quinta-feira, junho 28, 2007

ritmo lento

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Mais uma vez, o ritmo de postagem aqui no blog é lento. Devido a uma séria de fatores bem justificáveis, a propósito.

Como sempre, em breve ele será atualizado constantemente.

Enquanto isso, aí vai uma tentativa de tradução de uma resenha que fiz para o disco "Astral Weeks", do Van Morrison.

Veja bem: uma tentativa, um exercício que, ao menos, me fez ver mais de perto que o trabalho de tradução de textos tem muito de reescrever o texto, principalmente nos adjetivos, que, talvez, são os que mais sofrem por serem mais ligados a determinados contextos culturais.



Van Morrison, Astral Weeks

Van Morrison was 23 years in 1968, year of Astral Weeks released. He was on this solo career (after the finish of his blues/rock band, Then) and also was composed one of your hits, “Brow Eyed Girl”, a year before, with more 12 songs that released in the first album solo, “Blowin‘ your mind”. But Van it was confused, probably because of the first thing that a man stay depressed: problems with lovely’s woman. And was this confused who inspired Van released the 8 songs of “Astral Weeks” in just 3 days.


Maybe more than a simple record, “Astral” is like a therapy, a travel to open’s hurts of someone. It seem Van, in front of a mirror that show all of your pains, is crying for to find a exit; how he don’t receive answers, he decides comes in own mirror. There, Van stays surprised: there aren’t cure for your hurts nor explains for your doubts, even he cries until your death. The report of this melancholic travel in your own mirror, and the redemption for recognize your pain, are the 8 songs of “Astral Weeks”.


Like a few singers in the music, Van Morrison doesn’t shout, or cry, in “Astral Weeks”: he “howl”, left yours feelings leads his voice in the “Astral Weeks” songs.

Your voice, like the greatest singers in blues and R&B, leads each song of record, and the guitar, bass, saxophone, keyboards, flute and others instruments just open doors for the Van’s incredible voice comes and invades some different hearts and lands - when, for any times, Van goes for the first and destroys all of things that he see, leaving for the instrumental part a ungrateful job of say that those powerful things is only a song


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quarta-feira, maio 30, 2007

Borges

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"
Ser imortal é insignificante; com exceção do homem, todos as criaturas o são, pois ignoram a morte; o divino, o terrível, o imcompreensível é saber-se imortal

"


Jorge Luis Borges, O Aleph, pág. 11



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segunda-feira, maio 21, 2007

Instantâneas (2)

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Não há nada que descreva fielmente, embora algumas tentativas circundam, passando perto o suficiente para se ter um esboço daquilo do que se está querendo descrever.

Um exemplo de tentativa:

"Começa com uma certa tremedeira nas pernas, principalmente nas extremidades envolvidas. O sangue parece circular cada vez mais devagar, como se a cada segundo enfrentasse mais obstáculos que o impedisse de correr normalmente pelo corpo - em compensação, nos dedos ele vai ganhando velocidade e destruindo qualquer barreira que o impeça de se mover freneticamente, como se alguém tivesse posto uma substância que os turbinasse e os fizesse funcionar de maneira inversamente proporcional a velocidade com que o sangue circula nas pernas, que a essa altura já não são mais sentidas, levadas do tempo-espaço por alguma estranha sensação de prazer que beira ao incontrolável e tangencia a dor por milésimos de segundo que logo são substituídos por horas de satisfação condensadas em algumas poucas agudíssimas sensações de prazer, que começam a se repetir em cada vez menos tempo e a cada repetição mais intenso é o prazer, a ponto de transformar a dor, que agora é maior, em uma sensação que não é mais dor nem coisa alguma se não aquilo que não se sabe e nunca se saberá o que é - então, é quando volta o sangue a romper os obstáculos e circular livremente pelas pernas, oxigenando-as com o que turbinava os movimentos dos dedos, tornava os lábios subitamente ressecados, paralisava as mãos por poucos segundos, criava viagens ilusórias na mente antes desconectada da realidade e que, agora, finalmente, trazem à tona as lembranças recentes do que acabou de acontecer."


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domingo, maio 06, 2007

Recortes (2)

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Alguns recortes de Florianópolis...

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Bosque do Campus da UFSC



Café no centro



Prainha particular perto de Naufragados


Vista da trilha para Naufragados



Naufragados


Canasvieiras



Manhã em Canasvieiras


Fim de tarde ou início de manhã?



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segunda-feira, abril 23, 2007

Paraná (2)

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Confesso, exagerei no tom ao falar de Curitiba e do Paraná no último post. Não que a impressão que tive do local não fosse aquela mesma, mas talvez tenha pegado pesado demais na hora de escolher as palavras para expressar essa impressão.
Outro ponto importante é que falei das diferenças que, comparando com outros locais (implicitamente o Rio Grande do Sul, reconheço), tornavam o Paraná um estado "insosso". Mas, ficando nessas mesmas diferenças, existem várias delas que tornam o Paraná - especificamente Curitiba - um lugar muito bom de se viver, de "primeiro mundo", como eles mesmos dizem.

Curitiba é organizada de uma forma que Porto Alegre nunca vai ser, por exemplo. Não se vê lixo nas ruas, mesmo o chamado "centrão" é bastante limpo - grande parte disso se deve aos laranjinhas", os garis responsáveis pela limpeza da cidade, espalhados aos montes em cada praça e rua do centro da cidade. Aquele aspecto de sujeira que encontramos em Porto Alegre, principalmente nos arredores do Mercado Público, não existe em Curitiba: por ser difícil de se encontrar lixo nas ruas, anda-se pelo centro respirando um ar mais puro, menos impregnado de sujeiras e poluições diversas.


Trem passando bem perto do centro de Curitiba

Os parques de Curitiba são especialmente belos, bem cuidados e, por consequência, bem frequentados - não há tantos daquele tipo de bagaceiro tão comum no RS, os que só pelo fato de estarem no mundo acham que tem o direito de tirar tudo que podem de alguém que, para eles, não poderia ter nascido em uma situação diferente da deles. Parques como o Jardim Botânico são fechados à noite, o que ajuda a manter eles bem cuidados e agradáveis de se visitar, fazer exercícios ou o que mais se tiver vontade de fazer. Para ficar no exemplo do Jardim Botânico, são tantos metros quadrados de um gramado verde bem cuidado, árvores com sombras bastante agradáveis, que, pelo que comentam, não é difícil casais darem uma escapadinha da atribulada rotina do centro da cidade e darem uma passada lá para namorar e fazer algumas coisas a mais...

Outro exemplo de bom funcionamento é o sistema de ônibus, conhecido como o melhor da América Latina - o que não é exagero, como quase todos os outros títulos que os curitibanos atribuem a sua cidade. São tantas linhas, tipos de ônibus diferentes, interligações, que não há como não se admirar como toda aquela logística intrincada funciona bem, com ônibus saindo e chegando no horário. Tudo direitinho, correto.

Como se vê, essa é a principal impressão que tive de lá: uma cidade corretíssima, onde tudo funciona muito bem - ou parece que funciona muito bem, porque para afirmar de certeza só morando mais tempo lá.


Mate no Jardim Botânico

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segunda-feira, abril 16, 2007

Paraná

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Engraçado como aqui em Curitiba os jornais, a televisão e mesmo as propagandas promovem quase que desesperadamente um "orgulho" paranaense, por vezes até procurando relações improváveis que possam ajudar na criação de uma cultura local. Isso acontece, creio eu, porque aqui no Paraná não exista nenhuma cultura que minimamente possa ser chamada de autêntica; tudo parece ser importado de outros locais, até mesmo as pessoas. Ao menos em Curitiba, impressiona o ufanismo dos seus habitantes; tudo aqui é maior, melhor, mais organizado, como se glorificar a cidade fosse a única forma de dizer que eles existem, que aqui também é um lugar onde se produz uma cultura "autêntica", original.
No fundo, isso tudo é uma forma de disfarçar o coitadismo que eles inevitavelmente sofrem por importar tantas coisas e criar tão poucas...

O principal jornal daqui, a Gazeta do Povo, serve como exemplo. Numa notícia sobre a UFPR (Universidade Federal do Paraná), que informava sobre novos cursos que serão abertos nela, o título da matéria era o seguinte:

"3º maior do país, UFPR vai abrir mais cursos noturnos"

Um exagero o trecho até a vírgula , não?
Como se o fato de a UFPR ser a terceira maior do país fosse mais importante que a informação em si, que é a abertura de novos cursos noturnos.

O caso acima não é isolado; em praticamente todo os jornais daqui, assim como nos telejornais , há um exagero em exaltar as qualidades do estado, numa, pra mim, nítida necessidade de auto-afirmação, de mostrar que aqui não só se produz cópias do que de melhor foi feito em outros lugares mas que, também, há coisas originais.

Esse coitadismo disfarçado de ufanismo exagerado é ainda mais perceptível nas pessoas que moram em Curitiba. Todos parecem ter características copiadas de pessoas de outros lugares, como se o paranaense legítimo fosse uma soma de paulistas, catarinenses, gaúchos, cariocas, etc. Acabam, em sua maioria, sendo pessoas insossas, "normais" ao extremo. Em algumas andadas por aqui, não vi nenhuma loucura, ou mesmo aqueles malucos clássicos, bêbados, enfim, pessoas fazendo coisas que não se imagina, que te surpreendem. Claro, aqui existem lugares e pessoas interessantes, mas tudo parece ser normalzinho demais, perfeitinho demais, sem aquele tipo de erro que tornam as coisas mais interessantes.

Talvez seja pouco tempo para uma avaliação mais profunda, ou, então, essa minha primeira impressão (que não é bem primeira, porque já vim para o Paraná outras vezes e sempre tive essa sensação) pode ser derrubada em breve.
Mas não acredito muito nisso não...


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sexta-feira, abril 06, 2007

Singelo

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Do praticamente finado blog do Marcelo Camelo, vocal e guitarra do Los Hermanos:


eu sou só um você
que você não quis
e querer é coisa tão pequena
que só não sou você por um triz


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terça-feira, abril 03, 2007

Love

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Do mestre Julio Cortázar em Rayuela, cap. 93:

"

Pero el amor, esa palabra... Moralista Horacio, temeroso de pasiones sin una razón de aguas hondas, desconcertado y arisco en la ciudad donde el amor se llama con todos los nombres de todas las calles, de todas las casas, de todos los pisos, de todas las habitaciones, de todas las camas, de todos los sueños, de todos los olvidos o los recuerdos. Amor mío, no te quiero por vos ni por mí ni por los dos juntos, no te quiero porque la sangre me llame a quererte, te quiero porque no sos mía, porque estás del otro lado, ahí donde me invitás a saltar y no puedo dar el salto, porque en lo más profundo de la posesión no estás en mí, no te alcanzo, no paso de tu cuerpo, de tu risa, hay horas en que me atormenta que me ames (cómo te gusta usar el verbo amar, con qué cursilería lo vas dejando caer sobre los platos y las sábanas y los autobuses), me atormenta tu amor que no me sirve de puente porque un puente no se sostiene de un solo lado, jamás Wright ni Le Corbusier van a hacer un puente sostenido de un solo lado, y no me mires con esos ojos de pájaro, para vos la operación del amor es tan sencilla, te curarás antes que yo y eso que me querés como yo no te quiero. Claro que te curarás, porque vivís en la salud, después de mí será cualquier otro, eso se cambia como los corpiños. Tan triste oyendo al cínico Horacio que quiere un amor pasaporte, amor pasamontañas, amor llave, amor revólver, amor que le dé los mil ojos de Argos, la ubicuidad, el silencio desde donde la música es posible, la raíz desde donde se podría empezar a tejer una lengua. Y es tonto porque todo eso duerme un poco en vos, no habría más que sumergirte en un vaso de agua como una flor japonesa y poco a poco empezarían a brotar los pétalos coloreados, se hincharían las formas combadas, crecería la hermosura. Dadora de infinito, yo no sé tomar, perdoname. Me estás alcanzando una manzana y yo he dejado los dientes en la mesa de luz. Stop, ya está bien así. También puedo ser grosero, fájate. Pero fijate bien, porque no es gratuito.

¿Por qué stop? Por miedo de empezar las fabricaciones, son tan fáciles. Sacás una idea de ahí, un sentimiento del otro estante, los atás con ayuda de palabras, perras negras, y resulta que te quiero. Total parcial: te quiero. Total general: te amo. Así viven muchos amigos míos, sin hablar de un tío y dos primos, convencidos del amor-que-sienten-por-sus-esposas. De la palabra a los actos, che; en general sin verba no hay res. Lo que mucha gente llama amar consiste en elegir a una mujer y casarse con ella. La eligen, te lo juro, los he visto. Como si se pudiese elegir en el amor, como si no fuera un rayo que te parte los huesos y te deja estaqueado en la mitad del patio. Vos dirás que la eligen porque-la-aman, yo creo que es al verse. A Beatriz no se la elige, a Julieta no se la elige. Vos no elegís la lluvia que te va a calar hasta los huesos cuando salís de un concierto. Pero estoy solo en mi pieza, caigo en artilugios de escriba, las perras negras se vengan cómo pueden, me mordisquean desde abajo de la mesa.

"
(...)


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segunda-feira, abril 02, 2007

Aniversário

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Passou o mês de março e eu me esqueci de falar sobre o dois ano do blog. Não que tenha muito o que falar, afinal, é apenas um blog. Mas, como no aniversário de um ano, é notável observar que através dele eu acabo percebendo que certas idéias minhas estão amadurecendo, dando lugar a outras com maior tempo de maturação - inevitável ou não, é assim que costuma acontecer, a cada ano, com muitos que percorrem o curto trecho dos vinte aos trinta anos como se, quando chegassem lá, tivessem que forçosamente parar de amadurecer, porque a partir de então pode correr-se o risco de antecipar todos os males que alguns anos mais tardes virão (e não serão tão males se virem na hora certa).

Aquela coisa jogada, fruto de uma grande curiosidade em tentar entender certas coisas e, através da fala/escrita, desenvolvê-las sem que elas ainda estejam consolidadas para mim, cedeu lugar aos poucos para uns, digamos, 'exercícios de pensamento', práticas que ter por objetivo a reflexão pura e simples, mais do que uma tentativa muitas vezes frustrada de entendimento de algo que ainda não se está preparado para entender.

Não que aqui está um 'filósofo' tentando buscar explicações para todos os males do mundo; é simplesmente alguém que quer se conhecer melhor e usa o que aqui é escrito para monitorar o próprio amadurecimento das idéias.

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domingo, março 25, 2007

Instantâneas (1)

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De vinil


Domingo de manhã. Não chove lá fora mas ameaça. Céu cinza claro, que tão bem combina com a preguiça do domingo. Abre-se a cortina do quarto; aos poucos a claridade também vai revelando a poeira deixada no chão avermelhado da noite anterior, regada à luzes confusas de abajur, amarelas como não há outro amarelo.
Amarelo. Cinza. Vermelho.
Silêncio na rua, iluminada em preto e branco pelo sol cinza de perto do meio dia. Alguns movimentos na rua tentam ser coloridos, mas se entregam quando vêem a fumaça, de um cinza mais escuro, saindo de algumas já acesas churrasqueiras.
Caminha-se tranquilamente até o banheiro, necessidades matinais. Caretas no espelho, à procura de espinha e das lembranças da noite anterior. Cozinha ainda escura, acende-se a luz p&b e o café é preparado.
O destino agora é o quartinho mais escuro ainda. O depósito, dos objetos inúteis da casa e das coisas que pararam no tempo, está dessarumado, almofadas ocupam o único sofá. Dá para sentar igual, assim como esticar as pernas e colocá-las na cadeira em frente da escrivaninha. Gole no café quente traz de volta a lembrança do dia anterior, quando o mesmo café era companheiro da idéia de deixar a manhã de domingo para se escutar música, somente. O aparelho ao lado do sofá acende a luzinha amarela, primeira imagem colorida do dia. Volta-se a atenção para ele. Caixa ligada começa a emitir um som gorduroso, a começar pelo baixo grandão e a terminar pela voz nitidamente gravada ao vivo, há uns 36, 37 anos atrás, mais precisamente.
O olhar para a parede cheia de medalhas, uma mão segurando a xícara de café, o ouvido quase grudado na caixa de som, o domingo se torna o mesmo de umas décadas atrás, quando, ainda como um projeto de nascimento na cabeça de uma jovem mulher, ele reinvindava um domingo como esses, musical e p&b, saído diretamente de um disco de vinil.


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terça-feira, março 20, 2007

Cortazarianas Beatniks (5)

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Com o meu outro blog em férias forçadas pelas diversas ocasiões pra lá de extasiantes ocorridas nos últimos dias, esse aqui pode vir a ser atualizado mais frequente, sem mais posts pedindo desculpas a si mesmo.

Retomo aqui uma velha seção nomeada "Cortazarianas Beatniks". O nome dela já diz tudo de suas influências, embora não especifique muito bem quais suas verdadeiras intenções. Creio que seja como um treino, um exercício de criação de metáforas.

Esse trecho abaixo é retirado de um possível conto meu, nomeado Passeio:

"
É então que junta sua cabeça com o joelho e encosta ambos na mesma única pedra presente, para desta forma sentir a estranha trepidação que o percorre por dentro, indo do último fio de cabelo encharcado ao dedo do pé aquecido dentro do tênis que reúne todas as forças possíveis para se juntar ao restante do corpo e encostar-se à pedra, que agora parece estar quente com uma secreção brotada dele, e é através desse líquido que a pedra vai revelando, na mesma velocidade com que vai sendo molhada, os diversos destinos que parecem se agrupar em pequeninos pontos que agora preenchem toda a vasta superfície da pedra e que a transformam em uma poça d’água que ele acaba de pisar, revelando, como num espelho quebrado, as diversas facetas grotescas das escoriações que estão no seu corpo como lâminas enfileiradas numa suposta formação de um conjunto marcial apontando para os mesmos destinos que antes se revelaram na superfície da pedra, infinitos, desconexos, mas formatados e direcionados à algum lugar já conhecido (...)
"

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segunda-feira, março 12, 2007

Correria

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Correria de final de curso, início da vida pós-moleza de estudar, comer, durmir e outras cositas mais sem se preocupar em se sustentar.
Aqueles períodos em que o "inconsciente" pede para ser escutado e a correria das obrigações para amanhã, estritamente necessárias para ontem, torna isso impossível. Mas vai ter uma hora, talvez a hora certa, que a "resposta" do insconsciente, a tanto tempo trabalhada e praticamente pronta, sairá ao natural, e vai trazer o caminho a ser seguido.
Talvez o melhor caminho, talvez o por mais tempo desejado, talvez o tão difícil que até se tenha esquecido, talvez o mais fácil e burocrático: ainda não tive tempo para escutá-lo e saber o que ele me apresenta.
Mas semana que vem farei isso.

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terça-feira, fevereiro 27, 2007

Na pior

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"Oh, mal contundente, a condição da pobreza"
Chaucer



Término de faculdade, começam a se fazer planos breves para os meses que virão, escolher qual dos inúmeros caminhos que se apresentam nesta época será o inicialmente traçado.

Numa dessas muitas caminhadas sem rumo que servem de válvula de escape para a cabeça planejar alguma coisa, entrei numa livraria daqui – a Cesma – e fui dar uma vasculhada nos livros, procurando idéias que pudessem me fazer escolher um dentre esses caminhos.

De cara, na prateleira dos livros de jornalismo, achei um de capa amarela, do George Orwell. O título me chamou atenção: “Na pior em Londres e Paris - a vida de miséria e vagabundagem de um jovem escritor no fim dos anos 1920”.

Eu, que sempre quis viajar sem rumo durante o maior tempo que conseguisse agüentar sem ter uma casa fixa, tinha como um dos caminhos pós-formatura justamente esse, de viajar e passar trabalho, porque não vai ter outra época tão propícia a isso quanto esta, dos vinte e poucos anos sem nada de muito fixo com que se prender em determinado local.

Comprei o livro, com a expectativa dele me trazer algum tipo de inspiração para viajar, uma redenção na experiência de “estar na pior” em lugares tão distintos e interessantes quanto Londres e Paris.

Bom, terminado de ler a primeira parte, que trata dos anos que Orwell viveu na miséria mesmo em Paris, dá para se dizer que ele realmente trouxe uma inspiração, mas não bem uma sensação de redenção de “estar na pior”.

Orwell conta tão em detalhes das situações de pobreza que passou – os dias sem comer nada e os dias comendo pão seco, as semanas sem tomar banho, os trabalhos escravos nos porcos hotéis e restaurantes franceses – que é difícil querer passar por situações exatamente iguais aos que ele passou.

Parecidas, quem sabe, mas não bem por ser algo “redentor”, que trará uma nova “perspectiva” de vida, de valorizar certas coisas banais como ter o que comer e onde morar, e sim por um grande interesse meu em querer viver papéis diferentes em lugares diferentes, independente de quanto eles podem ser extenuantes – ainda que dentro de um limite do “tolerável”, o que Orwell, por vezes, até passou da conta, trabalhando 17 horas por dia, por exemplo.

Tenho um desejo, que não é nada secreto, de fazer muitas e variadas coisas: ser marinheiro na Noruega, estivador no Chile, pescador no Havaí, garçom em Paris, colhedor de frutas no interior da França, dentre outras coisas tão semelhantes e diferentes. Viver situações inusitadas - os momentos “modestamente excepcionais” que fala o Cortázar – em lugares inusitados, com pessoas inusitadas; E, se para tais momentos, precise passar trabalho, não há problema: passa-se trabalho.


Não há um objetivo definido em querer viver desta maneira; talvez, seja exatamente a falta de um objetivo fixo e bem delimitado para toda uma vida que sirva de motivação para se querer ter esse tipo de vivência, múltipla e notadamente instável.


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sábado, fevereiro 24, 2007

Normal

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Monografia entregue, férias até segunda ordem.
Então, o Subbacultcha volta ao seu "normal".
Em breve, ele irá se preparar para algumas mudanças....


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sexta-feira, janeiro 19, 2007

Devagar

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O Subbacultcha tá devagar, mas é por hora. Até início de março estou envolvido com a monografia, então as postagens serão esparsas.
Mas, pensando um pouco, o blog sempre foi imprevisível: tinha vezes que ele era atualizado diariamente, outras semanalmente, algumas poucas até mensalmente. É assim mesmo. Ele vai completar quase dois anos, talvez aqui seja o melhor lugar em que a minha "evolução" no aspecto texto seja melhor percebida. Quem sabe ele continue sendo esse lugar por um bom tempo...

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sexta-feira, janeiro 12, 2007

Prefácios (3)

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Daniel Pellizzari e o seu "O livro das cousas que acontecem", lançado pela Livros do Mal, temporariamente finada editora do Daniel Galera e do Pelizzari.
O livro é de contos, e quase todos tem um prefaciozinho. Escolhi o prefácio do livro inteiro, os de alguns contos, e o posfácio. Aí vão alguns deles, na ordem:



"Tudo são buracos, dizia um velho professor de vernáculo, hoje num deles - e eu sigo-lhe a lição à risca, muito melhor que ir ao cinema ou ao teatro, aqui não há camuflagens, as coisas simplesmente acontecem"


Campos de Carvalho, Vaca de Nariz sutil



"So i wasn't dreaming, after all, she said to herself, unless - unless we're all part of the same dream"

- Lewis Carrol, Through the Looking-glass.

No conto "Agosto".



"Agora estou doente: nós vamos ser felizes. Enfim estou doente"

- Georges Bataiile, O azul do céu


No conto "História de amor#62".



"Se o ranho não tivesse feito de mim um homem, eu teria me tornado um ranhoso em vez de um homem"


- M. Aguêiev, Romance com cocaína


No conto "O próprio sêmen".


"E ademais, tudo bem considerado, é verdade que em tudo isso há alguma coisa. Por mais que se diga, aventuras como esta acontecem neste mundo, sendo raras, mas acontecem."

Nikolai Gógol, O Nariz

Pósfácio.

Como se vê, todos eles tem uma sequência lógica, ou, talvez, que ajudem a contar uma história.


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sábado, janeiro 06, 2007

teste

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Caralho, inventaram um programa que atualiza o blog sem estar conectado a internet. Não sei se acho legal ou fico com medo do que amanhã poderá vir...
Mas, por hora, é só um teste mesmo.

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quinta-feira, janeiro 04, 2007

New year's life

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2007, e logo não restará mais faculdade para fazer, tempo livre para se cansar de pensar em coisas aparentemente importantes, quarto para cansar de ficar, rua para caminhar sem preocupação, trem para olhar sentado junto a um cigarro, etc, etc,

Quem sabe apareçam ruas apinhadas de gente para não-caminhar, luzes para confundir a vista cansada do final do dia, infinito no horizonte para não enxergar, pessoas novas para consertar feridas e, acima de tudo, pouco tempo para pensar em coisas aparentemente inúteis e muito tempo para fazer coisas aparentemente importantes.

Questão de aparência, ou de ponto de vista, um desafio a mais para uma vida aparentemente tão vazia de verdadeiros desafios - daqueles de te levar ao inferno profundo e te fazer voltar tão chamuscado que para sempre as chamas te acompanharão, seja lá onde elas se fixem no teu corpo - que o primeiro que apareçe com a imponência que o nome traz, Desafio, com letra maiúscula para não deixar dúvida de sua potência, provoca apenas umas nuvens no horizonte que nunca foi claro, mas sempre pareceu ser.

Ou seja, se até hoje as complicações foram poucas e criadas para exatamente tentar suprir a falta delas, agora estas ainda não se apresentam como todos as descrevem porque, ainda, não tiveram a importância de sua falta reconhecida para finalmente aparecerem e propor o Desafio.

Será inevitável a inconsciente busca, preparação e posterior solução dos desafios criados por nós? Ou será que é possível, como agora me parece (e acabo de entregar que por hora realmente é) ter um controle mínimo, por mais caótico e intencionalmente sem um aprofundamento maior que seja, da frequência com que eles apareçem, como uma chamada escolar, para então bolar planos e mais planos sem sentido para se tirar o máximo de cada uma das ocorrências que, agora mapeadas, podem signficar mais do que realmente seriam se não tivessem sidos descobertas?

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segunda-feira, dezembro 18, 2006

Campeão (2)

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Repetindo o post (e o nome do mesmo), mas não o título:

Campeão do Mundo!


Que coisa o futebol.

Um texto que eu fiz um tempo atrás, motivado por uma vitória dramática (mas não tão emocionante quanto essa) sobre o Boca Juniors, na Copa Sul-Americana. Hoje, a vitória é muito maior (não no placar, o mesmo 1x0, mas em importância), o título é muito mais grandioso, mas o sentimento que estava por trás (e para sempre estará, em todos os jogos do Inter ou talvez do Brasil) é o mesmo.

" Sempre é difícil para alguém que ama futebol entender o porquê de certas pessoas não gostarem de futebol. Também deve ser difícil - para os que não gostam – entender o porquê de tamanha paixão por uma coisa tão , digamos, prosaica .Mas digo que deve ser difícil, porque não sei; sou dos mais apaixonados amantes do futebol, dos que não entendem - mas respeitam, ao menos – como alguém pode não gostar de futebol. Paixão, amor, gosto, cada um tem o seu. Mas impossível não deixar um recado para os que não gostam: vocês não sabem o que estão perdendo!

O futebol, em sua magia que desperta as mais variadas formas de um único sentimento chamado paixão, não é o esporte mais popular do mundo por acaso. É especial, uma junção de pessoas desconhecidas entre si mas que, nesse mundo à parte feito por gente de coração forte, se torna unida umbilicalmente, tão suscetíveis a sentimentos fortes que quando são tocados em seu íntimo por um gol, explodem, gritam, pulam, saem de si em instantes que o tempo para e só volta a andar quando todo esse êxtase é diluído em doses homeopáticas de realidade extra-campo, de uma vida real que o futebol insiste em não querer fazer parte para poder, assim, fazer o que bem entender com a sua vida."


Que coisa o Futebol.

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segunda-feira, dezembro 11, 2006

Prefácios (2)

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O segundo da coleção.


"O que desejamos é trazer para um mundo fundamentalmente descontínuo toda a continuidade que ele pode sustentar"


De Até o dia em que o cão morreu, do gaúcho (de criação e coração) Daniel Galera .



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sábado, dezembro 02, 2006

Prefácios (1)

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Aqui começa (?) uma Coleção de Prefácios que acho bastante interessante.

O primeiro é de uma singeleza incrível, bem ao gosto do escritor uruguaio Eduardo Galeano:

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" As páginas deste livro são dedicadas àqueles meninos que uma vez, há anos, cruzaram comigo em Calella da Costa. Acabavam de jogar uma pelada, e cantavam:

Ganamos, perdimos,
igual nos divertimos"


Do livro Futebol ao sol e à sombra, do Eduardo Galeano.

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segunda-feira, novembro 20, 2006

Recortes

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Fotos de viagens recentes.
Imagens vistas através de uma longínqua janela que abriu-se e fechou rapidamente, captando tudo que conseguia.
Recentemente foi aberta de novo. Já não sabe onde está, se lá ou aqui, mas não vai fechar enquanto não souber.
Não tem pressa alguma; enquanto passa o tempo, deixa as imagens repousarem, tranquilas em sua indecisão.
Quando escolherem seu lugar, é só fechar, abrir de novo e esperar.



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quarta-feira, novembro 08, 2006

Influência

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Bueno, depois de muito tempo, aqui está o Subbacultcha em resquícios de se manter ativo, mesmo que quinzenalmente ou mensalmente ou seja lá qual outro mente em que a atualização venha acontecer. Se bem que não é atualização, é um post simplesmente, porque se ele nunca esteve desatualizado, porque teria que ser atualizado? O que é escrito aqui não tem mesmo prazo de validade - pelo menos para os outros´que não o que escreve aqui.

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Dia desses resolvi pensar alguns minutos sobre alguma coisa que a muito tempo pensava sem saber: as influências de todas as coisas sobre todas as nossas ações. Seja a leitura de um livro que modifica o texto na hora de escrever ou a audição de uma música que modifica o humor em determinado momento, chega a impressionar como nos colocamos em mudança quando fazemos qualquer uma dessas e outras ações espontâneas e quase insconscientes. É uma conversa num bar que traz um ângulo diferente sobre um assunto, e desse ângulo sai um pensamento que ganha força na explicação para outra pessoa, agora já na sala de aula, e que se solidifica ao ganhar mais argumentos de alguma leitura, e que, depois de consolidado por inteiro, modifica a percepção de certas coisas, e essa percepção produz outro pensamento, que bate de frente com outro tão forte numa mesa de bar e que, colidindo-se, abre-se mais facilmente para a entrada de outros pontos de vistas que se solidificarão na mente quando forem passados para um outro meio, e que se fecharão - por hora - para logo depois mudar a percepção de certas coisas antes mal vistas ou nem percebidas, e a através dessas coisas agora percebidas mostrarão um outro ponto de vista, para ficar só em argumentos, de um assunto que já se achava fechado, e abrindo-o, toda esse mundo novo descoberto agora correrá para fazer parte e guerrear por esse novo argumento que sairá das cinzas de um outro que se deu por fechado a bastante tempo atrás... E assim segue indefinidamente, sem prazo para acabar (ainda bem) e muito menos aviso prévio de qual dos assuntos já dado por fechado se abrirá para a nova percepção, sedenta de saber o que é aquela coisa tão retrógrada que ele pensava a bem pouco tempo atrás e achava que era um exagero de consciência para a idade (coitada da mente jovem que acha que está a frente do seu tempo)


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Uma questão que parece não ter prazo para ganhar uma resposta, assim como ninguém sabe se haverá alguém para dizer quando a resposta for encontrada, é a de até quando essa influência será o que diz a própria palavra, influência, para toda e qualquer ação e pensamento humano. Na minha ignorância atual, creio que a influência diminui com o passar do tempo, mas nunca cessa; depois de algumas boas doses de experiência, que tanto podem ser adquiridos em dois meses quanto em cinquenta anos, ela se torna uma porta aberta, controlada mas perigosa, pronta para dar o bote quando a guarda baixar e pedir perdão sem desejar. Na verdade, falar em "dar um bote" pode ser encarado como algo pejorativo e maligno, o que está longe de ser a influência da influência; ela é benéfica, auto-indulgente também, mas em doses certas.


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De modo que não há pessoa que não seja influenciada pelas coisas do meio em que vive, e também não há influência que não modifique um nesgo da nossa tão grandiosa percepção das coisas que habitam e fazem esse mundo cada vez mais incompreensível na medida que tentamos entender cada passo da longa caminhada ao fim.


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domingo, outubro 15, 2006

Back Home again

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Bueno, já se passou alguns dias, mas, novamente, de volta a casa. Desta vez, bem mais que nas outras, o baque do recomeço da rotina de viver somente numa mesma casa não foi muito grande, em grande parte devido à aprendizagem que as outras viagens trouxeram. O principal baque agora é outro, e nada tem a ver com viagem, mas sim que provavelmente essa foi a última viagem "de férias".

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Bom, aí vão outras fotos:



O Augusto, recém-acordado, olha Buenos Aires e sente falta do seu ursinho, coitado.






Buenos Aires Calling....








Desembarque






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"Ali jaz um corpo estendido no chão"








Bebendo, esperando a Milanesa com papas fritas - paga no cartão mágico, claro.






Almoço em "família", no hostel da Carla.


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No epicentro de Cordoba.







Cordoba, Quilmes, terraço, noite, três pessoas e muitas discussões probabilísticas.

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segunda-feira, outubro 09, 2006

Buena Onda

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Bueno, Cordoba. Segunda cidade maior da Argentina, junto com Rosário, uma mistura de Porto Alegre (pelo tamanho e tipo de ruas) com Santa Maria (pelo números de estudantes e mulheres bonitas). Cidade muito seca, os parques e o campus da Universidade Nacional de Córdoba (umadas mais velhas e importantes da América Latina) quase sem grama, como um deserto.



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Chegamos aqui de onibus, depois de uma viagem estranha e cansativa de Trem até Santa Fé, na provícia de Entre Rios, no centro da Argentina.









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Aqui, encontramos o Gustavo, nosso colega que faz intercâmbio na universidade daqui. Ele está muito bem instalado, cercado de gente legal e numa cidade pra lá de interessante, quase comparada a Buenos Aires em atrativos noturnos (seja los bares ou las chicas).







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No domingo, vimos o gran clássico do fútbol argentino, Boca x River, em um bardaqui de Cordoba. Bastante interessante, os hermanos cantam a toda hora, nao deixam de incentivar seus clubes. Deu 3x1 pro River, que tem uma torcida ligeiramente menor que a do Boca.








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Buena onda é uma gíria daqui que quer dizer, mais ou menos, "legal", "jóia", "massa".


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sexta-feira, outubro 06, 2006

Suerte

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Bueno, ainda em Buenos Aires, mas de saída. Andamos pela cidade, pelos bares, fazendo parte de várias situacoes surreais. Por exemplo, agora, estamos no hostel de uma colega de Santa Maria almoçando junto de mais outros brasileiros, escutando Los Hermanos e tomando mate.

Ontem, fomos ao show do Los Hermanos aqui em Buenos Aires. De graça ainda, porque a nossa amiga Constanza recém tinha entrevistado a banda para um programa de rádio na qual ela estagia, e conseguiu entrada para nós.

Bueno, nao to conseguindo escrever direito. Hoje vamos para Santa Fé, de trem, e sábado estamos em Córdoba.

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Tigre





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Descanso em Tigre, perto da foz dos rios Paraná e Uruguai.






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No caminho a Tigre, no trem.

quarta-feira, outubro 04, 2006

Em outro lugar

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Bueno, cá estamos, em Buenos aires. Bem longe do "planejado", mas acontece.
Duas caronas até Livramento, e a direción teve que mudar para o Uruguai, por Montevideo. Algumas cervejas por lá, um onibus e um buquebus (uma balsa que mais parece um iate pequeno) depois, chegamos em Buenos Aires. Agora mais uns dias por aqui, mas a maioria das fotos por aqui vem depois.



* Por ser um teclado castelhano, algumas coisas saem diferentes, sem o cedilha.

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No onibus para Montevideo





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Em Montevideo, no "Pony Pisador"









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Na travessia Colonia - Buenos Aires, dentro do Buquebus, amanhecendo







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Aqui em Buenos Aires encontramos com a Coni, uma amiga nossa que mora por aqui. Na foto ela nos apresenta um meio que beco, daqueles lugares que só quem mora na cidade pode apresentar




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domingo, outubro 01, 2006

Viajar é preciso (2)

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Novamente, de novo, é preciso viajar (desculpa a redundância, mas aqui ela é necesssária). Mochila, plaquinha, físico e acima de tudo espírito preparado, é a hora de on the road again.

Não com a mesma vêemencia das outras vezes, mas vou tentar manter um diário de viagem, sempre na medida das possibilidades de encontrar internet acessível por aí.

Vamos em dois. O destino certo, por enquanto, é passar em Córdoba e Buenos Aires, duas cidades que temos colegas fazendo intercâmbio. O resto não se sabe ao certo, e é bom que seja assim.

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segunda-feira, setembro 18, 2006

Manifesto

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Três jovens da cidade de Santa Maria, RS, num dia sem muitas coisas para se fazer, resolveram caminhar em direção a antiga Gare da estação férrea da mesma cidade. Desde 1996, quando houve a privatização das linhas de trem e a consequente suspensão dos vagões de passageiros, a gare funciona apenas como um espaço de passagem de pessoas entre bairros. Houve tentativas de fazer do local um espaço cultural, mas as tentativas continuam até hoje. O parque ferroviário em que a gare se insere continua lá, desta vez servindo a empresa particular que comprou as linhas da região sul do país.

Pois bem. Neste dia, os três jovens sem afazeres momentâneos, decidiram ir até lá, observar a bela paisagem dos morros ao fundo e, logicamente, observar os movimentos dos trens que ali circulam sem uma periodicidade explicável. Ficaram algum tempo lá, até que resolveram chegar mais perto dos trens, para ver se conseguiam satisfazer sua enorme curiosidade de estar numa destas máquinas de alguns muitos e muitos anos de existência em movimento. Conseguiram dar uma breve volta pelo pátio, e só.

Esse dia acabou sendo considerado, tempos depois, como o marco inicial de uma idéia um tanto saudosista, outro tanto aventuresca: viajar de trem, de carona nos vagões de carga.





Alguns meses depois, já com algumas viagens por cidades da região no currículo, eles resolveram tornar aquela atividade, que beira a ilegalidade, em um passatempo regular. Descobriram que, realmente, o trem só aceita um passageiro legal: o maquinista. O restante das pessoas que se incorporam no trem não podem ali estar, apesar de também não quererem nada além de estar ali.

De algumas breves complicações com a segurança da empresa particular que adminsitra a linha à simpatia dos policiais foi um curto passo. Nada se pode fazer, dizia a polícia, que depois de recolher os jovens, levavam-os para a sua sede, ouviam suas histórias e, no fim, acabavam levando-os para um local onde pudessem continuar sua viagem, de trem.

Os jovens conheceram as dificuldades das viagens, mas quanto mais elas existiam, maior era o interesse deles em conhecê-las. Numa destas, descobriram que as pontes onde os trilhos passam são fechadas em cima por pequenas armações de concreto, espaçadas cerca de meio metro entre uma e outra. O local mais frequente de viagem, em cima dos vagões, ganhava um perigo novo: para passar essas pontes, só deitado - ou então a vida dos jovens poderia acabar ali.

Ao contrário de impedí-los, o perigo os motivou. Queriam saber mais sobre os vagões, para poderem escolher os melhores a se viajar. Acharam algumas informações, mas nada que os desse alguma certeza.

Depois de um tempo, viram que não precisavam descobrir mais nada. Afinal, talvez fosse a incerteza que os motivasse a estarem ali, erm cima de um trem, indo para algum lugar pouco conhecido e, por isso mesmo, muito admirado.

Para organizar seus anseios comuns, resolveram escrever um pequeno manifesto, o Manifesto dos Caroneiros de trem. É um embrião inicial de alguma coisa que não se sabe no que vai dar, ou mesmo se vai dar em alguma coisa. É uma incerteza, mas que já se adequou ao "mundo moderno (me tira logo deste inferno!)*" criando uma comunidade no orkut.

Bom, aí está o manifesto:


Por algum motivo que hoje só parece ser nostalgia de um tempo não vivido, nós gostamos de trem. Deles chegando numa pequena cidade, barulhentos e ao mesmo tempo discretíssimos em sua rotina que não pára nunca; deles apitando tragicamente anunciando sua partida lenta e que parece sempre estar atrasada; deles parados nos trilhos fazendo manobras incompreensíveis aos nossos olhos de fora da companhia que os administra. E desse fascínio por muitos incompreendido e por outros tantos perfeitamente aceitável é que, sem aviso muito prévio, decidimos viajar com eles. O problema é que são trens de carga os que vemos e admiramos, e trens de carga hoje só levam um passageiro, o maquinista.

Por esse pequeno detalhe, nossa viagem, para ser concretizada, tem de ter um embarque às escondidas, e muito provavelmente uma saída da mesma forma, para que não nos vejam e nos acusem de uma coisa ilegal como roubar o conteúdo que os misteriosos vagões carregam consigo. Não é, nunca foi e nunca vai ser essa a nossa intenção.

O que queremos, na verdade, é apenas curtir um vento na cara, viajar por campos ermos sem a barreira natural do asfalto ou das rodas, escutar a sinfonia trepidante dos encaixes de cada pequena parte dos trilhos, descarregarmos uma grande dose de adrenalina em todo o nosso corpo, e, acima de tudo, conhecer o significado pleno de uma palavra que hoje virou utopia de sonhadores ultrapassados: a liberdade.



Longe do rigor de um manifesto normal, esse é apenas uma compilação de anseios comuns, como já foi dito. Por trás dele, talvez, esteja um sentimento de querer compartilhar experiências e sensações, momentos e vivências que farão parte das lembranças de uma época em que se podia, sim, desejar a liberdade como um fim qualquer para alguma coisa.






*: Créditos a música ainda não lançada da banda Autoramas, Mundo Moderno.


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domingo, setembro 10, 2006

Canção

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Um trecho de "Song of myself", ou "Canção de mim mesmo", do grande poeta americano Walt Whitman, um dos inventores do verso livre na poesia. Falava dos Estados Unidos, mas de forma tão universal que é difícil alguém dizer que não é a sua terra que está sendo retratada - ou, então, a si mesmo de quem está se falando.


Eu celebro a mim mesmo, e canto a mim,
E o que assumo, tu assumes,
Pois todo átomo pertencente a mim também pertence a ti.

Vagueio e convido minha alma,
Me curvo e vagueio à vontade e observo uma haste de grama do estio.

Minha língua, todo átomo de meu sangue, formado deste solo, deste ar,
Nascido aqui de pais nascidos aqui de pais daqui, e seus pais também,
Eu, trinta e sete anos, em perfeita saúde inicio,
Esperando não cessar até a morte.

Credos e escolas suspensos,
Recuando um momento satisfeito com o que são, mas nunca esquecido,
Ancoro para o bem ou mal, permito falar sob todo risco,
Natureza sem controle com energia original.




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domingo, agosto 27, 2006

Freedom

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Entre Júlio de Castilhos e São Martinho da Serra, centro-norte do RS, voltando para Santa Maria no alto de um vagão de trem.

Cerca de meia hora depois de estar caminhando por Júlio de Castilhos, sem rumo, e escutar um apito de trem não muito próximo, mas o suficiente para fazer com que as pernas corressem como nunca e descessem um pequeno barranco aos tropeços.

Lá embaixo, com o trem passando em uma velocidade razoável logo a frente, a adrenalina de tentar acompanhar o trem na corrida e subir na escada de um vagão é maior do que qualquer medo, e na segunda tentativa, ela transforma-se até em uma emoção, inexplicável, de se estar a mercê da morte, mas mais perto ainda de se sentir livre como nunca outra vez antes na vida.



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quinta-feira, agosto 17, 2006

Campeão

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Jogo dos mais sofridos de todos, mas, enfim, o Inter é o Campeão da América.



AÊÊÊÊÊEÊÊÊ!



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quinta-feira, agosto 10, 2006

Conto

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Um trabalho de uma das disciplinas da faculdade (que é de Jornalismo) dava o início e o fim de um conto do Moacyr Scliar, e nós fazíamos o meio.

Maneira um pouco diferente daquela velha brincadeira, por sinal muito divertida, de continuar a história. Saía tanta bobagem sem qualquer nexo uma com as outras que parecia competição de quem criava a continuação mais absurda.

Mas como é um trabalho de faculdade, de um professor pra lá de metódico, há um pouco mais de seriedade. Mas só um poquinho.

Aí vai o resultado




MUITOS E MUITOS METROS ACIMA DO BEM E DO MAL



No fim da rua havia um terreno baldio, e no fundo deste, uma casa em ruínas, na qual Lúcia e eu costumávamos brincar. Todos diziam que a casa era mal-assombrada, que fantasmas eram vistos seguidos por ali. Mas Lúcia e eu não tínhamos medo. Não tínhamos medo de nada. Estávamos ambos com dez anos, idade em que as crianças costumam ter medos de fantasmas; mas nós, nós não tínhamos medo de nada – até que

uma tarde, daquelas que parecem não ter diferença para inúmeras outras, saímos da aula mais cedo e fomos para a casa em ruínas, Lúcia e eu. Era começo de inverno, dia cinzento, um dos primeiros dos inúmeros que seguiriam assim até o fim daquele inverno. Como tínhamos tempo, Lúcia sugeriu um outro caminho, que apenas ela conhecia: seguir até o início da malha ferroviária, que ficava há algumas quadras do terreno, e de lá seguir pelos trilhos até os fundos da casa.


Fomos caminhando pelos trilhos, quase correndo, na torcida silenciosa pela presença de um trem – que naquela época costumava passar diversas vezes ao dia, carregado da safra de grãos da serra. Quase não nos damos conta quando avistamos a casa, imponente e misteriosa lá embaixo do elevado onde ficavam os trilhos. Lúcia, sempre na frente, se jogou no primeiro caminho que avistou para descer. Resolvi esperar ela chegar lá embaixo, mas enquanto baixava os joelhos para pegar uma pedra fui surpreendido por um “ai!” vindo de um lugar não muito longe. Que se repetiu:

_ Ai!, ai!, Pedro, desce aqui.

Desci correndo, e por um pulo de puro instinto antes de um tronco caído não engrossei o coro do “ai!”. Lúcia estava no chão, com as mãos segurando o joelho direito, que jorrava um sanguesinho que não me pareceu nada de grave. Ainda assim, com mais cavalheirismo do que hoje em dia, resolvi acudir ela; juntei umas plantas por perto, limpei com elas o sangue, e levantei Lúcia, que certamente me debochando, logo saiu correndo e entrou pela cerca que dava diretamente na casa.


Lúcia e eu entramos na casa pela única parte que tinha teto, como sempre fazíamos. Sentamos numa espécie de banco formado por restos de concreto da cozinha, e de lá conseguíamos olhar, pela janela que não mais existia, os trilhos no alto do elevado. Lado a lado, as cabecinhas voando e se encontrando apenas em pensamento, sentíamos uma estranha sensação de perigo, até medo, e com ela é que silenciamos de repente e passamos a observar a vista através dos restos da janela.

_ Acho que vai passar um trem, disse Lúcia.
_ Ele sempre apita antes, acho. Ouviu algum?

Parei de falar, ou falei e nem escutei o que disse, tamanho o barulho que o trem fez ao apitar, um estrondo tão forte que Lúcia pulou, se aproximando perigosamente do meu colo. Quase saltei junto para evitar a situação, mas não precisou, porque ela própria sentiu o que aquele gesto poderia atrapalhar no futuro e se equilibrou novamente, com ajuda da perna do joelho machucado. O trem ainda apitava quando ouvimos outro estrondo, dessa vez abafado por um barulho que parecia ser de galhos quebrados.


_ Alguma coisa caiu do trem, disse eu.
_ Shhhhh!, acho que foi aqui do lado. Parece que alguém caiu do trem, disse Lúcia.

Terminou de falar e disparou em direção à frente da casa, que parecia ainda mais escura naquele dia cinzento. Coberta em parte por um teto destroçado e em outra pela sombra de uma enorme figueira nascida no pátio, aquele pedaço da casa era o principal motivo pelo qual chamavam o lugar de mal-assombrado. Dizia a lenda que depois que a casa foi abandonada, a figueira começou a se retorcer toda, destruindo o telhado ao mesmo tempo que, como aquelas árvores que se transformam em gente, foi tomando conta de toda a casa, se tornando uma espécie de guardiã dali.

Lúcia, e eu atrás, nos deslocamos para um canto que pareceu protegido, e ali ficamos. O barulho de galhos quebrando deu lugar a um outro, cada vez mais perto, de pegadas pesadas e rápidas circundando a casa, como se procurasse um lugar seguro para ficar. Perguntávamos se eram de homens aqueles passos fortes quando a janela em cima de nós escancarou para dentro, esclarecendo a nossa dúvida: um senhor gordo e aparentando idade avançada entrou e caiu exatamente meio metro da perna direita de Lúcia, que estava esticada. Apavorado como nunca antes, não lembro direito que aconteceu, mas a conseqüência foi que o velho estatelou-se no chão, caindo com o rosto e os braços virados para nós, como se nos abraçasse.

Lúcia soltou um grito tão forte que desmaiou. Verifiquei se o homem estava morto, e foi com um misto de pesar e alívio que retirei a mão do pescoço dele depois de quase um minuto: estava. Observei a cena dos dois deitados quase que abraçados, e num daqueles minutos que duram muito mais do que um minuto, caminhei pelas ruínas da casa serenamente, olhando para cada canto com uma curiosidade que nunca mais tive na vida, tamanho parecia o tempo que eu deixava meus olhos repousarem no concreto demolido. Conheci a sala, dois dos quartos, até o banheiro, que ainda tinha um vaso apto para o serviço. Quando voltei à parte da frente, Lúcia acordava. Um pouco atordoada, ela levantou, olhou novamente para o velho, agora não parecendo mais tão apavorada:

_ Vamos embora daqui, antes que ele levante.
_ Ele está morto, não vai levantar, eu disse.

Corremos do terreno até chegar na rua. Desta vez seguindo o caminho tradicional, só falamos quando chegamos na frente da casa de Lúcia.

_ Ele tinha um rosto estranho, mas não me parecia mal. Pelo menos não do jeito que a gente imagina uma pessoa má, disse Lúcia.
_ Também achei isso. Será que não devemos avisar alguém do corpo?


Lúcia firmemente disse que não, que alguém acharia o corpo e era melhor ninguém saber da nossa passagem por ali. E que a gente deveria esquecer o assunto, para sempre. Apesar do peso na consciência, não quis discordar, ainda mais quando ela me deu um beijo de despedida, o primeiro de inúmeros outros que se seguiriam tempos depois, quando namoraríamos.


No terreno baldio construíram, muitos anos depois, um enorme edifício de apartamentos. Ali fomos morar, Lúcia e eu, quando nos casamos. Temos dois filhos, um casal. Somos muito infelizes. Às vezes Lúcia diz que isso é porque vivemos sobre os ossos do pobre velho. Não acredito. Afinal, são doze andares, e nós moramos na cobertura. Muitos e muitos metros acima do bem e do mal.



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quinta-feira, agosto 03, 2006

Bem e mal

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Depois de ler o Lavoura Arcaica, obra-prima de Raduan Nassar, e ver o filme, obra-prima de Luis Fernando de Carvalho, fui procurar algum artigo sobre o assunto.

Achei um que diz uma coisa interessante:


Em uma obra de arte, pode-se ter "ambigüidade" nos meios, nunca no início, muito menos no fim. Um homem que se propõe a mexer com as palavras deve ter bem claro qual é o seu lado.

Como dizia Nick Cave:

"A maior destruição é feita por aqueles que não conseguem escolher entre o Bem e o Mal".



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quinta-feira, julho 27, 2006

Idéias

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Poderia existir um ranking de níveis de habilidade para escrever e ter idéias, ou melhor, que medisse a capacidade de juntar as duas.

O primeiro nível além do básico de conhecer as regras ortográficas para saber escrever é o ter idéias para expressar. Elas vem confusas, e geralmente são expressas de forma desordenadas, sem muito cuidado na escolha das palavras mais adequadas. Normalmente chamam de "escrita automática", mas um automática por não ter outra opção, já que existe o automática por opção, que é de outro nível, mais avançado.

O segundo nível é quando o vocabulário iguala-se as idéias. Houve alguma leitura para que isso pudesse acontecer, mas ainda há certa dificuldade em escrever coisas descomplicadas. A escrita já não é tão automática, mas ainda não existe a percepção de que esse tipo de escrita é típica do primeiro nível - se houvesse, o estilo seria imediatamente abandonado.

O terceiro nível inicia pelo novo avanço das idéias, que voltam a ficar à frente das palavras. Pensando em inovar, já se procura ler algumas coisas "complexas", narrativas modernistas que fogem do banal e levam as idéias para passear longe. Quando voltam, elas ficam atordoadas, pois não sabem ser expressadas como deveriam. É uma fase rápida: no momento em que as idéias estão presas, não tem outra saída que não ler mais, e aí avança-se um nível.

O quarto nível é marcado pelo novo nivelamento das idéias com as palavras. Surge através de leituras de livros considerados "simples", mas, só agora isso é percebido, a simplicidade é muito mais complexa e difícil de atingir. As idéias conseguem ser domadas, embora com dificuldades. A "escrita automática" é coisa do passado; as "sacadas legais" são cada vez menos frequentes.

O quinto nível eu não sei.

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segunda-feira, julho 24, 2006

No more

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Com o outro blog a pleno vapor esse aqui ficou um pouco esquecido, coitado. Mas é que o o outro é jornalismo, esse é um pouco de tudo, e nesses últimos tempos, só tenho feito jornalismo, não um pouco de tudo.

Como sei que é apenas uma fase, manterei esse com uma atualização periódica, não tanto quanto antes, mas talvez uma vez por semana.


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domingo, julho 16, 2006

Descrição

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Exercício de tentativa de descrever músicas do "The Piper at gates of Dawn", primeiro álbum do Pink Floyd. Ácido puro, o álbum.

Astronomy Domine - Imagine uma nave voando pelo espaço. Devagar, ela se aproxima da terra, e começa a sobrevoá-la rapidamente. Então, o seu comandante aparece numa espécie de sacada, dentro da nave, para fazer seu pronunciamento aos terráqueos. O teor das palavras é de sabedoria, mas o tom parece ser de repúdio a raça humana. Por fim, ninguém entende o que acontece e a nave sai da Terra para continuar sua viagem rumo ao desconhecido.

Lúcifer Sam - Deitado na sala de sua casa na beira da praia, fumando o nono baseado seguido, o cara está sozinho. De repente, vê (ou acha que vê) um gatinho siâmes pular pela sala, lépido e curioso. O cara tenta acompanhá-lo, pegar o tal gatinho no colo, mas não consegue. Por fim, desiste. Dias depois, sonha com o gatinho; mais dias depois, vê novamente ele circulando pela sala; mais dias, mais visões, e ele resolve deixar de compreender que diabos o gatinho tanto faz em sua casa. Trecho da letra:

Lucifer Sam, Siam cat.
Always sitting by your side,
always by your side.
That cat's something I can't explain


The Scarecrow - O filho pequeno pede para seu pai contar uma história. O pai parece estar meio alterado psicologicamente, e em vez de contar uma historinha boba para o filho dormir, resolve contar a história de um espantalho. Começa, o filho fica com medo, mas acaba por cair no sono, cansado. O pai continua, cada vez mais alterado, até se dar conta de que ele era o espantalho da história. Vai para o seu quarto, não consegue dormir.

Letra:
The black and green scarecrow,
as everyone knows,
stood with a bird on his hat
and straw everywhere.
He didn't care....
He stood in a field where barley grows.
His head did no thinking, his arms didn't move,
except when the wind cut up rough
and mice ran around on the ground.
He stood in a field where barley grows.
The black and green scarecrow is sadder than me,
but now he's resigned to his fate
'cause life's not unkind.
He doesn't mind.
He stood in a field where barley grows


Matilda Mother - Um conto medieval escrito por um prisioneiro, considerado mentalmente instável e perturbado, em sua cela no auto da torre, contado para diversos ratos, também presentes na cela.


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sábado, julho 08, 2006

Dia

"Permanecia uma hora inteira mergulhado dentro da banheira, escutando música, até a água ficar fria. E especialmente ali, dentro da água, eu me sentia cansado. Velho, em certo sentido. No sentido de que era tarde demais pra morrer jovem."

Daniel Galera, Até o dia em que o cão morreu

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domingo, julho 02, 2006

Abstração

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Conhecer a si mesmo profundamente permite certas extravagãncias de pensamento, do tipo que se rodeia, rodeia, e se chega a um lugar que, por ainda não ter sido explorado, vibra como nunca quando se sente descoberto.

O caminho para esses lugares é um mistério, daqueles que só se revela quando uma leve pontinha finalmente aparece no fim da estrada - então, não é mais possível voltar, e o mistério deixa de ser um.

Uma das formas de forçar o aparecimento das pontinhas, ou chaves, é guardar a lembrança de como foi possível chegar lá em uma outra vez. Não é difícil, mas requer paciência, não admitindo preguiça nem ansiedade.

Uma música, por exemplo. Primeiramente, ela acalma. Sente-se isso. Desacelerando, outras coisas são vistas, e em cada uma delas um caminho é apresentado. Escolhe-se um, e indo adiante, sem interrupções, chega-se ao lugar ainda não descoberto.

Lá, a permanência não é muito longa. Não se consegue, principalmente por que requer concentração e abstração das coisas urgentes. Mas, quando fica-se mais tempo que o normal, outros caminhos aparecem, também pedindo para serem descobertos.

Se permanece a busca, outros estímulos são apresentados para facilitar a continuidade na estrada. Nesse estágio, a abstração já é quase absoluta - e é assim mesmo que se faz necessário.

Acontece que alguém bate na porta, interrompendo. Não interessa quem seja, a função é a mesma: policiar o pensamento. Extravagâncias não são bem-vindas em qualquer lugar.

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terça-feira, junho 27, 2006

Imagina

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"Mais que faculdade, eu diria quer imaginação é virtude. Na origem de todo ato cruel, não há uma pobreza de imaginação que impede a menor corridinha simpática, a mudança, sequer momentânea, para a situação do próximo? O egoísmo provém de idêntico defeito. Com visão clara de nossa futilidade, poríamos tanto empenho em nos promover e em nos homenagear?"


Adolfo Bioy Casares


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sábado, junho 24, 2006

Sonhos (1)

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Da noite de quarta para quinta-feira, dia 3 de fevereiro de 2005, no meu quarto, em Santa Maria:


" Estava em um sala no estilo Harry Potter, no colégio onde estudei no Ensino Médio. Havia chegado atrasado, e me sentei no canto esquerdo, como sempre fazia. A aula era de matemática, e o professor era um argentino típico, com mullets grandes no melhor estilo Chitãozinho & Xororó. Era jovem, ensinava algo sobre conjuntos numéricos. Como estava sem o polígrafo, resolvi pedir um para ele, e para isso, tentei soltar algumas palavras em espanhol, mas o que saiu foi um portunhol enfadonho. O professor, que estava escrevendo no quadro negro, se virou para a sala, olhou para mim, mas não falou nada. Chamei de novo, ele me olhou novamente, mas pareceu não entender, por mais que eu estivesse falando alto. Irritado, resolvi copiar o que ele passava, e para isso retirei uma folha do fim do caderno, logo antes das riscadas que serviam para testar as tintas das canetas, normalmente Bics.

Ele passava um problema, que pediu para a classe resolver. Sentou em sua classe, enquanto eu levantei e fui em sua direção pedir o polígrafo. Ele novamente não entendeu o que eu dizia, ou fez que não entendeu, porque agora, ao menos, me deu umas folhas brancas, limpas. Fui me sentar.

Enquanto toda a classe resolvia o problema, o professor castelhano ligou um aparelho de som, que sabe se lá de onde surgiu, e colocou um CD que tocava uma única música, agitada, uma mistura de tecno com rock. Na terceira vez que escutava a música, e sem conseguir resolver o problema, comecei a batucar na classe, acompanhando o ritmo da bateria, que parecia cada vez mais rápida. Quando ele me viu, desligou o som. Segundos depois, surgiu o diretor do colégio com uma toga das de formatura de faculdade na cabeça.

A classe, que já estava quieta, calou-se ainda mais, e o barulho das botas gigantes do diretor foi escutado por todos como um prenúncio de que algo ia desabar em cima da sala. Em frente aos alunos, exatamente no meio da sala, ele começou a discursar solene, como em uma formatura, contando as dificuldades que o colégio estava vivendo, e que a melhor coisa que nós, alunos, deveríamos fazer para acabar com a crise era estudar, e bastante. Repetiu diversas vezes: Estudar, estudar, estudar. Na última repetição, virou-se para o professor castelhano, falou algo incompreensível, e saiu da sala.

Quando a porta já tinha fechado, ouviu-se no corredor um barulho de espada - ou um florete - sendo tirada de uma bainha, e no momento que os alunos se viraram para ver, o castelhano apareceu junto ao diretor, e os dois começaram um duelo de espadas. Como nos filmes de capa e espada, a disputa era equilibrada e barulhenta, com as espadas se batendo e soltando faíscas; mais habilidoso, e ainda com o chapéu na cabeça, o diretor parecia estar ganhando a disputa.

Saíram do corredor, entraram em uma outra sala. O castelhano foi atirado às classes vazias, mas logo se levantou e, num belo golpe de direita, derrubou o diretor, que caiu no corredor, ferido e sangrando. Quase delirando, ele começou a dizer coisas incompreensíveis sobre o seu filho, que estava na Inglaterra estudando fazia 3 meses.

A turma espiava pela janela da sala, e alguns dos meus colegas no fundo da classe começaram a fazer apostas: 4 por 1 no castelhano, dizia um mais gordo, 2 por 2 (?) no diretor, dizia o agitador sentado ao meu lado. Nenhum dos presentes na sala tinha expressão facial; o rosto era como uma borracha branca, sem boca, nariz, olhos, só cabelo.

Neste momento, eu resolvi entrar na luta, mas acordei
".

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sexta-feira, junho 23, 2006

Sonhos

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Inspirado no Kerouac, vou escrever aqui alguns sonhos que tive.
Antes disso, e para começar "solene" , uma parte do prefácio do "Livro dos sonhos", do Kerouac.



" O fato de sonharmos todas as noites é um vínculo que liga toda a humanidade, numa união, digamos, tácita, que também comprova a natureza trasncendental do Universo, coisa em que os comunistas não acreditam, pois consideram os sonhos "irrealidades", e não visões que efetivamente tiveram.
Por isso dedico este livro de sonhos às rosas do porvir."



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segunda-feira, junho 19, 2006

Macca

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Paul Mc Cartney é uma figura interessante. A grande maioria dos fãs mais fervorosos dos Beatles escolhe ele como o beatle mais odiado, já que era o mais "comercial" da banda, aquele que melhor sabia aparecer para a mídia e para os fãs. O que ocorria é que, muitas vezes, para estes fãs Paul exagerava; sempre o bom moço, o brincalhão, o diplomata, o que nunca parecia sair da linha. E é sabido que para o rock'roll, sair da linha é necessário.

Só que, apesar de toda essa postura correta e até chata por vezes, estava o principal músico da banda, a mente criadora. Se John Lennon era o espírito, Ringo era o ritmo e George o talentoso solitário, Paul era aquele que criava, o marco zero do processo de composição - que logo depois ganhava os contornos de cada um. Talvez fosse ele a figura mais importante da banda, sem a qual não haveria o estalo inicial extraordinário que fez os Beatles serem os Beatles, ainda hoje a banda a ser batida no mundo da música.

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Tudo isso para dizer que o novo CD do Macca, Chaos and creation in the Backyard, é de uma beleza estarrecedora e , de certa maneira, surpreendente. Algo como um líquido milagroso que não parecia mais possível ser extraído,de tanto que foi usado, da velha fonte McCartney.
Passados quase 40(!) anos do fim dos Beatles, a grande voz continua lá, límpida e potente. A maturidade, vilã de muitos da idade de Paul, melhorou ainda mais o excelente músico que ele sempre foi (toca todos os instrumentos no álbum), e trouxe de bônus uma habilidade preciosa de escrever ainda mais letras simples e profundas, que em um utópico Manual para Fazer a Música Perfeita (escrito por ele, claro) deveria ser a primeira e indispensável lição.
O mais incrível de tudo é que Paul, no auge dos seus 64 anos, assim como no tempo dos Beatles, ainda seja aquele cara que mais consegue chegar próximo da dita "música perfeita" produzida.
Um dos poucos neste mundo que falar "Esse cara é foda" nunca vai ser suficiente.

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sexta-feira, junho 16, 2006

Nação

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Uma citação do cronista brasileiro Paulo Mendes Campos, lida recentemente em uma crônica, que resume todo o pensamento e quiçá o comportamento do brasileiro:

Adio, logo existo

Chega a ser impressionante como essa frase serve como máxima, mesmo que não percebida, para todas as situações, da mais banal a mais complicada.
O último instante é O instante.
Nada antes, nem durante; tudo só na pequena faixa, imaginária, que separa o durante do depois.
Parece que o Brasil é uma nação de Bartlebys, do famoso livro homônimo do Herman Mellvile, que para tudo que fosse ordem proferia a famosa frase

"Prefiro não fazer".

O "adio, logo existo" é um irmão mais rebelde do "prefiro não fazer", que leva tudo até as últimas consequências e só se dá por satisfeito quando sua teimosia não consegue burlar a rigidez das leis que dizem quando não mais é possível adiar.

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terça-feira, junho 13, 2006

Abjurar

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Estranha sensação essa de necessitar caminhar pelas ruas da cidade, de preferência as mais movimentadas, sem qualquer rumo definido, e a cada esquina do caminho que não se sabe parar para pensar "onde ir" sem nem mesmo saber porque não seguiu o caminho que lhe parecia o mais conveniente, e quando chegar na praça lembrar que há um lugar, sim, que sempre pode abrigar os que não tem rumo, mas no caminho para esse lugar lembrar que existem outras coisas esquecidas para fazer, e a pausa para resolver esses pequenos relapsos de memória ser muito mais rápida e fácil do que talvez se imaginasse, e que também nesses lugares outros encargos, nem tão importantes, são lembrados e logo esquecidos, pois o intuito da caminhada era não ter rumo nem nada certo, não?
Finalmente se chega ao lugar dos que não tem rumo, com alguns poucos que lá se encontram fazendo exatamente a mesma coisa que se estava quando se saiu de casa: abjurar-se da rotina diariamente repetida.

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sexta-feira, junho 09, 2006

Futebol

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Foto tirada em Montevideo, numa tarde de sábado, num jogo de escolinhas locais por algum bairro da orla de Pocitos. Pais em volta do campo gritando e incentivando os seus filhos, os reservas bem sentados no trecho da grama que servia de banco, mães e irmãos dos jogadores mirins na torcida - um pouco mais calados que os pais, mas ainda assim soltando alguns gritos de incentivo e reprovação - e todos estes, menos os jogadores, os técnicos e os reservas, tomando o seu mate quente.

quarta-feira, junho 07, 2006

Trans

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" Era a visão de uma vida extrapolando a introspecção dos exercícios solitários, uma aventura pela qual vinha se preparando havia tantos anos, enfim uma direção concreta para toda aquela expectativa sem objetivo que o acompanhava desde um ponto indefinido da infância, um desdobramento para o desejo de agredir e ser agredido pelo mundo".

Daniel Galera, Mãos de Cavalo, pág. 122, cap. A festa de quinze da Isabela

Trecho que descreve muito bem essa sensação que parece existir em todo mundo que está entre os 18 aos 20 e poucos anos.


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segunda-feira, junho 05, 2006

Infância

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Engraçado como a infância, vista com os viciados e talvez experientes olhos da vida adulta, parece ser um momento crucial da formação do caráter de uma pessoa, do seu "estilo" e modo de pensar dalí pra frente. Há uma impressão de que tudo que não é vivido de maneira que "é pra ser" - no mais estrito e primeiro significado da palavra normal- vai acarretar em graves consequências na maneira de agir e no modo de pensar do já formado adulto, e que um simples trauma vivido na infância vai reverberar em alguma consequência grave no futuro da vida adulta, seja em algum tipo de comportamento anti-social ou social demais, mas acima de tudo um distúrbio, algo que não era pra acontecer.

O enfrentamento do problema anos depois de ele ter sido criado parece que se torna necessário para afagar as feridas abertas na infância, talvez até indispensável no sentido de "curar" aquilo que não devia de acontecer. Isso quando há o que ser curado, pois pode acontecer do trauma ter forçado a busca por uma alternativa de comportamento, e esse novo tipo superar aquilo o dito normal que o trauma tratou de fazer não funcionar, e neste caso, talvez, não dá porque se confrontar a situação vivida na infância.



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O melhor de tudo é que as crianças, quando tais, nunca sabem dessa importância de estarem vivendo um período cruciais em suas vidas, pois se soubessem, e as vezes há alguns pais que o sabem por elas, tudo seria uma grande e monótona vida mecanizada, daquelas que logo quando se nasce já se tem certeza da data que se vai morrer.


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sexta-feira, junho 02, 2006

F

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I'm free to do what I want any old time
I'm free to do what I want any old time
So love me, hold me, love me, hold me
I'm free any old time to get what I want



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segunda-feira, maio 29, 2006

Jogo

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Jogo de pensar:



Analise a frase abaixo e destriche ela em um maior número possíveis de imagens, de preferência apenas mentais:


Saudade não serve de porém para um não já esquecido.




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sábado, maio 27, 2006

Aos poucos

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Aos poucos,
bem aos poucos
se volta.
Semana que vem mais
A partir de quarta feira
ô bosta.


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sábado, maio 20, 2006

Kidding

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Na hora de acordar, preferiu continuar onde estava, imóvel, paralisado com a sensação de que não deveria se levantar por hipótese alguma, e que não deveria sentir-se culpado por não querer se mexer, já que é assim mesmo que acontece depois de ter sentido tanta benevolência pela cama.

Mas tudo é devidamente explicado por uma berrante sensação que um berbere beócio trouxe consigo quando usou o benjoim para curar a insônia que uma caída no betume causou.

Depois, estranhamente, nem com eletroencefalograma foi percebido onde tinha sido afetado, muito menos com a elegia que fez sobre a sensação e que ficou guardada do lado da cama, dentro da gaveta do bidê, com manchas de vela dificultando a leitura.
Ele estava tão elanguescido que a letra do papel onde estava escrito a elegia parecia ter sido feito por uma pessoa que havia passado antes por um eletrizador magnético.




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quinta-feira, maio 18, 2006

Coleção(1)

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Coleção de metáforas

O "Cortazarianas Beatniks" está de férias, mas o "Coleção" o substituirá até a sua volta, podendo também os dois continuarem concomitantes depois, o que, parece, é o mais provável de acontecer.


Do "Mãos de Cavalo", livro do Daniel Galera, extraído precisamente da fala da Adri enquanto seu marido, o cirurgião escalador, faz abdominais do lado da cama e ela, deitada, lê o livro Terroristas do Milênio, de J.G. Ballard - livro esse que eu só fiquei sabendo olhando o "Mãos de Cavalo" e , na penúltima página, lendo a seção intitulada "Gratidão e Crédito":

"Minha vida é como uma dança de cadeiras, só que ao contrário. Cada vez que pára a música botam mais cadeiras".



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Volta

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Com tudo voltando ao "normal", é a hora certa do blog também voltar.


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segunda-feira, maio 15, 2006

Ainda

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Com a devida carga horária definida para, pelo menos, até daqui a uns três meses, o planejamento (que nesse caso é preciso e benéfico) vai possibilitar a volta da postagem mais regular. Aquela história: quanto mais tempo ocupado, mais tempo útil e disponível para escrever.

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sexta-feira, maio 12, 2006

fim?

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O blog tá devendo mesmo.
Só devaneios passageiros são colocados.
Mas enfim
Alguma coisa mudará, cedo. Ou então será o fim.

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Quem

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Ô duvida cruel de a cada dia querer ter a certeza de que todo dia se dormirá com a certeza do dever cumprido (de ser amado).

Quem não se cansa de joguinhos de extravasar?

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sexta-feira, maio 05, 2006

Putrefação

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Putrefação de idéias

Experimente:
Fique uma semana sem ler uma ficção, ver um filme, escutar uma música (que tenha uma letra decente), conversar por mais de hora com alguém, fazer uma dita "loucura" ,etc, e tente escrever sobre alguma coisa que não seja a bobagem do dia-a-dia.

Provável:
Que a cabeça fique tão extasiada de ter de pensar somente no trivial, nada mais que a mediocridade necessária para a sobrevivência automática, que as idéias originais, vinda do "clipping" da realidade observada, vão começar a apodrecer até enfraquecerem por completo, e, como não-destino final, elas não mais existirão.

Consequência:
O trivial vai virar a regra e a máxima de sempre. A originalidade, que já não é lá muito original antes de alguns muitos anos vividos, vai ficar trancada sem chave em alguma porta do cérebro.

Finalmente:
A putrefação cerebral será completa, e voltaremos ao patamar zero, aquele que é feito a partir da média de todas as pessoas: a mediocridade.

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