domingo, abril 09, 2006

Derrota

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Sobre o sentimento de derrota:



Deitado em um cama num quarto escuro, sem conseguir ler e entertido com o olhar sobre o teto, que não parece dizer nada mas entender tudo, você não consegue parar de pensar no motivo que o barulho das ruas, hoje, é tão forte.


Pensa em atenuações, tanto para si próprio, quanto para dizer aos outros como resposta de uma batalha perdida que, absolutamente, você nada pode fazer para reverter se não torcer que as melhores soluções, vista por você mas também por grande parte das pessoas que compartilham do mesmo sentimento, caiam na cabeça de quem realmente pode resolver a situação: o técnico.


Elas não caem, mas por acidente a vitória está perto, e, mesmo desejando que a derrota até venha como forma de que sirva de lição para que os erros insistemente cometidos não se repitam mais, é como uma facada no peito a confirmação desse pensamento: a derrota é amarga, por mais que se deseje ela.


Fato confirmado. E é difícil para você aguentar, por mais que tantas vezes , até indiretamente, o resultado que agora é fato foi imaginado, como uma forma de se antecipar na procura de respostas convicentes para dizer a você e aos outros que a derrota não tenha a importância que ela realmente tem.


Remediar não funciona, mas é quase impossível não partir para esta solução em casos assim, de derrota ampla e incontestável. Por mais que se precise sofrer, a ilusão de que não se precisa é mais forte.

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quinta-feira, abril 06, 2006

Diálogo (2)

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De um amigo para o outro, sentados em um bar, depois de 7 cervejas e alguns cigarros, continuação da conversa "entendo o meu problema e porquê sofro, mas não consigo evitar":


_ Olhava eu, cara, aquele clipe novo do Strokes, Heart in a Cage, sabe?, gostava da música, e num dos raros casos, achei que o clipe ilustra muito bem o que eu imaginava da música, da letra, inclusive. O vocalista rastejava no chão cantando
Well I don't feel better,
When I'm fucking around,
And I don't write better,
When I'm stuck in the ground,
e um dos guitarristas tocava em cima de um prédio de uma grande cidade, lembrando os anjos no clássico "Wings of Desire" do Wim Wenders. Tudo em preto e branco, como se a angústia de dizer aquilo fosse algo parecido a estar em mundo preto e branco repleto de portas coloridas escondidas e prontas para te levar a outras idéias que não a do sofrimento por estar dizendo aquilo de modo tão apaixonado, e que certamente é decorrente do amor,
Então a música, que é do famoso time do assopra-apaga, rápida com partes lentas ou vice-versa, abaixa o volume, guitarra devagar, bateria marcando o tempo rápidamente, e a voz entra dizendo
Oh the heart beats in its cage
e repetindo, e repetindo
como que chamando a uma dessas portas, desesperadamente venha me buscar e pare de se esconder que eu não aguento mais sofrer, independente de quão esse sofrimento seja verdadeiro, mas a imagem do vocalista cantando caído no chão no meio de uma multidão em um centro movimentado me convence de que ele não mente, e então ele canta
I'm sorry you were thinking; I would steal your fire
Enfim, ele encontra uma dessas portas, mas ela parece que veio tarde, quando não mais o amor conseguiria se esconder impunemente por aí sem enfrentar o que realmente o colocou naquela situação de caído no chão cantando coisas de quem se está apaixonado...


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terça-feira, abril 04, 2006

Casa das palavras

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A casa das palavras

Na casa das palavras, sonhou Helena Villagra, chegavam os poetas. As palavras, guardadas em velhos frascos de cristal, esperavam pelos poetas e se ofereciam, loucas de vontade de ser escolhidas; elas rogavam aos poetas que as olhassem, as cheirassem, as tocassem, as provassem. os poetas abriam os frascos, provavam palavras com o dedo e tnão lambiam os lábios ou fechavam a cara. Os poetas andavam em busca de palavras que não conheciam, e também buscavam as palavras que conehciam e tinham perdido.

Na casa das palavras havia uma mesa das cores. Em grandes travessas as cores eram oferecidas e cada poeta se servia da cor que estava precisando: amarelo-limão ou amarelo-sol, azul do mar ou de fumaça, vermelho-lacre, vermelho-sangue, vermelho-vinho...



Eduardo Galeano,O livro dos Abraços.

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quarta-feira, março 29, 2006

Reflexões de Herman (3)

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Leonardo,
Aqui estás, uma reflexão sobre o inconsciente. Assunto espinhoso e que , provavelmente, renderá alguns outros posts e , se nos encontrarmos novamente, muitas discussões regadas a Quilmes e cigarro.



Sob o domínio do inconsciente *


Dia desses, em andanças pela noite portenha com alguns amigos, uma questão, até de certa forma inédita, surgiu para mim. Meu amigo, juntamente com outro conhecido, contava sobre sua viagem pelos campos e rios nos arredores de Buenos Aires. Sem qualquer planejamento, com muitas vezes não tendo a mínima idéia de onde estavam e para onde iam, eles foram envolvidos numa teia complexa de situações absolutamente inverossímeis se fossem criadas. Depois de muito discutir, meu amigo acabou soltando: " Nunca fiz planejamento, mas na hora sempre sabia o que fazer".
Para mim, foi a chave que me fez entender muitas de suas atitudes "malucas", diferentes. Ele foi guiado pelo seu inconsciente, que de tão treinado (não se sabe como, se soubéssemos todos treinaríamos ) sabe o que fazer em situações aparentemente cada vez mais complicadas que se apresentam para ele resolver e, de preferência, rapidamente.

Se ele não faz mil e um planejamentos sobre o que encontrará naquele rio, por exemplo, e quais as ações determinadas para cada tipo de situação adversa que ele se deparar, muito mais facilmente ele saberá sair delas. Como? não há resposta pulando para ser escolhida, mas uma escondidinha serve melhor que todas as outras: o inconsciente. Simplesmente não estando com todas as prováveis soluções definidas na cabeça, ele saberá como resolver quando aparecer alguma que não esteja prevista. E sempre há situações imprevistas em viagens desse tipo.

Alguém que vá "preparado", não saberá, ou demorará mais, para agir em uma situação completamente inesperada. Culpa do inconsciente, que não é confiável (pelo menos a pessoa não sabe que é) a ponto de não se utilizar de planejamantos para facilitar a compreensão.

Alguns poderão achar que apostar no inconsciente é uma "aposta no escuro". Pode ser, mas talvez achem isso porque não há como explicar o inconsciente, o saber agir em situações adversas sem nunca tê-las vivido. Um provável indício de que se está preparado para situações não-planejadas é a vivência constante de situações ditas "inexplicáveis"; digamos que essas situações fazem parte do "treinamento" do inconsciente, pois sempre pedem respostas rápidas quando nunca pensamos em qualquer uma resposta para situações que também nunca pensamos que possamos viver. São nessas situações que treinamos as ações inexplicáveis, e o prazer de ter enfrentado, e resolvido bem, esse tipo de situação é algo que só abre mais e mais portas para uma complexa, se algum dia possível, compreensão completa sobre si mesmo.

A inconcosciência pode se equiparar a outra palavra que, aparentemente, também não tem explicação lógica: sorte. Quando acreditamos no inconsciente, e esse meu amigo comprovou na pele isso, parece que sempre temos "sorte": perdemos o fogo, o que fazer? achamos outra forma de fazer o fogo, por "sorte". Estamos sem comida? caminhamos e encontramos, por "sorte", uma pequena fazenda que nos oferece um belo assado de ovelha. Uma tentativa de explicação de situações assim seria que o nosso inconsciente, como luz que nos guia nos escuros caminhos desconhecidos, acha sempre soluções para qualquer adversidade, e, por falta de outra palavra melhor, essa solução é atribuída a "sorte" - que nada mais é do que um refúgio para qualquer coisa que não se explica racionalmente.

Por tudo isso, levar a incosciência aos lugares mais longíquos, onde nem um rastro de situação já vivida tenha chegado, faz parte de um longo caminho que todos trilham, mas alguns nunca param para pensar nisso, para chegar ao completo conhecimento de si mesmo, que trará um enorme conhecimento do mundo consigo. A questão é que se estamos preparados para obter essa conhecimento, se a busca por ele não nos enlouquecerá no caminho, ou se, quando finalmente chegarmos lá, descobrir que todas as adversidades foram em vão e que o final encontrado não passa de uma ilusão de que nos conhecemos melhor...

* Traduzido do castelhano

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Diálogo (1)

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De um quase apaixonado diante da irmã de sua quase-alguma coisa-que pode-vir-a-ser-algo-interessante:



"
_ Sabe por qual motivo eu continuo com a tua irmã? Porque eu não entendo ela. Não consigo compreender suas atitudes e não-atitudes, sua passividade diante de certas coisas que quase que obrigam a uma atutide, qualquer que seja. E o fato de não entendê-la me faz querer ficar mais com ela, não me entregar diante do primeiro mistério que ela coloca a mim, consciente ou mesmo inconsciente do ato. Não há um prazo definido para compreendê-la; o lado ruim disso é que o fato de eu querer decifrá-la pode ser interpretado como uma desculpa para ficar mais ao seu lado, e o lado bom, se é que ele realmente é bom, é de não desistir na primeira tentativa, da primeira negativa - consciente ou não - a um convite singelo para ter sua presença junto da minha. A dúvida é que a ânsia de querer entendê-la pode acarretar em certa obsessão, e a derrota final decorrente disso pode vir a ser maior pelo empenho, inocentemente despejado, em querer tê-la o mais próximo possível..."


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segunda-feira, março 27, 2006

Divagando e brincando...

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Divagando e brincando de fingir


Complicado, certos termos e esquemas relativos tomados como principais que não deveriam ser. Fingir é necessário, se a sinceridade afronta.
Fingir, mentir, tem um quê de contadores de histórias, ficcionistas que de tanto desgate oriundos da mente fértil para criar esquecem de escrever a sua própria história de vida e precisam inventá-la, mas pela necessidade de ser uma história real eles não conseguem torná-la interessante, ao menos que contem e envernizem na hora de contar a história médíocre que criaram para si... mas o diabos é que há alguns bons séculos é assim, a necessidade de fingir se torna uma dor, por vezes, insuportável de ter de inventar um personagem que não existe, aparentemente, mas que precisa ser despertado para que a dor da sinceridade não se torne ainda pior que a do fingir, que, se fosse em um mundo perfeito, seria tão forte que ninguém poderia aguentar, prevalecendo a realidade em detrimento da falsidade de se transformar em outros para agradar, ou não sofrer (comos e o sofrimento não fosse necessário...), ou os dois...


Engraçado, mas fingir pode ser, ao mesmo tempo, uma abreviação ou uma antecipação do sofrer. Finjo, invento, para não precisar passar pelo processo natural das coisas, que não é feito de muitas mentiras, não. Finjo, crio, para poder me antecipar e saber duma vez o que me espera na encruzilhada da opção...Da mesma forma, da mesma origem e opostos.
Ainda se provará que fingir é, nada mais nada menos, que dizer a verdade que não se conhece nem se sabe que existe - por isso o fingimento. Se soubesse, seria o fim da ficção.

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Finjo que digo a verdade para poder fingir e não dizer que não consigo fingir.

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quinta-feira, março 23, 2006

Histórias da vida real (2)

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Carroceiro perde carroça e cavalo

Na madrugada de sábado para domingo, Enio Raskof se deslocava pela rua Lavras do Sul quando, na esquina com a rua Radialista Oswaldo Nobre, foi surpreendido por dois homens carregando duas facas. Temendo o pior, Enio tenou fugir, mas foi alcançado pelos homens, que o atingiram com facadas no rosto, causando um corte no supercilho direito. Após o confronto, os dois homens foram atrás da carroça de Enio, que se encontrava, no momento, na Avenida Ulysses Guimarães, no Alto da Boa vista. Chegando lá, levaram embora a carroça, o cavalo e tudo que tinha dentro, inclusive uma carteira com R$ 80,00.


Jornal A Razão, 20 de Março.

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terça-feira, março 21, 2006

Histórias da vida real (1)

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Cerveja quente causa agressão

Na noite de sábado, Alexandre Batista da Silva andava pela rua Santa Bárbara, próximo à escola Ludovino Fanton, na Vila Caturrita, logo depois de ter saído de um trabalho realizado em uma festa de 15 anos. Carregando um copo de cerveja, ele ofereceu um gole à Rodrigo Paim, que também passava pela rua na mesma hora. Este aceitou a gentileza, e bebeu, num grande gole, quase todo o copo. Mas a cerveja estava quente, e Rodrigo nâo gostou. Discutiram exaltados e, depois de alguns minutos, este último tirou o facão do lado da calça e agrediu Alexandre na cabeça, provocando um corte na face. Aturdido, Alexandre tratou de fugir.

Jornal A Razâo, 20 de Março de 2006.

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quinta-feira, março 16, 2006

Pausa para o rock'roll

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Crema no Macondo, 10 de março.

Rock'roll will never die!

Nâo tem palco. O lugar onde a banda fica é um canto no fundo do bar, demarcado por um tapete. Só se sabe que vai começar o show porque a música ambiente cessa. Baixo, guitarra e bateria entram devagar, em um volume parecido, e eis que surge o teclado, o mais alto de todos, que já toma a frente na condução da melodia e prepara para a entrada da voz, que surge de início meio tímida, mas aos poucos ganha confiança para a explosão no refrão: "You really got me!". The Kinks. Anos 60. Não, 2006, passado da uma da manhã de uma sexta-feira, dia 10 de março.

Great balls of fire, jerry Lee Lewis. Anos 50. O clássico passo de dança dos primeiros anos de rock'roll, bastante visto em bailes de formatura, é lembrado pelo público que, a essa altura,já tomou cerveja o suficiente para esquecer que o espaço disponível impede qualquer passod e dança mais ousado.
O teclado, dessa vez, entra primeiro e conduz a harmoniosa versão de "Let's spend the night together", dos Rolling Stones. Anos 60 novamente. Logo à frente do "palco", amigos e namoradas da banda, aos poucos, relaxam e curtem a música, esquecendo por algum tempo a inevitável preocupação de se procurar erros no show.

Like a rolling Stone, Brown Sugar, anos 60, e eis que os 2000 dão as caras. Franz Ferdinand, Take me out. Essa toca bastante no bar, todos conhecem, e houve-se até vozes repetindo o som da guitarra no refrão.

Neil Young, Hey hey my my. O verso "rock'roll will never die" ecoa pelo local, tanto nos ouvidos quanto nos pensamentos de todos ali, sabidos de que aqeula velha história que o rock morreu não passa disso mesmo: uma eterna velha história.

A Razão, 16 de Março.
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segunda-feira, março 13, 2006

Hibernação duvidosa (3) : dúvida

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Enquanto durar o período da hibernação duvidosa, haverá espaço para a experimentação por aqui. Por enquanto, seguindo a linha de ontem, mais um capítulo do "Big Brother Mind".

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É, duvidoso, dúvida, palavra cheia de perguntas e nenhuma resposta, carregada de angústia e de esperança, de sofrimento e de pavor com o que poderá vir a esclarecer as perguntas e transformar a palavra, dúvida, em...
outra pior talvez, certeza, certeza de não ter mais dúvidas ou de ser algo tão já definido...obtuso e sem qualquer dúvida para esclarecer, interromper o processo duvidoso que pode levar a certeza.

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Mas a dúvida, o pavor da dúvida é pior que o da certeza, porque esse é genuíno e até tradicional, mas o outro não, é limitante, desgastante, e imitador daquilo que se conhece por auto estima travestida , na real, de "i'm loser baby, e por mais que esconda, não consigo".

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Am... dúvida que me procura para um chamado, ou melhor, uma chamada e uma espera, duvidosa, de um retorno, que se não vêm provoca a dúvida, o que aconteceu?, e se vêm também aparece num duvidoso pacote de esperança embrulhado numa alegria de ser correspondido em qualquer intenção que possa ter um simples sinal de fraqueza que, muitas vezes, é o que ocasiona uma chamada, fraqueza de não ter certeza, ou de ter uma dúvida sem qualquer perspectiva de certeza, que, afinal, é mais angustiante que uma certeza bem definida. Ou não?

domingo, março 12, 2006

Hibernação duvidosa (2): Me and the devil

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O post mais rápido depois de outro.

Agitação extrema, inquietude de fazer tantas coisas ao mesmo tempo que...
Nem uma frase se completa, pois na metade dela já se pensa em outra coisa.
Calma, calma.
Tomar uma água, quem sabe?
jogar futebol (no PC), que agita mais ainda?
- Pelo menos se chegará num estágio tão grande de "agitume" que não há como não se acalmar -

Hmnn, hmnn
Hmn,

Me and the devil,
was walkin' side by side
Meeeee and the devilll,
was walkin' side by side


Espirro. Certa vez, alguém escreveu que os dois maiores prazeres para o homem era espirrar e gozar ao mesmo tempo. O cara que disse isso, ou melhor, o cara que estava num conto que outro escreveu, demorou algumas décadas para realizar a façanha. Mas conseguiu, e morreu depois, pois não há lembrança que rompe o ciclo repetitivo de filmes que passam na cabeça, e que não deixam vir à tona o que, realmente, aconteceu com o cara.

" Me and the devil,
was walkin'n side by side"

Hibernação duvidosa (1)

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O blog está em estado de hibernação, em busca de uma alternativa ao formato atual, de mero "publicador" eventual não-periódico de textos construídos e revisados na hora. O que pode acontecer é o formato mudar, ser mais rígido com relação à dias de atualização, ou então, após muitas tentativas de achar um formato diferente, ficar na mesma.

Early this mornin'

when you knocked upon my door
Early this mornin', ooh
when you knocked upon my door
And I said, "Hello, Satan,"
I believe it's time to go."


Robert Johnson - Me and the devil
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terça-feira, março 07, 2006

Ode à madrugada

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Passa das 3 e 59 da madrugada, e o cansaço recém cutucou o sono,
que estava dormindo há horas,
nocauteado por aquela água tão ativa, que ainda foi misturada com uma dose de tensão sexual não resolvida e um pó solúvel que dizia no rótulo "eloquência gratuita"

inconformismo
com a inoperância do cansaço,
a lenitude do medroso emebebido pelo vazio envergonhado de sua condição,
tão solitária,
!que vergonha de estar assim!
apavorado, teve de cutucar o sono,
que,
mesmo depois de todas aquelas doses,
voltou a penetrar como antes, ou como nunca,
como eterno perdedor que é, se fez invisível, não deu resposta, não foi percebido e resolveu, depois de muito lutar, perder mais uma vez, como sempre,
se entregar ao desconhecido, sempre comandante,
alter-ego do cansaço,
da derrota, da vitória
e do sono.



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segunda-feira, março 06, 2006

Um ano

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Completou um ano o blog.
Estudo alguma mudançcas, que , provavelmente, virão em breve.

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quinta-feira, março 02, 2006

Reflexões de Herman (2)

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Um texto mais curtinho dessa vez, minhas aulas começaram e estou bastante ocupado. Bon Apetit,

Herman Oliveira.


Ella usó mi cabeza como un revolver, e incendió mi conciencia con sus demonios

Soda Stereo


Dá para se fazer inúmeras leituras dessa frase (a primeira), e em cima dela criar inúmeras situações, metáforas e causos. Lembra frases do Cortázar, que , às vezes, cria imagens tão poderosas e complexas que, quando não se consegue imaginar o que ele quis dizer com uma frase, ele joga mais uma tão poderosa quanto a outra, criando uma espécie de confusão e curiosidade extrema que poucas vezes é saciada decentemente; o normal é desistir, ou achar que sabe o que é aquilo para poder partir para a outra. Numa comparação barata, é como se fosse explicar um conteúdo inédito - um novo tipo de equação, por exemplo - com todas as variáveis conhecidas, mas que ainda assim não se consegue juntar todas as partes e se fazer compreender o todo. As palavras são as partes iniciais, que possibilitam a criação das metáforas, que são a segunda parte, mas que podem ter fases infinitas, só que nem o compreendido na primeira fase vai poder ser útil para a compreensão do todo, a metáfora completa. Mesmo assim, a curiosidade de saber aqulo, de tentar acompanhar a imagem criada é tanta que se cria uma espécie de "atalho" ao pensar que tal coisa é aquilo ali que não se sabe, apenas para seguir adiante na intricada teia de metáforas que se pode criar a seguir. Chega uma hora que extrapolou tanto o conhecido que se desiste e se passa para outra. Mas, como um treinamento, não se pode desistir, pois o resultado, quando encontrado, é recompensador e inspirador.

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quarta-feira, março 01, 2006

Quase

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Quase um ano de blog.
Dia 4 de março completa.
Vamos ver quanto tempo mais vai durar.
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sexta-feira, fevereiro 24, 2006

Sobre ética

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O Dicionário Aurélio Buarque de Holanda, um dos mais confiáveis do país, diz que ética é "o estudo dos juízos de apreciação que se referem à conduta humana susceptível de qualificação do ponto de vista do bem e do mal, seja relativamente à determinada sociedade, seja de modo absoluto”. Ética jornalística, portanto, seria algo como “o estudo dos juízos de apreciação que se refere à conduta do jornalista”, se for possível algum tipo de definição. Geralmente, para diferenciar ética de moral, se utiliza algumas sentenças do tipo “ética é universal, moral é cultural”, ou “ética é teoria, moral é prática”.

Por ser cultural, a moral é pessoal, varia, enquanto a ética não, é intransponível. Etimologicamente falando, ética vem do grego "ethos", e moral vem do latim "morale", que tem o mesmo significado: Conduta, ou relativo aos costumes. Como os radicais trazem um conceito simplista, bastante relativo, melhor mesmo é diferenciar ética e moral do que igualá-los. Acontece que, como toda profissão que tenha um código de ética, e acredito que todas tenham, a ética da profissão exige uma adequação da moral de cada um que é impossível de se obter. Uma pessoa que se embriague de sua moral não vai respeitar a ética, pois se considera acima. E assim cometerá erros crassos, não aprenderá com eles e continuará repetindo ad infinitum até que, ingrato mundo, ela obtenha vitória seguindo sua moral e não a ética, tão solene e generalista. Pra que ética então, se ela é frágil a ponto de deixar o ser humano a desrespeitá-la?

A ética pode ser frágil, mas não é conivente, não aceita desaforos; apesar de que não pune desvios da maneira que devia por que isso faz parte de sua natureza plural. E o fato dela ser frágil não significa que ela não tenha de existir, por que, se não há ética, há o caos, a falta de juízos de apreciação e de qualificação entre o bem e o mal torna tudo suscetível e regido pela moral, senhora perversa e individualista que acabaria por espalhar o caos em todas as partes. Mas, não sendo apocalíptico, a ética profissional, como uma subdivisão da ética Ética, é apenas um conjunto de regras a serem seguidas fortemente influenciadas pela moral. E a moral de cada um, por mais desobediente e segura de si que seja, funciona, em relação à ética, como aquela velha história da utopia: não é porque não consigo adequar minha moral a ética que deixarei de tentar, assim como não é por ser uma utopia que deixarei de tentar fazer com que se torne verdade, assim como, entrando mais no jornalismo, não é porque a objetividade seja inatingível que não tentarei atingi-la.

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terça-feira, fevereiro 21, 2006

Manuscrito achado

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Parece querer diminuir e não encontrar seu lugar
De tão pequeno, livre e sonhador, não pensa mais em existir.
Donde estás, donde estás,
Não obtém resposta e teme a pergunta
Olha, enxerga, de longe, mas onde é mesmo que se esconde ?

Irritado, quer fugir, voar e planar
e encontrar aquele sinal, fraquinho,
quase embriagado de tanto esperar,

zombeteiro de tão fraco que está
aproxima e tenta provocar,
mas desiste quando ele lhe faz lembrar
que nunca soube, donde estás?

agora ele quer se entregar
e insiste em se esconder,
desaparecer de tanto lutar
evaporar, cair sem se machucar

"Não é tão fácil assim",
alguém aparece para falar
"não reconhece tua condição
ou de tão pequena já sumiu?"

Abalado ele volta atrás
ou não sabe, además,
pra que te esconde se não sabe onde?






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sábado, fevereiro 18, 2006

Cenas Buenairenses (4): Palermo

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"Pega essa rua aí da frente, a Jorge Luis Borges, e anda umas quadras que tu chega na Plaza Cortázar."






Fiz o que um simpático velhinho me disse pra fazer.


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Pega a rua Jorge Luis Borges que vai dar na Plaza Cortázar. Só Buenos Aires mesmo.
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( os velhos portenhos ,e argentinos em geral, são sempre simpáticos e parecem exalar sabedoria de vida. São as pontinhas de fio que resistiram ao tempo e trazem consigo o glamour de outras eras. Ainda bem que Buenos Aires está cheio deles)

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Palermo é um bairro residencial-boêmio; das boates, dos pubs, das lojas chiques, dos grandes prédios de apartamentos da classe média-alta e alta da cidade, das ruas arborizadas e tranquilas frequentadas por gente bonita e bem vestida, dos cafés onde os "intelectuais" gostam de se reunir ( esses mesmos cafés que, peculiaridade local, tem menus com todas as coisas em dois preços: um até as 22 e outro após), do convívio - mais explícito que outros locais da cidade - de tradição e modernidade. É um bairro um pouco afastado do centro, há cerca de uma hora de caminhada . Ao sul, o bairro conta com inúmeros parques (incluso o Jardim Botânico e o Zoológico) antes de chegar no Aeroporto Jorge Newbery e , logo após, o Rio da Prata.



Um café pelas voltas da Plazoleta Cortázar


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quarta-feira, fevereiro 15, 2006

Notícia de uma quase tragédia

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Eram alguns poucos minutos passados do meio dia, a temperatura já acima dos 30º graus, e nas proximidades de um prédio na rua Tuiuti, quase esquina com a Floriano Peixoto, houve-se um estrondo. Algumas faíscas caem na calçada, e um homem está deitado na sacada do terceiro andar, em estado de choque. Funcionários de uma loja em frente ao edifício correm para o apartamento para socorrer o homem, que pintava o lado externo do prédio. Ao que parece, num breve momento de distração, o pintor deixou o cabo que estava o pincel encostar nos fios de alta tensão situados quase na mesma altura de sua cabeça. Resultado: uma descarga elétrica forte jogou o corpo do homem, que se chama João Manuel de Oliveira e tem 29 anos, para a sacada em frente. Os funcionários da loja chegam no apartamento para o socorro, ele está consciente, mas apavorado com as queimaduras espalhadas por todo o seu corpo, principalmente no braço e na mão direita. O fotógrafo Luciano Souza, um dos funcionários da loja em frente, ouve de João "cara, perdi minha mão, tenho que trabalhar, uma família pra sustentar", e tenta acalmá-lo, "calma tche, não te apavora, a mão tá aí". E ela está mesmo, chamuscada, igual a todo o braço, que está quase em carne viva, sem pêlos. Manchas pretas estão espalhadas na camiseta, assim como na parede lateral da sacada. Alguns minutos depois das 12:10, hora em que o corpo de Bombeiros é chamado através do telefone, surge o furgão e o caminhão vermelho. A escada é colocada diretamente na sacada e , rapidamente, os bombeiros presentes descem o corpo de João, que é encaminhado direto para o Hospital de Caridade. Eles já adiantam que os braços e os dedos sofreram queimaduras de 2º grau. João ,logo que chega, dá entrada ao bloco cirúrgico do hospital. No início da noite, ele sai para a sala de recuperação, e de lá vai para o Centro de Tratamento Intensivo (CTI). Seu estado é regular.
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Jornal A Razão, 15 de Fevereiro de 2006.


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sábado, fevereiro 11, 2006

Reflexões de Herman (1)

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Herman Oliveira tem 23 anos, nasceu em Santana do Livramento, filho de pai uruguaio e mãe brasileira. Morou em Livramento até os sete e em Montevideo até os 19, quando entrou para o curso de Letras na Universidade de Buenos Aires e lá mora até hoje. Em dados momentos, sem uma periodicidade rígida, ele escreverá para o blog. Como muitos estudantes de letras, Herman também é aspirante a escritor; por isso, os temas de seus escritos serão, em sua maioria, sobre o processo de escrever e literatura em geral. Mas, segundo ele, haverá relatos sobre outras coisas também como futebol e Buenos Aires, duas coisas que ele gosta muito.

Bon Apetit!



VIVER, CONTAR, CRIAR? *

Quem lê Hemingway deduz, cheio de certeza: ele viveu isso. Basta uma olhada na sua biografia e comprovar que sua vida foi tão interessante quanto aquilo que escreveu, se não for até mais. Mas Hemingway, como poucos escritores, viveu tão "intensamente", viajou, namorou, caçou, bebeu e conheceu tantas coisas que para contar suas histórias não precisava mais que sua memória, que, diga-se, era bastante boa em lembrar de detalhes.

Por muitas vezes, ele nem precisava forçar para contar uma história: eram elas, as histórias, que se apresentavam a ele e pediam, encarecidamente, para serem contadas.Então, cabia a ele julgar o que se apresentava, moldar o material que tinha, 'martelar uma bigorna como um ferreiro até que ela se torne rígida e compacta, sem excessos desnecessários', como ele mesmo escreveu na apresentação de um dos seus volumes de contos.

Mas Hemingway é uma exceção ou uma regra?

Acredito, e não é nenhuma novidade, que temos de vivenciar aquilo que contamos, nem que seja apenas na mente, mas o 'estopim' para nossa imaginação criar a história tem de ser uma situação real, acontecida conosco ou com alguém que nos contou tão bem que conseguimos nos colocar no lugar dessa pessoa e vivenciar também.

Quando lia Cortázar sem conhecer sua biografia, pensava na amplitude espantosa de sua imaginação e me custava acreditar que aquilo fosse possível ser contado se não tivesse sido minimamente vivenciado. Mas quando li um pouco sobre sua vida pude perceber que cada conto, cada passagem de 'Rayuela' (O Jogo da Amerelinha)saiu da vivência que ele teve, das coisas que viu, ouviu, tocou. Mesmo as partes mais fantásticas e irreais, ele vivenciou o suficiente para o estopim ser dado. Borges, por exemplo, me parece que não viveu, mas conheceu pessoas que contavam muito bem aquilo que viveram, e a sua rica imaginação, regada a muitos e muitos anos de estudo, tratou de criar o resto. E, diga-se de passagem, criou maravilhosamente bem.

Mas há outra questão também com relação a Borges. Como diz Cortázar de Goethe em 'Rayuela', Borges é um daqueles que estão com seus pseudópodes estendidos ao máximo em todas as direções , e eles abrangem com um diâmetro uniforme tudo aquilo que está em seus domínios, enquanto que nós, pobres humanos, apenas soltamos nossos pseudópodes em uma direção, embora nunca se saiba qual. É essa percepção aguçada que os torna clássicos.

Para finalizar, acredito que terá um bom resultado naquilo que escreve quem mais conseguir extrair a essência do que vive e criar, refletir sobre isso; a imaginação mais fértil aliada a melhor forma de contar aquilo que imaginou. Ou, quando se tem uma vida ao estilo Hemingway, saber selecionar o que viu e relatar. Bem, como se fosse "apenas" relatar...



*Traduzido do castelhano.

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sexta-feira, fevereiro 03, 2006

Cenas Buenairenses (3): San Telmo

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Plaza Dorrego, San Telmo.



Os pássaros e o cantante de doces

18:28

Tarde de caminhada pela cidade. A temperatura é agradável tendendo a ficar calor, mas coloco o casaco para poder carregar a máquina, os mapas e outros papéis nos bolsos de dentro do mesmo, e não ter de carregar tudo na mão - o que, convenhamos, limita e muito o contato táctil com os lugares por onde passo. Chego no bairro de San Telmo, perto do centro e do rio, conhecido pelos seus inúmeros antiquários, suas ruas estreitas de calçamento e por seus cafés. Cansado, decido me sentar na mesa mais perto da rua numa linda praça cheia de pombos. Sou o único sentado nas mesas, inexplicavelmente. Mas acho que é por pouco tempo. Depois de um tempo descansando e observando os pombos desfilarem como se fosse os zeladores da praça, peço o café. Nem olho o preço. Finalmente achei um lugar que clame espalhafatosamente por um café.


18:41

Mas é barato. $2,50 pesos, mesmo preço daqui. E é bom, como a maioria dos daqui. Vem com água, também como os daqui, e com um potinho cheio de grãos que parecem castanha. Não, não é castanha. Pistache! Lembro do gosto do meu sabor de sorvete preferido. Pistache! Isso não tem nos daqui. E o gosto casa bem com o do café.
As mesas começam a encher. Pai e filho falam uma língua estranha na mesa ao lado; pelos beicinhos que fazem, é francês. No outro lado, três homens conversam animadamente em outra língua; pelo tom de voz alto , é italiano. É próxima do português, acho que mais fácil de se compreender que o espanhol falado - sempre rapidamente - pelos portenhos. Homens de terno e mulheres de tailleurs na mesa a frente vieram provavelmente direto do trabalho; é aniversário de algum deles, cantam parabéns, e levantam as canecas de chope para um brinde.


18:49

Todos os chopes são servidos com uma pequena bandeja de amendoins. Pombos adoram amendoim. Devagarinho, como se fossem na ponta dos pés para não fazer barulho, eles aproximam-se da bandeja; vão pelo chão, pulam (ou voam) nas cadeiras, passam para as mesas, e esperam um bom momento para a aproximação da bandeja e o gozo final, a bicada no amendoim. Mas as pessoas das mesas, vilões de um filme inexistente, não os deixam aproximar. Com as mãos abertas, como se fossem dar umas palmadas num filho malcriado, eles espantam os pombos, que não desistem: começam o percurso novamente, indo para o início do rotineiro circuito-fechado-em busca-do-prazer.


"Parece una película de Hitchcook, Los Passaros"


19:08

Nem sinal de escurecer, os franceses vão embora da mesa. É a hora: os pombos atacam, sobem desesperados na mesa e bicam sem parar os amendoins e os próprios pombos na busca de mais amendoim para si. Chega o garçom, junta o prato e joga os amendoins no chão, os pombos vão atrás, se esbaldam rapidamente. Voltam a vigília das outras mesas; uma bandeja de amendoim é pouco.


19:42

O café acabou, os pistaches acabaram, a água também. Os pacotinhos de açúcar não, e a animação nas mesas começa a aumentar. Um vendedor de balas e outros doces passa de mesa em mesa com seus produtos. Ele não está se importando muito em vender, quer agitar; começa a cantar uma música com uma voz que surpreende pela suavidade e afinação. Pede para que o pessoal da mesa o acompanhe. É a mesa do aniversariante. Animados que já estavam, o pessoal de terno e tailleurs canta, seguindo o maestro vendedor de doces. Todas as outras mesas guiam seus olhares para lá, com sorrisos que vão do tímido "que constragimento!" a gargalhadas "que engraçado, o aniversariante cantou a estrofe errada!". O vendedor pede aplausos e eles surgem, esparsos, mais tímidos que os sorrisos de antes.


19:56

Penso em ir embora, mas o vendedor agora está em outra mesa conduzindo a cantoria. Uma mesa maior, mas não tão animada, pois só duas pessoas parecem cantar. O aplauso vem mais fraco que antes, e o vendedor, agora assumindo o papel de animador de um auditório ao ar livre, pede, para toda a praça ouvir, que se escolha qual mesa cantou melhor. Aplausos mais intensos para a primeira mesa, inclusive o meu. O vendedor levanta a mão do aniversariante, sob palmas, assobios e até gritos de todos os seus colegas de trabalho, parabenizando pela vitória na cantoria. Mas não dá nenhum doce de prêmio.

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quarta-feira, fevereiro 01, 2006

Cenas Buenairenses (2): La Boca

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La Boca é o bairro:

do Boca Juniors (e de "La Bombonera", o caldeirão mais mortífero do futebol latino)

do Caminito ( uma rua e meia com antigas casas coloridas, com muitos artistas expondo seus trabalhos sobre o Tango, principalmente. Um dos principais pontos turísticos de Buenos Aires.) ,

dos imigrantes italianos, que vieram para para a Argentina no final do século XIX e início de XX e ali se instalaram, construindo sua parte na história da cidade;

dos bares com cantores vestidos com o clássico chapéu que Gardel usava, e , a sua frente, bailando, casais de dançarinos de tango , ricamente vestidos, enquanto turistas e portenhos observam de suas mesas tomando uma Quilmes litro;

na beira do Rio da Prata, que circunda o bairro, definindo seus limites do lado direito, e serve de paradeiro para barcos aposentados, que , juntamente com as ruas de pedra, as casas simples e o povo de olhar melancólico mas falas e gestos apaixonados, formam um belo cenário que não parece pertencer aos pós-modernos anos 2000.



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quinta-feira, janeiro 26, 2006

Na espreita do último dia

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Em meio a uma mesa de um típico pub londrino , só que em Buenos Aires, com três canecas de chope e quatro pessoas, um homem de 25 anos já um pouco bêbado, israelense, pede para contar uma história que ocorreu com ele anos atrás, em seu país de origem; os outros três, brasileiros, se calam e escutam com atenção o israelense, que num misto de inglês, espanhol e português, começa sua história *:


Foi há alguns anos atrás isso, como já falei. Em Israel , não sei se vocês sabem, mas o serviço militar é obrigatório, tanto pra homem quanto pra mulher. Chega os 18 anos, nós já vamos com uma certa preparação psicológica para ficar um ano servindo, ainda mais se você não gosta e nem vê perspectiva no exército, como muitas vezes acontece. Mas nãó era o meu caso, eu me apresentei tranquilo, queria ser piloto de tanque - nós , pelo menos, temos liberdade para escolher nossa função dentre as apresentadas por eles.

Definido o quartel, me apresentei, manifestei logo meu desejo de ser piloto, eles me encaminharam para o treinamento, que foi bem dentro do que eu esperava, bastante duro mas recompesador, pois me orgulhava servir ao meu país e ao meu povo. Depois de alguns meses, independente da função escolhida, somos mandados para algum quartel ou base no país para ficarmos, se tudo ocorrer bem, até completar um ano de serviço obrigatório; pode-se ficar mais, mas são poucos os que querem, e eu não queria, buscava fazer uma faculdade.

Como é sabido por vocês e por quase todo o planeta, vivemos em uma terra de que está permanentemente em guerra; os conflitos sempre se renovam, as batalhas nuncam cessam por completo e a tensão presente em todo o território é alta; por outro lado, somos já tão acostumados a essa tensão que muitas vezes banalizamos certas coisas, como a morte de uma pessoa, por exemplo, já que desde pequenos nos acostumamos que isso aconteça com conhecidos, pessoas próximas - embora

Fui servir a uma base quase na fronteira com o Egito, que não é a região mais tensa do território, mas ainda assim suscetível a ataques surpresas e , portanto, merecedora de cuidado. Fiquei por 3 meses lá, patrulando de tanque o deserto - era uma zona desértica, como quase todo Israel - sem nunca precisar atirar em alvo que apresentasse risco iminente para mim, apenas alertava quando alguém entrava na zona que cuidava. Mas eis que no último dia me acontece algo terrível.

Na base ficavam 10 pessoas, a maioria da infantaria; com o tempo e a convivência, ficamos amigos, todos nos dávamos bem. Era uma quinta feira, iríamos ser liberados no fim da tarde de sexta. Como aquele dia estava muito quente, resolvemos antecipar nossa festa de despedida; compramos algumas (muitas) cervejas, geladas, e logo que anoiteceu começamos a beber, todos, inclusive nosso chefe, que, apesar da amizade que criamos, ainda mantinha uma distância de nós - o que era saudável até, por questão de autoridade. Mas naquele dia ele bebeu demais, assim como todos, menos eu; por um acaso, ou por ser piloto, fui o encarregado de buscar mais cervejas no vilarejo próximo, à noite, quase 11 horas. Obviamente, foi muito difícil encontrar; só consegui depois de quase duas horas procurando. Quando cheguei, todos estavam ainda mais bêbados; tinham tomado todas as cervejas e ainda acharam algumas garrafas de vinho esquecidas na despensa. Um sóbrio no meio de um grupo de bêbados se sente um completo idiota, e por isso fui dormir, irritado por terem me preterido na festa.

No outro dia, no horário de todos estarem acordados somente eu estava. Fiquei receoso com a situação (vai que no último dia surja algum perigo...), mas me vesti e saí para minha ronda normal. A surpresa veio quando vi um grupo de rebeledes palestinos escondidos atrás do único morro perto da nossa base. Imediatamente, fui direto para a base contar a péssima novidade. Acordei o pessoal, informei do problema; de ressaca, todos, acordaram ,surpresos, e foram se vestir. O chefe me mandou ir na frente para atrasar os rebeldes, pois era o único que estava vestido. Peguei o tanque e fui, morrendo de medo da situação nova que me esperava, e exigia, uma ação. Quando entrei no tanque, começaram a atacar a base. Na hora, fiz o contra-ataque; não deu resultado, errei o tiro. Eles eram muitos, e , o que é pior, espalhados. O ataque continuou, mas dessa vez o resto do meu grupo revidou, alguns ainda vestindo a roupa do exército, atabalhoados, mas já atirando com a metralhadora.

A batalha se seguiu por algumas horas, até afugentarmos os rebeldes. Mas não sem um saldo negativo: nosso chefe foi atingido no peito e veio a falecer tempos depois. Um dia depois da despensa, juntei todo o meu dinheiro e fui para os Estados Unidos estudar e trabalhar; fiquei um ano lá, tranquei a faculdade e fui viajar, coisa que faço até hoje - como vocês bem podem notar.




* Em depoimento; embora, como diz Borges, o esquecimento e a lembrança são inventivos.

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quarta-feira, janeiro 25, 2006

Cenas Buenairenses (1): Jardim Botânico

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No meio de um bairro, Palermo, considerado "chique", de classe média e alta, a algumas quadras de lojas com preços para uma roupa ou uma bolsa acima da casa dos mil pesos, cercado por robustos prédios de apartamentos de 10,12 andares e margeado por uma avenida com nome de província argentina (Santa Fé), há o Jardim Botânico de Buenos Aires. Majestoso, mas não tão imponente, serve de refúgio para quem:
a) quer ler um livro estirado na grama ou bem sentado nos inúmeros bancos;

b) não tem como ir a praia e quer deitar em algum lugar para tomar banho de sol ( a grama , em certos locais, é mais fofa que a areia de muitas praias, mas tem o acréscimo, que a areia só oferece para quem tem alergia, da cosquinha, nem sempre bem vinda; uma toalha qualquer resolve o problema )

c) tem filhos pequenos, mora em apartamento e precisa de um lugar para que os filhos possam correr, deitar, rolar, brincar, até gritar, sem se preocupar com nada além da ameaça a integridade física dos seus filhos que as ações citadas possam causar;

d) gosta de gatos ( há perto de 50, brancos, pretos, malhados, cinzas, todos criados e , provavelmente, nascidos ali mesmo, talvez a explicação deles serem tão dóceis a ponto de pular no colo de quem senta sem esse estar oferecendo comida)

e) quer tomar um mate e jogar conversa fora, na sombra ou no sol, seja às 10 e 31 da manhã ou às 19 e 15 da tarde (demora a anoitecer, entre 20:45 e 21:15);

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Como todo jardim botânico que se preze, tem muitas árvores, algumas com seus dados de identificação em placas , e muitos bancos, que embora a grande quantidade, ainda assim não são fáceis de se ver desocupados.
Há gente de todas as idades, e , parece, também de todas as classes sociais; de executivos de terno descansando em algum banco a casal de aposentados tomando seu mate, passando por estudantes deitados ao sol lendo, garis uniformizados conversando alegremente, turistas europeus 'sacando una foto', gurias adolescentes conversando estiradas na grama e um velho maltrapilho parecendo um mendigo.

Sentar descompromissado em algum banco por uma hora, duas, é uma boa forma de observar, e conhecer, o comportamento dos portenhos. E também de gostar ainda mais do jardim Botânico, lugar fértil de se criar impressões e aprazível para torná-las consistentes. Pode até ser um parque como qualquer outro, mas só se for numa classificação grandiosamente comparativa e radicalmente racional, feita , talvez, por gente que nunca frequentou o lugar e nunca se deu ao esforço de querer entender aspectos culturais/comportamentais dos povos e lugares que percorre - ainda mais de um povo tão sentimental, passional e observador como os argentinos.









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terça-feira, janeiro 24, 2006

Saberás, quando não?

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Viajar, quando nada mais resta;
Viajar, quando não se sabe, nada?;
Viajar, quando restar, o quê?
Viajar e encontrar.




Longe da acomodação tranquila de casa, não há quem resista a uma consulta com si mesmo. A tentação é forte, e boa; lugar melhor, independente de onde, não há. Não precisa marcar, nem sofrer estar se entregando a alguém que nao tem uma intimidade suficiente para gerar a confiança necessária. Não precisa de subterfúgios, desculpas que adiem, enrolem ou dificultem a consulta; ela acontece quando se faz necessária, sem um aviso - chamativo - prévio, simplesmente há uma sensação de que se está consultando - embora, às vezes, não se perceba muito bem algum resultado, ou mesmo o efeito imediato, logo depois do acontecido. Precisa-se de uma preparação, que nem sempre está pronta quando o imediato a chama. Algum tempo de assimilação tornam tudo tão imediato que quase nem dá-se conta de que não é mais algo tão imediato assim.

Assimilação lenta, efeitos prorrogados e definitivos; uma chavezinha , num desses lugares, foi encontrada, mas é chegando em casa que ela vai ser testada em diversas portas para saber qual ela irá abrir, se é que abrirá alguma.

Caso positivo, há ainda diversas opções: encruzilhada simples, complexa, estrada limpa, deserta, pavimentada com tracinhos prontos a serem seguidos, estrada limpa com uma outra obscura meio que escondida atrás de uma vegetação tão expessa quanto é possível a nós ver, outra tão deserta que as bifurcações aparecem em forma de miragem, sonho, mas que na hora não são distinguíveis, e por isso levam a lugar nenhum ou algum lugar, nao se sabe.

Se abrir alguma, melhor que sejam desse último tipo citado, deserta, com bifurcações que mais parecem sonhos - ou pesadelos - mas que são tão incríveis, diferentes, que parecem miragem ou ilusão de um caminho para um oásis que existe, verdadeiro como o caminho que leva até lá não é (ou pode ser). Chegando lá, observando quem está ao redor, é que se saberá se

a) É o paraíso;
b) É o paraíso, pós-morte;
c) A chavezinha abriu a porta correta;
d) Todas as outras são verdadeiras, embora não se acredite em nenhuma.


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sexta-feira, janeiro 20, 2006

Em Itaqui ( finalizando)

Bueno, já estou pelo Brasil. Na terça mesmo voltei para Buenos Aires de ônibus (a única forma, talvez) ; fiquei a quarta inteira por lá, visitei alguns lugares que ainda nao tinha visto, como o Jardim Botânico e a Plaza Cortázar, e , talvez pelo sol que fazia e a temperatura muito agradável, foi o melhor dia em Buenos Aires. Algumas fotos eu colocarei depois.
Na própria quarta, quase de madrugada, peguei um outro onibus para Paso de Los Libres; depois Uruguaiana, e , finalmente, na quinta pelo meio dia estava em Itaqui. Faziam quase 10 anos que nao visitava meus tios aqui, entao resolvi aproveitar o ritmo de viagem e dar uma passada.

Bom, o diário de bordo acabou, a viagem ainda nao. Ao longo do tempo, vou soltando algumas fotos e impressões dos lugares que passei, mas agora sem qualquer ordem, nem cronológica nem nenhuma outra, e o blog voltará ao que era antes da viagem.

terça-feira, janeiro 17, 2006

Em Bariloche(2)

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Ola, algumas fotos de Viedma, da viagem de trem para cá, e daqui.




Viedma, na beira do Rio Negro, capital da Província de Rio Negro, 50 mil hab, de onde sai o Trem Patagônico




No trem.




Em Bariloche, do alto de um prédio, bem no centro.



O Hostel onde fiquei.

segunda-feira, janeiro 16, 2006

Em Bariloche

Ola,
Estou em Bariloche, depois de passar um dia em Viedma, 980 km ao sul de Buenos Aires, e pegar o trem para cá, distante uns 900 km também de Viedma. Dá para se imaginar um triângulo retângulo virado de lado; em uma está B Aires, outra Viedma, e na ponta, virado para a esquerda, está San Carlos de Bariloche.

Em uma cidade turística como Bariloche - janeiro é epoca de Vacaciones por aqui, o que contribui para o aumento do número de pessoas por aqui - tudo é mais caro.
Depois de quase nao ter dormido durante dois dias ( um na viagem para Viedma e outro na tentativa, nao muito produtiva, de dormir na rodoviária de Viedma, já que todos os hotéis mais em conta na cidade, inexplicavelmente, estavam cheios), resolvi que iria dormir em algo decente; achei um hostel a 15 km do centro de Bariloche, encrustado no meio da montanha de 1400 m de altitude e com acesso só em jipes 4x4 de tao ruim que é a estrada. O preco era o mesmo dos hostels do centro, entao valia a pena tirar um dia para descansar e curtir o visual - magnífico - e o silêncio, muito silêncio, quase inacreditável de tao quieto era o lugar.
O local lembra também aquelas casas onde, em filmes de terror e suspense, um grupo vai para o local, completamente isolado de tudo, e lá acontecem várias mortes, restando um que desvenda o enigma e o filme termina. Ajuda a lembrar esses filmes o fato de o dono ser um tanto quanto estranho, calado e com cara de psicopata, e de suas duas filhas que cuidam do hostels serem outro tanto estranhas, loiras, as vezes simpáticas as vezes rude, parecidas com a) Rebecca de Mornay em a A mao que balanca o Berco b) a loira do Bebe de Rosemary, do Roman Polanski. Aqnum hostel que è mais um retiro, ou uma casa na montanha de filmes de terror.

Nao sei o que farei amanha. Buenos Aires, ficar por aqui, ou entao ir para Mendoza, depopis San Juan, tentar uma carona com um caminhoneiro conhecido... Nao sei.

sexta-feira, janeiro 13, 2006

Fotos (Buenos Aires)

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Agora, algumas fotos de Buenos Aires.




Ao fundo, La Bombonera, estàdio do Boca Juniors.



Puerto Madero, um antigo porto abanadonado, hoje regiao dos restaurantes e bares chiques de Buenos Aires. Ao fundo a "Ponte de la Mujer".


Casa Rosada.



Eu em baixo do Obelisco da Av 9 de Julio, um dos sìmbolos de Buenos Aires.



Estou indo para Bariloche. Tentarei pegar o trem em Viedma, ao sul, no Domingo, às 18h. Amanha estarei por lá, Viedma e Carmen de Patagones, que sao cidades vizinhas sepaeradas apenas pelo Rio Negro, a uns 900 km ao sul de Buenos Aires. Lá em Bariloche tratarei de escrever mais.

Fotos (até Buenos Aires)

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Como prometido, as fotos. Primeiro as fotos até Buenos Aires.





Esperando o trem, na estacao de Libres, na companhia do meu fiel radinho de pilha.



Este é o trem parando, e o pessoal saindo para buscar uma água.




Estou tirando a foto de onde fiquei a grande parte do tempo da viagem de trem. As pessoas da frente estao no vagao da clase Turista, a que fui. Como pode se ver, as concicoes nao sao lá muito boas...






O hostel Sol

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quinta-feira, janeiro 12, 2006

Em Buenos Aires (2)

Nao é tao fácil falar espanhol como se pensa. O espanhol daqui é mais difícil de compreender do que o do Uruguai, mais "enrolado" - seja lá o que signifique isso. O velho portunhol ,em muitos casos, nao é o suficiente, sendo preciso que vários gestos auxiliem no diálogo que tenta se estabelecer. Os argentinos,parece que percebendo que estou falando errado o idioma deles, sempre repetem aquilo que quero dizer com a pronúncia certa, afirmando que eu quero dizer tal coisa mas que do jeito que eles estao me falando é que é o correto. No início,achei que fosse até arrogancia da parte deles, mas depois vi que nao,é apenas o jeito deles de estabelecer uma conversa.

No Hostel

O hostel é, como uma propaganda diria, o lar dos viajantes.O dono,um castelhano baixinho e bem humorado, está sempre pronto a servir, a esclarecer dúvidas. A sua equipe: um gurizao que sempre atende a campainha ( há uma escada para subir para os quartos,a cozinha,os banheiros) num sobe e desce constante e cansativo; um cabeludo músico hippie tardio ,e uma loira muito bonita,que parece ser namorada do cabeludo, toda rockstar, roupa apertada,all-star de botinha, camiseta branca de banda.

Estava sentado tomando mate no amplo salao do lugar quando presenciei a seguinte situacao: um casal frances discutia entre si ( em frances) quando a mulher pergunta para o baixinho dono do hostel,em ingles, onde se encontrava uma coisa (que nao escutei o que era); o baixinho nao sabia; entao, ele perguntou, em espanhol, a uma brasileira o que significava aquela coisa; a brasileira nao sabia; perguntou, em portugues, para o seu namorado o que significava aquela coisa que o baixinho perguntou; finalmente,o brasileiro soube a resposta, falou em portugues para a namorada,que falou em espanhol para o baixinho,que falou em ingles para a francesa,que falou em frances para o seu marido.
Essa situacao ilustra bem a "Babel" que é isso aqui. Dos que estao se hospedando agora, tem : brasileiro, peruano, australiano, frances, holandes,noruegues e israelense. Para esse povo todo se entender,além de gestos,o ingles facilita. No meu quarto,com 5 beliches, há dois brasileiros de Curitiba, metaleiros e parceiros de trago e saídas, o israelense que fala 3 idiomas e já foi piloto de tanque do exército,e um peruano mais calado.

Uma constatacao que tive por aqui é que nao sei falar espanhol nem ingles,só enrolo nos dois. Com o israelense,a comunicacao é num "spanglish" bem precário, mas os dois curitibanos falam muito bem em ingles e traduzem algumas coisas para ele do que eu falo. O israelense é muito gente boa, levou nós para um pub com o sugestivo nome de "the Killkenny",onde tomamos umas cervejas e conhecemos o comportamento das chicas argentinas .Notamos que elas até gostam de estrangeiros,mas se fazem bastante - o que, aliás, é bem normal - e também tem uma coisa: a linguagem dos relacionamentos, da paquera, por mais especificidades que cada lugar tenha, no fundo é toda igual,pois os olhares , quando se se cruzam uma vez, duas, e voltam a se cruzar meio que parecendo sem querer, nao precisam de traducao.

Chove quase todo dia aqui, o que nao impede muita coisa, mas atrapalha um pouco.

quarta-feira, janeiro 11, 2006

Em Buenos Aires (1)

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Ainda um pouco cansado, resolvi conhecer a cidade.O hostel é muito bem localizado, ao lado da grande Av. 9 de julho, a do famoso Obelisco, com sete pistas cheias de argentinos apressados que adoram usar a buzina - notadamente os taxistas,que a usam ao menor sinal de algo que possa ameacá-los.

Seguindo a avenida, cheguei ao centro - igual ao de qualquer cidade grande, muito concreto , McDonalds a cada esquina, filas de pessoas atravessando a rua, músicos tocando nas calcadas das esquinas, pessoas apressadas esbarrando nas sem pressa( e nos viajantes,como eu ) , executivos de terno falando ao celular, zombidos vindos de todos os lados, ruas sujas e pedintes nas entradas dos grandes e velhos prédios etc,etc. Só aqui nao há ambulantes, mas há dancarinos de Tango no calcadao (Calle Florida)

Depois fui passar pelos pontos turísticos,tirei aquelas fotos que todo mundo tira de Buenos Aires ( na frente da Casa Rosada,da Plaza de Mayo). Queria conhecer as famosas Galerías Pacífico, achando que fosse galerias mesmo, daquelas antigas com chao gasto de tantas historias, de teto altíssimo de vidro,com passagens secretas para um outro mundo obscuro, misterioso,com velhos argentinos fumando e conversando sobre o Boca, as Malvinas( "Las Malvinas soy argentinas" diz a primeira placa que vi quando entrei na Argentina),a situacao do país...... mas galerias por aqui é Shopping, e Shoppping sao todos praticamente identicos. Pelo menos nesse tinha o Centro Cultural Borges, mas as exposicoes, inclusive de Chagall, eram todas pagas( e caras), nada feito.

Após andadas e mais andadas( de All-Star),voltei ao hostel. Encontrei uns brasileiros,paulistas estudantes de Letras da USP, que pegaram o mesmo trem para vir pra cá, só que o de uma semana antes e em Posadas. Tentaram ir na classe Turista, mas ,para sorte deles, nao tinha mais bilhete, foram de Primeira Classe. E ainda assim reclamaram bastante.



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terça-feira, janeiro 10, 2006

Viagem até Buenos Aires

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Finalmente. Depois de quase dois dias de viagem. Mas vamos do comeco ( nao sei como sei usar acento nem cedilha nesse teclado em espanhol).

Saindo do calor "senegalesco" de Santa Maria, consegui uma carona depois do meio dia com um dos poucos caminhoneiros que passava no Domingo. Como ele ia para Santiago, me deixou no trevo de Sao Vicente. Chegando em Sao Vicente me dei conta de uma coisa: a bilheteria do trem em Libres parecia, nao tinha certeza, que fechava as 20:00. Na dúvida e na correria de nao conseguir pegar o trem, resolvi entrar no primeiro onibus que tinha para Uruguaiana, que por sorte era dalí a meia hora, 14:15.

No onibus, sem sono, fui conversar com uma paulista que estava no banco de trás, indo também para Uruguaiana. Ela havia saído sábado de Sao José do Rio Preto para fazer a matrícula em Veterinária segunda ,na PUC de Uruguaiana. Estava há um dia e pouco dentro do onibus e , incrível, conseguia manter o bom humor. "To achando tudo lindo" , era o que ela nao se cansava de repetir, com aquele sotaque bem típico do interiorrrr de Sao Paulo.
Em Sao Francisco de Assis, troca-se o onibus, trecho de estrada de chao até Manoel Viana. Onibus sem ar, num calor de 40 graus. Só com todas as janelas abertas para amenizar a sensacao desagradável, beirando a insuportavel. Depois de Manoel Viana, ganhamos a companhia na conversa de uma argentina estudante de direito na UFSM, muy gente boa, que me antecipou alguns "cuidados" a ter com as las chicas argentinas.

Chegamos em Libres pelas 19:00. Rachei um táxi de Libres (bem mais barato) com um castelhano que estava no Onibus, passei na alfandega e cheguei na estacao de trem pelas 20:00 e pouco. Para minha surpresa, eles só vendiam bilhetes meia hora antes do trem passar, sem qualquer garantia de lugar para sentar. Como o trem estava previsto para passar as 3 da madrugada, resolvi dar umas voltas por Libres, cidade extremamente pobre e com certeza um péssimo "cartao de visitas" da Argentina - a própria castelhana do onibus já havia dito também.
Atrasado, pelas 4 e pouco, chega o trem.


O trem social da Argentina

Há alguns dias atrás tinha visto uma reportagem sobre um trem dessa linha Posadas-B.Aires que descarrilou, antes de Libres. Na reportagem, ainda se falava do trem como o "trem social" da Argentina, por proporcionar uma viagem tao longa por tao baixo custo. Mas eu deveria ter descofiado mais dessa prometida "barbada" ( 26 pesos até Buenos Aires, sendo que de onibus custa mais do que o dobro disso).
Entrei no trem e comecei a procurar algum lugar no vagao de nome "Turista", o de tarifa mais barata, e vi cenas brabas, dignas de filme. O trem apreceia aqueles trens de refugiados, ou ainda aqueles que levam as pessoas para o campo de concentracao, entulhados de gente. Pessoas atiradas no chao, durmindo sentadas, no caminho, na pia dos lavabos, quase impossibilitando a passagem sem algum pisao . No lugar onde ficam os bancos, famílias com filhos pequenos, de colo, atiradas,6 pessoas em bancos de 4 lugares.

Sem lugar para sentar, me posicionei na entrada do trem, ao lado de um jovem pai e sua "hermosa" filha adolescentede de 13 anos.Até consegui trocar umas palavras com la chica,mas era muito difícil entender o espanhol dela, falado muito rápido e com um sotaque estranho .Detalhe: a porta de entrada passou a viagem inteira aberta, sem qualquer seguranca.Ao menos era uma boa vista e um refresco para o calor que fazia.

10:00, 9 pessoas se acotevelavam na entrada do trem, onde eu estava, em um espaco para umas 3 pessoas. Na pia, duas criancas dormiam,com sua mae logo abaixo,no chao,cuidando do filho de colo . Nos corredores, pessoas se acomodavam, e para piorar a situacao, estava muito quente, o trem andava devagar,o vento refrescante de antes se tornara agora um bafo,e o trem ainda parava uma hora sem qualquer motivo.Ninguém dava qualquer explicacao, nem mesmo conferiam os bilhetes, e o engracado é que ninguém reclamava, todos conformados, pois a viagem era assim mesmo,repetiam aqueles que viajavam com mais frequencia.

Eu, depois de umas 9 horas de pé naquela situacao nada boa, resolvi sentar, e logo que sentei já peguei no sono, sentado mesmo, com as pernas encolhidas para nao bater no velho senhor que estava na minha frente suando, mas com um sorriso no rosto. Dormi por alguns poucos minutos,20 eu acho, levantei, peguei um ar na porta de entrada do trem. E assim se seguiu a rotina até Buenos Aires, com mais gente entrando em cada estacao, alguns poucos saindo. No meio daquelas paisagens bucólicas do interior argentino - sempre plano, reta - tentava esquecer a situacao que estava e me concentrar em algo que pudesse ao menos amenizar o sofrimento que o calor,a fadiga,a fome provocavam.Uma situacao quase sub-humana de super lotacao.
Peguei um taxi até o hostel, tomei um banho e fui dormir, precisando mais do que nunca de uma boa cama.

E agora de manha chove em Buenos Aires enquanto escrevo, descansado, finalmente.

Ps: as fotos vem depois, apesar de serem poucas.

sábado, janeiro 07, 2006

Viajar é preciso

Novamente, viajar é preciso.

Vou sair amanhã querendo chegar em Uruguaiana , de carona, até o início da noite, e então pegar o trem em Paso de Los Libres com destino a Buenos Aires. Se tudo der certo, segunda à noite estarei lá com os portenhos, procurando um hostel. Depois, não sei o que virá; ou fico um tempo lá ou saio viajar pela Argentina de trem, que é mais barato e mais bonito. Como imprevistos são frequentes nessas viagens, é capaz de segunda feira eu ainda estar recém em Uruguaiana. Tomare que não.

Pretendo fazer igual a outra viagem, em Outubro, quando mantive um "diário de bordo" aqui. Só dessa vez farei de tudo para atualizá-lo diariamente, ou no mínimo a cada dois dias, e dessa vez com direito a mais fotos.
Então tá.

quinta-feira, janeiro 05, 2006

1º parágrafo do 1º capítulo

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Primeiro parágrafo do Primeiro capítulo


Os olhos para cima captam a transparência de uma gotícula que cai de uma pequena folha, acompanham-na em todo o seu trajeto até a chegada na madeira escura, clareando-a com a cor do céu que resplandece como quando o olhar percebe, por algumas frestas através da árvore, os raios de sol que teimam em não desaparecer, mesmo conscientes de sua inoperância diante do que a gotícula parece anunciar como inevitável; outra transparência minúscula parece tornar a madeira mais esbranquiçada, e outra, e mais outra, e agora são tantas que a cor original perde seu tom e cede sua existência a uma cor mais viva, clara, e com ela parece que também os olhos que captaram as gotículas cedem sua prioridade para o verde do chão, o cinza das pedrinhas que guiam os pés agora apressados em direção ao branco do concreto pintado que, juntamente com o marrom escuro das extremidades, formam o abrigo que afugenta os olhos da distância que parece ser infinita, oferecendo um descanso muito mais próximo, escuro, mas que logo se acende para adquirir um amarelo fosco que ilumina a chegada dos pés já mais calmos, serenos de sua firme acomodação próxima ao concreto quente e seco; o olhar não se contenta facilmente com a proximidade e liberta-se para o infinito, agora mais escuro, e lá fica quando inúmeras gotas transparentes surgem e dão o colorido que perdurará até o final do dia, e que só sairá satisfeito quando os raios de sol agora não mais teimarem em desaparecer e surjam orgulhosos, pois são as gotículas que tiveram de ceder seu espaço, oferecer uma trégua – breve, diga-se – para que os pés hoje mais calmos do homem voltem ao lugar de antes, terminar o trabalho que nem bem tinha começado: escrever uma carta.

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terça-feira, janeiro 03, 2006

Onde encontrar a sabedoria?

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Diz uma escritura antiga, citada por Kerouac em Viajante Solitário: " A sabedoria só pode ser obtida sob o ponto de vista da solidão".

Não é difícil acreditar nisso; comunidade de sábios não existe, só o indivíduo pode meditar convenientemente, diz Harold Bloom, o grande crítico literário da atualidade. A meditação que , hipoteticamente, traz a sabedoria, sempre é solitária, por mais que o motivo dela possa vir a ser uma conversa com o outro - geralmente é assim mesmo que acontece.

Mas por mais que se ensine regras, se sugira caminhos para encontrá-la, a sabedoria não está em lugares pré-definidos, obtusos, pois a sugestão , vinda de outros, pode ter tido efeito para quem sugeriu mas não para quem ouviu a sugestão, pois, como foi dito, a sabedoria é particular, solitária, é uma porta que somente cada um descobre num caminho que até pode vir a ser o mesmo de muitos. Sugestões, no caso de onde encontrar a sabedoria, podem servir como atalhos, mas não sabemos se são até percorrer todo o atalho e achar a porta destinada a cada um.

Michel de Montaigne diz que o sábio é aquele que aprende a morrer, e aprender a morrer é ignorar a morte e vivê-la quando ela acontecer. Mas como não sabemos quando vamos morrer... talvez seja melhor se despreocupar com essa perspectiva.

A sabedoria provoca uma consciência que quase sempre traz o pessimismo.


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quinta-feira, dezembro 29, 2005

Back Home

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Traga me de volta , para aquela casa, de muitos dias atrás, que ainda hoje permanece sendo um embrião escuro cheio de esperanças pendentes e melancólicas prontas para serem reescritas.
Apenas tocar naquele chão tão fecundo, carente de sensações extravagantes e olhares enviesados de uma triste sabedoria que é o guia, e o perseguidor, das ilusões quase totalmente desfeitas pelo nó que as amarraram há algum tempo atrás,

Eu sempre corro longe antes de ter a chance de voltar, não sei, é a sensação de estar consertando algo sem conserto que vai poder mudar as coisas que virão e libertar os demônios travestidos de anjos-heróis que , na mais pura e singela sinceridade, querem aproveitar o tempo que perderam fazendo coisas que são de difícil aceitação (ou compreensão) fora de seu período, confundindo e atrapalhando as mais recentes descobertas que, enciumadas pela troca por essas libertadas, reagem de maneira descontrolada e criam outra batalha em uma guerra moral com grandes efeitos no local já quase devastado.


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Eu me sinto envergonhado por isso tudo, querer voltar e correr longe, poder voltar àquela casa , tão diferente que deve estar, e ter medo do que vai vir.

Mas eu gosto, eu minto para poder querer dizer o que digo , não percebo bem, mas é mais bonito.




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terça-feira, dezembro 27, 2005

Pausa para comentários bloguísticos

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102º post.
Passou da casa dos 100, não esperava.
Espero que se mantenha bem até completar um ano, lá em março. Como é tempo de férias, espero que tenha alguma viagem para ilustrar um pouco isso aqui.
O maior número de acessos foi quando eu fui viajar e coloquei relatos e fotos dos locais onde passei. Era um número risível, mas tava bom.


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sexta-feira, dezembro 23, 2005

Cortazarianas beatniks (4)

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Querer que tudo não se acerte para ter problemas e dúvidas legítimas para se pensar e buscar soluções diferentes, fora do convencional pensamento de que quando tudo está estável o caminho para a solução seria a desestabilidade legítima, genuinamente adquirida através não da estabilidade, obviamente, mas do desequilíbrio proporcionado através de uma situação que clame por romper as amarras firmes que perfazem a tênue linha divisória da perdição desencontrada do seu caminho com a estabilidade proporcionada por uma série de fatores que, por detalhes, não se torna o mesmo caminho da perdição; assim sendo, a linha, as dúvidas, os problemas, a estabilidade e o desequilíbrio, todos, são perpassados pela mesma linha imaginária que separa alguma coisa, será por Deus que separa?



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quarta-feira, dezembro 21, 2005

Embriagado

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Estranhamente, acordou embriagado. Abriu os olhos, resquícios de luz solar entravam por algumas frestas da cortina que ia e vinha com o vento fresco - esse mesmo vento que chegou até ele passando pelo lençol desalinhado sobre o corpo e provocou um arrepio, os pêlos do braço se eriçaram como se preparassem para um perigo iminente. Os pelos, o vento, o lençol, a cama, mas principalmente a cama que repousava pesada e sufocante nas costas, denunciavam o estado de embriaguez. Quando se deu conta, já estava de pé indo à cozinha tomar vários copos d'água, pois a boca árida clamava por líquido muito mais que a cama clamou pelo corpo embriagado e do que o vento pelos pêlos eriçados e do que os resquícios de luz solar por uma fresta na cortina.

Três copos d'água foram o suficiente, por momento. Voltou ao quarto com a cabeça clamando pela cama e por uma posição fixa, que ocasionasse um olhar fixo para a parede branca do teto ou a visão escura do travesseiro muito próximo dos olhos, quase que forçando a eles se fecharem.

Olhos no travesseiro, flashes do que teria ocorrido para ele estar embriagado lhe vieram, lentos e confusos, como se também eles estivessem embriagados, perplexos de sua existência ou não, de sua simples existência ou de uma mera ficção baseada em fatos ao que tudo indicavam serem reais.

O primeiro dos flashes era uma tentativa de lembrar de qual momento , precisamente, ele não lembrava mais com detalhes do que tinha feito.
O segundo foi perdido pelo sono, que clamou por sua atenção e levou, sem pestanejar muito.


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domingo, dezembro 18, 2005

Present Tense

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Você vê como aquelas árvores se curvam? Aquilo inspira?
Aprendendo a pegar os raios de sol...
Uma lição para ser aplicada
Você está tirando algo desta viagem onde todos estamos juntos?

Você pode passar seu tempo só,
Digerindo arrependimentos passados
Ou você pode vir até o limite e se dar conta
Que você é o único que pode se perdoar
Faz muito mais sentido viver no presente

Você tem idéia de como esta vida acaba?
Olhou suas mãos e estudou as linhas dela?
Você acredita que a estrada adiante
Conduz à iluminação?
Parece que, sem necessidade, está cada vez mais difícil
Achar um caminho e um jeito de se viver...
Você está tirando algo desta viagem onde todos estamos juntos?


Pearl Jam, Present Tense.

sexta-feira, dezembro 16, 2005

Petardo

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Um petardo quebrou a janela, invadiu o quarto rapidamente, alojou-se ao lado da cama enquanto um homem dormia. No outro dia, o petardo estava ali, perfeitamente instalado no quarto, até combinando com o carpete cinza-esverdeado. Mas mesmo assim não se fez perceber pelo homem que dormia na cama; esse, quando acordou, tropeçou no petardo e caiu de bruços perto da janela. Desmaiou.


Quando acordou, parecia que havia passado muito mais de duas horas que o sol indicava. Nesse tempo desmaiado, o homem entrou em transe: viajou, conheceu alguém, fez algo que não imaginava que fosse capaz, passou bons momentos ao lado da pessoa, foi feliz e então sofreu, fez mais coisas que não se imaginava sendo capaz, ficou perplexo, duvidava de tudo e de (quase) todos, preparou-se para o pior - a morte - mas com aquela esperança de que não fosse a sua hora, e assim se deu, não foi a sua hora, acordou, e o petardo tinha sumido, de alguma forma, mas o buraco na janela estivesse ali para provar que o petardo havia entrado sim. Embora achasse que estivesse sonhando desde o início, começou a cuidar cada passo que dava, evitando os petardos mas também, ao mesmo tempo, lá no fundo de sua vontade - daquela que nunca quer admitir que existe - começou a procurá-los, queria ter um encontro novamente para mostrar que um petardo pode bastar para se evitar outros.


Mas, como era de se esperar, encontrou outro petardo no caminho do banheiro, quando despreocupadamente caminhava, e a história se repetiu: o transe, os sentimentos e ações que pareciam de um sonho, inclusive o desejo de não querer e ao mesmo tempo querer encontrar um outro petardo para esclarecer que um petardo basta para se evitar outros.



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quarta-feira, dezembro 14, 2005

a duvida da certeza

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Primeira
Responsabilidades, travestidas de gritos de socorros inaudíveis mas perceptíveis a quem deve escutar;
estarei lá, ouvindo, ajudando quando possível e quando necessário, embora algumas vezes hesite por dúvida de estar ou não fazendo a coisa certa.
É algo sem convicção, é a resposta imediata ao socorro, e , como tal, não há tempo para maiores questionamentos do estar certo ou não, tudo é a primeira opinião, virgem e pusilânime, mas que precisa sair para ser mais elaborada e convicente - além de crescer como tal e tornar se a "mais certa" (?).

( Porque as pessoas insistem querer saber as respostas de tudo ? Porque elas não se contentam apenas com a dúvida ? Porque, a cada dia, certas pessoas precisam de uma confirmação que outras a amam para , assim, essas pessoas poderem viver na vã e ilusória comodidade que a "certeza" de uma resposta positiva traz? E porque o risco da dúvida não é aceito por quem tanto insiste em querer saber?)




Outras

* È a dúvida que explica o motivo da simples presença de uma pessoa trazer certos sentimentos estranhos que, levados para o aspecto físico, são como se alguém tivesse apertado um parafuso dentro do nosso peito, e que esse lugar que foi parafusado se torne tão frágil por alguns minutos, dias ou anos a ponto de a todo momento precisar de um novo aperto ?
Ou é a certeza?

* Será que essa parte frágil algum dia se tornará fixa, dura, resistente, inquebrável?

* Por que será que a certeza, em sua tão certeira e inquestionável resposta, mesmo assim não consegue aplacar a ira da dúvida, que sempre parece achar brechas nas muitas portas que a limitam?

Que dúvida cruel.

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terça-feira, dezembro 13, 2005

I'm so tired

Deitado em seu quarto, O Garoto olha pela janela, fixa o olhar e vê um feixe dourado em forma de estrela se estender infinitamente na horizontal, como uma grande Enterprise viajando na velocidade da luz. Acende um cigarro, se debate na cama, olha a foto ao seu lado, no bidê, fica perplexo; olha fixamente para a janela, divaga, sofre, pensa - muito - sofre.

Liga o som e escuta :
Beatles, i'm so tired.

I’m so tired, I haven’t slept a wink,
I’m so tired, my mind is on the blink.
I wonder should I get up and fix myself a drink.
No, no, no.

I’m so tired I don’t know what to do.
I’m so tired my mind is set on you.
I wonder should I call you but I know what you’d do.

You’d say I’m putting you on.
But it’s no joke, it’s doing me harm.
You know I can’t sleep, I can’t stop my brain
You know it’s three weeks, I’m going insane.
You know I’d give you everything I’ve got
For a little peace of mind.

I’m so tired, I’m feeling so upset
Although I’m so tired I’ll have another cigarette
And curse Sir Walter Raleigh.
He was such a stupid git.


Acha que uma música não pode dizer tanto num momento tão verdadeiramente certeiro.

sábado, dezembro 10, 2005

Notícia de uma peça

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CADERNO DE CULTURA, página C1:



'ENDEREÇOS' CHEGA EM SANTA MARIA

Polêmica peça do diretor José Henrique tem única apresentação hoje no Treze De Maio.


por Tony Laporta

"A luz se acende, O imenso palco está dividido em três níveis: Cada nível está dividido em linhas verticais. Dentro de cada linha acontecem, entre outras, as seguinte coisas: um homem nú espanca uma mulher nua com um chicote de sete tiras, em cujas pontas estão pedaços de metal; um velho sem dentes, numa velha cozinha,coloca com mãos trêmulas enormes pedaços de goiabada na boca, como se estivesse matando; um homem gordo, sentado numa privada, lê o Jornal do Brasil, levanta-se, vira as nádegas para a platéia e limpa o ânus laboriosamente com pedaços de jornal. Enquanto isso, no plano médio, simultaneamente, uma medalha é colocada no peito de um genreal, uma mitra na cabeça de um bispo, um bebê na mão da mãe do ano, uma caixa de ferramentas é ofertada ao operário, um protetor escrotal é colocado no atleta do ano... "


Assim um crítico de um jornal do centro do país descreveu o início da peça que estréia hoje em Santa Maria. Tentou descrever, pois a peça é indescritível, garante quem assitiu . " É um negócio complexo demais, escatológico demais, maluco mesmo, mas até que eu gostei " diz Fabrício Carvalho, estudante de artes cênicas que estava no Rio de janeiro quando a preça estreiou por lá.
'Endereços' faz parte de uma absurda trilogia chamada 'Guia dos Telefones' (as outras duas partes são Páginas marelas e Assinantes) que tenta mostrar toda a "potencialidade visual do guia telefônico".

Para tentar colocar no palco peça tão polêmica ninguém melhor que o jovem diretor José Henrique, que estreiou dirigindo a peça "Dias Felizes" , de Samuel Beckett, onde colocou dois personagens inteiramente nús - a mulher manchada de fezes e o homom de sangue. A seguir, uma entrevista rápida com o diretor:

Como foi que você decidiu enfrentar o grande desafio de encarar o Guia dos Telefones?
Não sei. Acho que cansei dos velhos textos doteatro do absurdo, da crueldade, da incomunicabilidade, etc. Sentia-me enclausurado num microsegmento do multicodalismo do conhecimento humano. No ano passado encontrei-me com Tynan em Londres e ele me disse "'o grande diretor de teatro ainda não nasceu"'. No avião vim pensando, Welles, Barault, Vilar, todos apenas hubris e nada mais.

Você resolveu dirigir o Guia dos Telefones para mostrar que é um grande diretor?
Eu não preciso mostrar a(...) nenhum que sou um grande diretor. Escolhi o Guia dos Telefones por ele ser uma peça (conjunto de informações sobre o mundo) da maior importância, constantemente renovado, postatual, onde o contexto predomina sobre o texto e a analogia sobre as relações de quantidade.

Guia dos Telefones é uma trilogia. E as outras duas, pretende fazer também?
As três peças deveriam ser representadas concomitantemente. Mas a comercialização do teatro nacional e a preguiça e a burrice e a alienação dos espectadores não permitem que a encenação de uma peça de seis horas de duração.

Santa Maria. Conhece a cidade, os gaúchos, o que espera do público?
Sim óbvio que conheço vocês, esperam que façam valer a fama de "mais intelectuais do Brasil" que tanto pregam e não fiquem enbasbacados ou chocados, que palavra ridícula mas enfim, porque é uma transubstanciaçaõ em forma de teatro, teatro livre, é a vida, pessoas morrem, nascem, copulam, roubam, cagam, enfim, vivem, e isso é Endereços.


Os ingressos estão à venda na bilheteria do Teatro. R$ 15,00 normal, R$ 12,00 sócios e R$ 10,00 estudantes. O espetáculo começa às 18:30.

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P.S: notícia baseada no conto Asteriscos, de Rubem Fonseca, do livro Lucia McCartney.

quinta-feira, dezembro 08, 2005

Revista de criticas (1)

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On the Road – Jack Kerouac

Um dos clássicos da Contracultura, desencadeador da rebeldia de muita gente, livro de ouro dos viajantes. Um chute nos bagos da felicidade inocente dos anos 50 pós-guerra, vilão do American way of life. A babá de uma geração vazia. Muitas expressões que talvez ajudem a definir o que é o livro On the Road - do escritor americano Jack Kerouac.

Lançado em 1957, me atrevo a dizer que é um dos livros do século XX que mais causam um “baque” nos leitores – principalmente em jovens dos 18 aos vinte e poucos anos. Mesmo no Brasil, em que primeira edição saiu em 1984, traduzida em conjunto pelo jornalista Eduardo Bueno e o escritor Antonio Bivar, ele inspirou músicas, pessoas, idéias, comportamentos, atitudes – trouxe um alento de que as coisas poderiam ser diferentes e muito mais interessantes também por aqui.

A história se passa no final dos anos 40 e início dos 50, nos Estados Unidos. Sal Paradise, o narrador (alter-ego do autor Jack Kerouac), e seu amigo , o louco anarquista vagabundo Dean Moriarty, viajam pelos Estados Unidos com pouco dinheiro e muita vontade de fazer algo que eles nem sabem o quê. No caminho, circulam pelos confins dos Estados Unidos inocentemente feliz e conservador do pós-guerra; encontram e fazem muitos amigos, passam dificuldades, bebem; fazem festas, visitam lugares esquecidos e conhecidos, ouvem muito jazz. Quase inconscientes pelo pusilânime mundo ao seu redor, vão em busca de experiências. As encontram travestidas de formas tão estranhas que quase não as reconhecem. Mas é isso mesmo? , perguntam. E é, é isso mesmo, mas como só agora vocês foram perceber ?

On the Road é precursor e inspirador. A busca de uma individualidade perdida , que parecia tão diluída entre os louros da camaradagem e do patriotismo da vitória na guerra, teve um quase fim (pois nunca terá um fim definitivo) nos clubes de jazz ao som do be-bop desordenado ou na marijuana trocada por lucky strikes no México na última das viagens do livro. A rebeldia, como forma de ser contra ao tradicional, de dar um soco na cara da mesmice e depois ser presa por isso, ganhou um corpo consistente nas palavras de Kerouac. E a literatura como forma de transcendência, aquela que pula das páginas para nosso corpo e mente e de lá sai correndo como um cadillac possante nos puxando para a vida, como que dizendo não, você é tão medroso, acorde, veja o que te espera, deve muito a On the Road.

Depois de quase 40 anos de espera, finalmente o livro vai virar filme, pelas mãos do diretor brasileiro Walter Salles, com a produção do mestre americano Francis Ford Coppola. Coisa boa está por vir.

A primeira versão do livro é de 1984, da editora Brasiliense. Recentemente saiu uma edição revisada com uma nova introdução e posfácio de Eduardo Bueno.

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p.s: o teclado nao esta colaborando com os acentos.

terça-feira, dezembro 06, 2005

Incertos conselhos

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De alguém diante do espelho, após uma noite sem graça, às 23:00.

_ Incerteza, cara amiga tão relutante em ser despertada, venha me salvar. Preciso da tua ajuda, da tua compreensão, da tua tão singela sabedoria de nunca saber a hora certa das coisas, mas de apenas sentir ,e isso bastar. Preciso que tu venhas e combata o teu algoz com duas letras a menos, preciso que tu digas para ele que , sim, ele é necessário, mas que ele não pode se apossar da vida de ninguém e ser o guia onipresente de todas as ações, como se nada sem ele possa existir. Venha mostrar para esse teu algoz - inimigo chato, cruel - que a tua forma de guiar é muito mais sabedora do caminho daquilo que alguém inventou chamar de felicidade - o que quase sempre se confunde com outra palavra chamada diversão, sendo , talvez, essa mais coerente e respeitável aos olhos famintos por facilidades que nós temos e insistimos em disfarçar para não sermos tachados de simplórios.

De uma psicóloga para seu cliente, rapaz de 23 anos com propensão a depressão ( embora não tenha tido nenhum ataque psicótico ainda )

_ Se o pudor é exagerado a ponto de impedir que a diversão busque seu espaço tão caro a todos nós, porque não mudá-lo, moldá-lo de acordo com os estímulos diversionais que a todo momento clamam por nossa atenção? Nós não somos bons por natureza, certas atitudes consideradas ruins são necessárias, talvez porque possamos pensar que elas são ruins para nós mas na verdade são apenas causadoras de uma "dor" que é necessária e indispensável para o crescimento, embora difícil é aceitarmos isso sem sofrimento.

De um professor de sociologia a um intelectual que recém se separou da mulher, com quem foi casado por 23 anos:

_ São princípios relutantes em serem aceitos, mas nunca impossíveis de serem transformados, já que, ao se saber do tão grave erro que se comete em não aderir a certos comportamentos comprovadamente mais eficazes na busca da diversão - que é, afinal o que todos queremos -, porque não abrir a gaveta trancada dos princípios adquiridos a muito custo e pouca escolha da infância e aceitar alguns novos? Ainda mais que, com esses novos, os antigos podem ser mudados e se tornarem ainda mais eficazes em suas tarefas e conscientes de sua função.


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sábado, dezembro 03, 2005

Seu Benevides

Historieta de um tempo atrás:

Seu benevides

Onde está meu cachorro?
Era só o que sabia dizer o homem, deitado na calçada à frente de seu prédio, com a cabeça vermelha de sangue.

Onde está meu cachorro, porra?

O guarda Benevides não sabia o que responder. Não sabia de cachorro nenhum, não sabia que homem era aquele, nem o que fazia ali na rua tarde da noite, muito menos o porquê da cabeça dele estar vermelha de sangue.

Onde está o cachorro, porra?

Não se cansava de repetir. O guarda Benevides estava ficando irritado; mandou o moço se acalmar que ele não tinha visto nenhum cachorro por ali. Iria chamar a ambulância, se o moço quisesse, para tratar de cabeça dele vermelha de sangue.

Não preciso de ambulância nenhuma, eu quero o meu cachorro guarda de merda!

Daí o guarda Benevides não agüentou: deu um chute na boca do estômago do moço, pum, que urrou de dor, mas depois ficou calado, e não se mexeu mais. O guarda mandou ele se acalmar , que não tinha cachorro nenhum por ali, e que era para o moço ficar quieto, se não ele mesmo o levaria a força para um hospital.

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O guarda Benevides, ou Seu Benevides, como o chamavam os grã-finos do bairro, era guarda-noturno há 10 anos. Nunca se incomodara nesse tempo. Trabalho fácil. Os marginais, por algum motivo que ele desconhecia e nem queria saber, passavam longe dos prédios dos grã-finos. E ele achava o máximo isso, se sentia poderoso. Os marginais tinham medo do Seu Benevides, era nisso que acreditava.

Uma vez tinha visto dois homens sentados na frente da calçada do prédio do Juca, o porteiro, que era seu primo. Notou de longe o naipe das figuras, e foi se aproximando aos pouquinhos, caminhando sem pressa. Botou a mão no bolso e apertou firme a calça jeans , como sempre fazia quando estava diante de um perigo iminente. Aproximou da calçada do prédio, tirou seu boné e abanou para as figuras sentadas, que não responderam. Benevides parou e repetiu o gesto. Dessa vez os homens olharam para ele, mas não fizeram nenhum sinal. Benevides, irritado, chegou mais perto, perguntou, educadamente, o que os dois faziam ali sentados àquela hora da noite. Nada de resposta. Então, pegou seu cacetete de aço de dentro do casaco e bateu nos dois, pum pum, duas pauladas, uma em cada cabeça, sem quase nenhum intervalo de tempo . Os dois caíram no chão, com suas cabeças em um vermelho cor de sangue. Benevides olhou para dentro do prédio para ver se Juca estaria por ali , mas não achou ninguém, e tratou de terminar o serviço. Deu mais dois chutes em cada um, na boca do estômago e nas costas, pum pum, rápido, sem intervalo, que nem aqueles ninjas de filme chinês. Com calma, pegou os corpos, um de cada vez, e tratou de embrulhá-los nos sacos de lixo que tinha em sua mochila. Carregou cada corpo até a casa abandonada da esquina, onde pacientemente terminou o serviço à luz de uma pequena fogueira, cortando-os em pedaços com uma serra e alimentando o seu cachorro Rex, velho já, que por sua vez estava tratando de uma enorme mordida no pescoço que levara uma semana antes. O cachorro estava deitado num canto escuro, em baixo de uma janela aberta, e quando Benevides chamou-o, Rex,Rex, vem cá, o cachorro pulou de alegria e lambeu a mão vermelha do seu dono, parecendo já recuperado do ferimento. Benevides mostrou os pedaços para Rex, que latiu baixinho de felicidade, e logo depois estava os dois, guarda e cachorro, sentados sob a luz da fogueira, um olhando o outro comer, os dois igualmente com uma alegria indescritível em seus rostos cansados.


Fazia dois anos que Rex se fora. Seu Benevides não foi trabalhar no fatídico dia, passou a noite chorando em casa. Depois que se recuperou, nunca mais encontrou outro cachorro decente. De vez em quando achava um na rua, perdido, levava para casa, treinava-o, mas logo depois eles iam embora, ingratos. No mês passado, tinha encontrado um igual ao Rex, mas igualzinho mesmo. Ficou intrigado porque Rex nunca teve filho, Benevides nunca deixou seu cachorro por aí para engravidar cachorrinhas interessadas no seu sêmen de campeão. Mas, de alguma forma, o cachorro era igualzinho a Rex, e só poderia ser filho dele, ou quem sabe pai, porque Rex morreu cedo, com 4 anos .

Observou o cachorro parecido com Rex por algumas semanas, conheceu seu dono, viu sua casa, seus hábitos, onde passeava, suas vizinhas. Descobriu então que o cachorro era irmão gêmeo de Rex. O dono namorava a moça loira que morava no prédio do Juca, seu primo, e todo dia que vinha visitar a namorada trazia o irmão do Rex junto. Uma semana atrás, tinha tido o primeiro contato com o bicho, numa esbarrada. O cachorro saiu correndo lépido pelo corredor do prédio e Benevides, que conversava com Juca, parou e fez uns carinhos no cão, que logo se acalmou e se fez de morto, para a alegria de Benevides que assim o acariciou com vigor, passando sua mão vermelha por todo o corpo tez do cachorro. Ali fez uma promessa: o cachorro ia ser seu, de qualquer maneira.

Arquitetou um plano que não poderia ter falhas, porque só teria uma chance, era matar ou morrer.

Não queria envolver seu primo Juca, mas era a única forma, não tinha muito tempo. Sabia que o irmão do Rex estava sendo cortejado pela cachorra do prédio vizinho. Já tinham até marcado um encontro para ver se os dois se dariam bem, e os donos aprovavam a união, torcendo para que dali saísse muitos cachorrinhos . Benevides pediu para Juca : quando o dono do irmão do Rex estiver saindo da casa da namorada, avisa que tem um moço que quer falar com ele na frente do prédio. Não deu mais detalhes , não precisava envolver demais as pessoas para uma coisa que iria ser só sua, unicamente sua . Juca fez o combinado. Benevides esperava ansioso na calçada, com a mão no bolso apertando ferozmente a calça jeans. Quando avistou o moço, tratou de se aproximar devagar, com cuidado para não apavorá-lo. Perguntou, educadamente, como era o nome do cachorro. Sabia que era Kuki , mas achou que era uma boa primeira pergunta. O homem respondeu , também educadamente, e Benevides se abaixou para fazer carinho no irmão do Rex. Enquanto fazia carinho, puxou seu cacetete de aço de dentro do casaco, devagar , e deu uma paulada na nuca do moço, que estava de costas para ele. Pum. O moço já caiu desmaiado no chão. Agora tinha que agir rápido. Pegou o cachorro no colo e saiu correndo em direção à casa abandonada da esquina. Ao redor de uma pequena fogueira, fez o bicho deitar, deu água, fez carinho até ele se acalmar e quase dormir, bocejando . Então saiu , voltou para o prédio. Viu o homem ali na frente, que ainda estava acordado, inexplicavelmente.

Onde está meu cachorro ?

Era só o que dizia o homem, deitado na calçada com a cabeça vermelha de sangue.

Onde está meu cachorro, porra?

Benevides não sabia o que responder. Tentou se acalmar. Disse que não tinha visto cachorro algum ali , que ia chamar uma ambulância , se o moço quisesse, para tratar da cabeça dele vermelha de sangue.

Não preciso de ambulância nenhuma, eu quero o meu cachorro guarda de merda!


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quinta-feira, dezembro 01, 2005

Indagações de um incompreendido

Ah, se as pessoas soubessem que a crítica, por mais arrogante que possa parecer, não é com a intenção de diminuir alguém ou algo, mas com a simples e singela intenção de ajudar a melhorar. O que pode estar errado é o ponto de vista defendido por quem critica, mas, acredito eu, na maioria das vezes que a crítica é veemente, teimosa, é porque quem a faz está muito certo de que aquilo é o melhor caminho, que a coragem de se expor ao criticar é uma forma de garantir a honestidade e a intenção de ajudar a melhorar o algo/alguém criticado.
Claro, posso estar completamente equivocado nisso.

Ah, seu eu aguento ouvir
outro não, quem sabe um talvez
ou um sim
eu mereço enfim

é que eu já sei de cor
qual o quê dos quais
e poréns, dos afins, pense bem
ou não pense assim


- Los Hermanos, Paquetá -