, os mapas e outros papéis nos bolsos de dentro do mesmo, e não ter de carregar tudo na mão - o que, convenhamos, limita e muito o contato táctil com os lugares por onde passo. Chego no bairro de San Telmo, perto do centro e do rio, conhecido pelos seus inúmeros antiquários, suas ruas estreitas de calçamento e por seus cafés. Cansado, decido me sentar na mesa mais perto da rua numa linda praça cheia de pombos. Sou o único sentado nas mesas, inexplicavelmente. Mas acho que é por pouco tempo. Depois de um tempo descansando e observando os pombos desfilarem como se fosse os zeladores da praça, peço o café. Nem olho o preço. Finalmente achei um lugar que clame espalhafatosamente por um café.


18:41

Mas é barato. $2,50 pesos, mesmo preço daqui. E é bom, como a maioria dos daqui. Vem com água, também como os daqui, e com um potinho cheio de grãos que parecem castanha. Não, não é castanha. Pistache! Lembro do gosto do meu sabor de sorvete preferido. Pistache! Isso não tem nos daqui. E o gosto casa bem com o do café.
As mesas começam a encher. Pai e filho falam uma língua estranha na mesa ao lado; pelos beicinhos que fazem, é francês. No outro lado, três homens conversam animadamente em outra língua; pelo tom de voz alto , é italiano. É próxima do português, acho que mais fácil de se compreender que o espanhol falado - sempre rapidamente - pelos portenhos. Homens de terno e mulheres de tailleurs na mesa a frente vieram provavelmente direto do trabalho; é aniversário de algum deles, cantam parabéns, e levantam as canecas de chope para um brinde.


18:49

Todos os chopes são servidos com uma pequena bandeja de amendoins. Pombos adoram amendoim. Devagarinho, como se fossem na ponta dos pés para não fazer barulho, eles aproximam-se da bandeja; vão pelo chão, pulam (ou voam) nas cadeiras, passam para as mesas, e esperam um bom momento para a aproximação da bandeja e o gozo final, a bicada no amendoim. Mas as pessoas das mesas, vilões de um filme inexistente, não os deixam aproximar. Com as mãos abertas, como se fossem dar umas palmadas num filho malcriado, eles espantam os pombos, que não desistem: começam o percurso novamente, indo para o início do rotineiro circuito-fechado-em busca-do-prazer.


"Parece una película de Hitchcook, Los Passaros"


19:08

Nem sinal de escurecer, os franceses vão embora da mesa. É a hora: os pombos atacam, sobem desesperados na mesa e bicam sem parar os amendoins e os próprios pombos na busca de mais amendoim para si. Chega o garçom, junta o prato e joga os amendoins no chão, os pombos vão atrás, se esbaldam rapidamente. Voltam a vigília das outras mesas; uma bandeja de amendoim é pouco.


19:42

O café acabou, os pistaches acabaram, a água também. Os pacotinhos de açúcar não, e a animação nas mesas começa a aumentar. Um vendedor de balas e outros doces passa de mesa em mesa com seus produtos. Ele não está se importando muito em vender, quer agitar; começa a cantar uma música com uma voz que surpreende pela suavidade e afinação. Pede para que o pessoal da mesa o acompanhe. É a mesa do aniversariante. Animados que já estavam, o pessoal de terno e tailleurs canta, seguindo o maestro vendedor de doces. Todas as outras mesas guiam seus olhares para lá, com sorrisos que vão do tímido "que constragimento!" a gargalhadas "que engraçado, o aniversariante cantou a estrofe errada!". O vendedor pede aplausos e eles surgem, esparsos, mais tímidos que os sorrisos de antes.


19:56

Penso em ir embora, mas o vendedor agora está em outra mesa conduzindo a cantoria. Uma mesa maior, mas não tão animada, pois só duas pessoas parecem cantar. O aplauso vem mais fraco que antes, e o vendedor, agora assumindo o papel de animador de um auditório ao ar livre, pede, para toda a praça ouvir, que se escolha qual mesa cantou melhor. Aplausos mais intensos para a primeira mesa, inclusive o meu. O vendedor levanta a mão do aniversariante, sob palmas, assobios e até gritos de todos os seus colegas de trabalho, parabenizando pela vitória na cantoria. Mas não dá nenhum doce de prêmio.

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quarta-feira, fevereiro 01, 2006

Cenas Buenairenses (2): La Boca

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La Boca é o bairro:

do Boca Juniors (e de "La Bombonera", o caldeirão mais mortífero do futebol latino)

do Caminito ( uma rua e meia com antigas casas coloridas, com muitos artistas expondo seus trabalhos sobre o Tango, principalmente. Um dos principais pontos turísticos de Buenos Aires.) ,

dos imigrantes italianos, que vieram para para a Argentina no final do século XIX e início de XX e ali se instalaram, construindo sua parte na história da cidade;

dos bares com cantores vestidos com o clássico chapéu que Gardel usava, e , a sua frente, bailando, casais de dançarinos de tango , ricamente vestidos, enquanto turistas e portenhos observam de suas mesas tomando uma Quilmes litro;

na beira do Rio da Prata, que circunda o bairro, definindo seus limites do lado direito, e serve de paradeiro para barcos aposentados, que , juntamente com as ruas de pedra, as casas simples e o povo de olhar melancólico mas falas e gestos apaixonados, formam um belo cenário que não parece pertencer aos pós-modernos anos 2000.



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