Historieta de um tempo atrás:
Seu benevides
Onde está meu cachorro?
Era só o que sabia dizer o homem, deitado na calçada à frente de seu prédio, com a cabeça vermelha de sangue.
Onde está meu cachorro, porra?
O guarda Benevides não sabia o que responder. Não sabia de cachorro nenhum, não sabia que homem era aquele, nem o que fazia ali na rua tarde da noite, muito menos o porquê da cabeça dele estar vermelha de sangue.
Onde está o cachorro, porra?
Não se cansava de repetir. O guarda Benevides estava ficando irritado; mandou o moço se acalmar que ele não tinha visto nenhum cachorro por ali. Iria chamar a ambulância, se o moço quisesse, para tratar de cabeça dele vermelha de sangue.
Não preciso de ambulância nenhuma, eu quero o meu cachorro guarda de merda!
Daí o guarda Benevides não agüentou: deu um chute na boca do estômago do moço, pum, que urrou de dor, mas depois ficou calado, e não se mexeu mais. O guarda mandou ele se acalmar , que não tinha cachorro nenhum por ali, e que era para o moço ficar quieto, se não ele mesmo o levaria a força para um hospital.
..
O guarda Benevides, ou Seu Benevides, como o chamavam os grã-finos do bairro, era guarda-noturno há 10 anos. Nunca se incomodara nesse tempo. Trabalho fácil. Os marginais, por algum motivo que ele desconhecia e nem queria saber, passavam longe dos prédios dos grã-finos. E ele achava o máximo isso, se sentia poderoso. Os marginais tinham medo do Seu Benevides, era nisso que acreditava.
Uma vez tinha visto dois homens sentados na frente da calçada do prédio do Juca, o porteiro, que era seu primo. Notou de longe o naipe das figuras, e foi se aproximando aos pouquinhos, caminhando sem pressa. Botou a mão no bolso e apertou firme a calça jeans , como sempre fazia quando estava diante de um perigo iminente. Aproximou da calçada do prédio, tirou seu boné e abanou para as figuras sentadas, que não responderam. Benevides parou e repetiu o gesto. Dessa vez os homens olharam para ele, mas não fizeram nenhum sinal. Benevides, irritado, chegou mais perto, perguntou, educadamente, o que os dois faziam ali sentados àquela hora da noite. Nada de resposta. Então, pegou seu cacetete de aço de dentro do casaco e bateu nos dois, pum pum, duas pauladas, uma em cada cabeça, sem quase nenhum intervalo de tempo . Os dois caíram no chão, com suas cabeças em um vermelho cor de sangue. Benevides olhou para dentro do prédio para ver se Juca estaria por ali , mas não achou ninguém, e tratou de terminar o serviço. Deu mais dois chutes em cada um, na boca do estômago e nas costas, pum pum, rápido, sem intervalo, que nem aqueles ninjas de filme chinês. Com calma, pegou os corpos, um de cada vez, e tratou de embrulhá-los nos sacos de lixo que tinha em sua mochila. Carregou cada corpo até a casa abandonada da esquina, onde pacientemente terminou o serviço à luz de uma pequena fogueira, cortando-os em pedaços com uma serra e alimentando o seu cachorro Rex, velho já, que por sua vez estava tratando de uma enorme mordida no pescoço que levara uma semana antes. O cachorro estava deitado num canto escuro, em baixo de uma janela aberta, e quando Benevides chamou-o, Rex,Rex, vem cá, o cachorro pulou de alegria e lambeu a mão vermelha do seu dono, parecendo já recuperado do ferimento. Benevides mostrou os pedaços para Rex, que latiu baixinho de felicidade, e logo depois estava os dois, guarda e cachorro, sentados sob a luz da fogueira, um olhando o outro comer, os dois igualmente com uma alegria indescritível em seus rostos cansados.
Fazia dois anos que Rex se fora. Seu Benevides não foi trabalhar no fatídico dia, passou a noite chorando em casa. Depois que se recuperou, nunca mais encontrou outro cachorro decente. De vez em quando achava um na rua, perdido, levava para casa, treinava-o, mas logo depois eles iam embora, ingratos. No mês passado, tinha encontrado um igual ao Rex, mas igualzinho mesmo. Ficou intrigado porque Rex nunca teve filho, Benevides nunca deixou seu cachorro por aí para engravidar cachorrinhas interessadas no seu sêmen de campeão. Mas, de alguma forma, o cachorro era igualzinho a Rex, e só poderia ser filho dele, ou quem sabe pai, porque Rex morreu cedo, com 4 anos .
Observou o cachorro parecido com Rex por algumas semanas, conheceu seu dono, viu sua casa, seus hábitos, onde passeava, suas vizinhas. Descobriu então que o cachorro era irmão gêmeo de Rex. O dono namorava a moça loira que morava no prédio do Juca, seu primo, e todo dia que vinha visitar a namorada trazia o irmão do Rex junto. Uma semana atrás, tinha tido o primeiro contato com o bicho, numa esbarrada. O cachorro saiu correndo lépido pelo corredor do prédio e Benevides, que conversava com Juca, parou e fez uns carinhos no cão, que logo se acalmou e se fez de morto, para a alegria de Benevides que assim o acariciou com vigor, passando sua mão vermelha por todo o corpo tez do cachorro. Ali fez uma promessa: o cachorro ia ser seu, de qualquer maneira.
Arquitetou um plano que não poderia ter falhas, porque só teria uma chance, era matar ou morrer.
Não queria envolver seu primo Juca, mas era a única forma, não tinha muito tempo. Sabia que o irmão do Rex estava sendo cortejado pela cachorra do prédio vizinho. Já tinham até marcado um encontro para ver se os dois se dariam bem, e os donos aprovavam a união, torcendo para que dali saísse muitos cachorrinhos . Benevides pediu para Juca : quando o dono do irmão do Rex estiver saindo da casa da namorada, avisa que tem um moço que quer falar com ele na frente do prédio. Não deu mais detalhes , não precisava envolver demais as pessoas para uma coisa que iria ser só sua, unicamente sua . Juca fez o combinado. Benevides esperava ansioso na calçada, com a mão no bolso apertando ferozmente a calça jeans. Quando avistou o moço, tratou de se aproximar devagar, com cuidado para não apavorá-lo. Perguntou, educadamente, como era o nome do cachorro. Sabia que era Kuki , mas achou que era uma boa primeira pergunta. O homem respondeu , também educadamente, e Benevides se abaixou para fazer carinho no irmão do Rex. Enquanto fazia carinho, puxou seu cacetete de aço de dentro do casaco, devagar , e deu uma paulada na nuca do moço, que estava de costas para ele. Pum. O moço já caiu desmaiado no chão. Agora tinha que agir rápido. Pegou o cachorro no colo e saiu correndo em direção à casa abandonada da esquina. Ao redor de uma pequena fogueira, fez o bicho deitar, deu água, fez carinho até ele se acalmar e quase dormir, bocejando . Então saiu , voltou para o prédio. Viu o homem ali na frente, que ainda estava acordado, inexplicavelmente.
Onde está meu cachorro ?
Era só o que dizia o homem, deitado na calçada com a cabeça vermelha de sangue.
Onde está meu cachorro, porra?
Benevides não sabia o que responder. Tentou se acalmar. Disse que não tinha visto cachorro algum ali , que ia chamar uma ambulância , se o moço quisesse, para tratar da cabeça dele vermelha de sangue.
Não preciso de ambulância nenhuma, eu quero o meu cachorro guarda de merda!
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sábado, dezembro 03, 2005
quinta-feira, dezembro 01, 2005
Indagações de um incompreendido
Ah, se as pessoas soubessem que a crítica, por mais arrogante que possa parecer, não é com a intenção de diminuir alguém ou algo, mas com a simples e singela intenção de ajudar a melhorar. O que pode estar errado é o ponto de vista defendido por quem critica, mas, acredito eu, na maioria das vezes que a crítica é veemente, teimosa, é porque quem a faz está muito certo de que aquilo é o melhor caminho, que a coragem de se expor ao criticar é uma forma de garantir a honestidade e a intenção de ajudar a melhorar o algo/alguém criticado.
Claro, posso estar completamente equivocado nisso.
Ah, seu eu aguento ouvir
outro não, quem sabe um talvez
ou um sim
eu mereço enfim
é que eu já sei de cor
qual o quê dos quais
e poréns, dos afins, pense bem
ou não pense assim
- Los Hermanos, Paquetá -
Claro, posso estar completamente equivocado nisso.
Ah, seu eu aguento ouvir
outro não, quem sabe um talvez
ou um sim
eu mereço enfim
é que eu já sei de cor
qual o quê dos quais
e poréns, dos afins, pense bem
ou não pense assim
- Los Hermanos, Paquetá -
quarta-feira, novembro 30, 2005
Espetáculo
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Algumas palavras sobre o show do Pearl Jam segunda, no gigantinho, em Porto Alegre. Da Zero Hora:
"Conta-se nos dedos de uma mão os shows de rock realizados em Porto Alegre tão arrebatadores e comoventes como este do Pearl Jam na segunda à noite, no Gigantinho. A competência, o carisma e empatia dos cinco amigos que sobre o palco parecem se entregar ao seu público com a mesma paixão e diversão dos tempos da efervescência grunge nos bares de Seattle, mais de 10 anos atrás, em combinação com a grande expectativa dos fãs, criou no ginásio um quase indescritível astral de celebração - que poderia ser ilustrado pela quantidade de gente chorando no acender das luzes."
Desabafo de um fã (eu):
"Acho que nunca fiquei tão emocionado quando na hora que eles tocaram "Alive"; minha banda predileta tocando, na minha frente, a minha música predileta, a que eu mais gostei e escutei até hoje, e ainda contando com o coro de 12.500 pessoas, a maioria abraçados, levantando a mão, pulando, chorando, gritando...
Catarse total."

Algumas palavras sobre o show do Pearl Jam segunda, no gigantinho, em Porto Alegre. Da Zero Hora:
"Conta-se nos dedos de uma mão os shows de rock realizados em Porto Alegre tão arrebatadores e comoventes como este do Pearl Jam na segunda à noite, no Gigantinho. A competência, o carisma e empatia dos cinco amigos que sobre o palco parecem se entregar ao seu público com a mesma paixão e diversão dos tempos da efervescência grunge nos bares de Seattle, mais de 10 anos atrás, em combinação com a grande expectativa dos fãs, criou no ginásio um quase indescritível astral de celebração - que poderia ser ilustrado pela quantidade de gente chorando no acender das luzes."
Desabafo de um fã (eu):
"Acho que nunca fiquei tão emocionado quando na hora que eles tocaram "Alive"; minha banda predileta tocando, na minha frente, a minha música predileta, a que eu mais gostei e escutei até hoje, e ainda contando com o coro de 12.500 pessoas, a maioria abraçados, levantando a mão, pulando, chorando, gritando...
Catarse total."
segunda-feira, novembro 28, 2005
Pearl Jam
Deixando a impessoalidade de lado:
Hoje vou realizar quase que um sonho de muito tempo: ver um show da minha banda preferida. A primeira que eu comprei um cd, a primeira que eu fui conhecer a fundo, a primeira que eu comprei uma camiseta, a primeira (e talvez única) que eu "torço", aquela que tem as letras as quais eu mais me "identifico" , a única que até das músicas ruins eu sou capaz de gostar, coisa e tal. Ainda de brinde virá uma outra banda na abertura que eu também curto bastante, Mudhoney.
P.S: Desculpem o sentimentalismo exacerbado, mas é a minha banda preferida, pô!
Hoje vou realizar quase que um sonho de muito tempo: ver um show da minha banda preferida. A primeira que eu comprei um cd, a primeira que eu fui conhecer a fundo, a primeira que eu comprei uma camiseta, a primeira (e talvez única) que eu "torço", aquela que tem as letras as quais eu mais me "identifico" , a única que até das músicas ruins eu sou capaz de gostar, coisa e tal. Ainda de brinde virá uma outra banda na abertura que eu também curto bastante, Mudhoney.
P.S: Desculpem o sentimentalismo exacerbado, mas é a minha banda preferida, pô!
sábado, novembro 26, 2005
Broken Hearts
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Micro conto (sem limite para o título, 50 palavras para o resto).
Diálogo de um casal que tinha tudo para dar certo, mas que ela não conseguiu gostar dele como ele gostava dela.
_...
_É assim mesmo, querido.
___________________________________________________________
"I don’t know why but I’m feeling so sad
I long to try something I never had"
Billie Holiday - Lover man
Micro conto (sem limite para o título, 50 palavras para o resto).
Diálogo de um casal que tinha tudo para dar certo, mas que ela não conseguiu gostar dele como ele gostava dela.
_...
_É assim mesmo, querido.
___________________________________________________________
"I don’t know why but I’m feeling so sad
I long to try something I never had"
Billie Holiday - Lover man
quarta-feira, novembro 23, 2005
Complexo de Cavalheirismo
Um texto interessante, de um "mal" da pós-modernidade.
O Complexo de Cavalheirismo
Certas pessoas, as que sofrem mais para "dar certo" em relacionamentos, sofrem de um mal cada vez mais comuns nos tempos modernos: o complexo de cavalheirismo. Com o advento da "paridade" de comportamento entre homens e mulheres no relacionamento, de uma igualdade que sempre deveria de ser assim mas que só agora, quebrada a barreira cultural que inferiozava as mulheres, é, muitos homens afetados pelo caótico pós-modernismo tentam tratar as mulheres da forma que eles acham que elas merecem, ou seja, a melhor possível.
Gostam de fazer coisas que até algumas décadas atrás eram tabus, como discutir o relacionamento, porque querem agradá-las da melhor maneira, esclarecer as dúvidas do relacionamento a fim dele ficar mais forte e durável.
Gostam de ser carinhosos com suas parceiras por necessitarem disso, claro, mas o individualismo de alguns anos atrás deu lugar a uma preocupação maior com o outro( a outra, no caso) e isso faz com que eles dêem carinho e atenção em dose dupla, por precisarem e por achar que as mulheres também precisam.
Mas toda essa preocupação, essa percepção de certa forma inédita do homem pós-moderno, não encontra respaldo no outro lado, o feminino. Por mais que a igualdade está definida e não mais têm volta (na verdade, isso sempre foi definido, mas só agora percebido), em certos aspectos a mulher moderna parece que sente "falta" de certos costumes das suas antepassadas recentes que eram muito cortejadas antes e muito servis a quem os cortejou depois. Elas não entendem quem quer "discutir a relação"; acham estranho algum homem querer saber como anda o tal relaciomento e questioná-lo na tentativa de o fazer mais forte, menos suscetível a objeções externas, e essa não-compreensão parece realçar a busca de costumes das antepassadas que ainda não eram consideradas "iguais". Então, buscam aquele que guarda certos traços dos homens daquela época, como por exemplo o entendimento do casal não se dar na discussão, mas na ação ou na falta dela.
O complexo de cavalheirismo, esse paradoxo de doença, se caracteriza por guardar alguns resquícios do homem que tinha a mulher como apenas "companheira para cuidar dos filhos", como o cortejamento antes da relação, e características do homem pós-moderno, como o respeito à igualdade dos sexos e a busca de uma melhor compreensão do outro lado. Só que, ao contrário de ser uma vantagem, o complexo de cavalheirismo, como o nome já diz, é um mal, uma doença, pois parece que no ponto em que o homem portador é conservador, a mulher é liberal, e no ponto que ele é liberal - como buscar o entendimento através de "discutir a relação" - ela é conservadora. Um desencontro certo.
Receitas para o portador do complexo de cavalheirismo são pouco confiáveis ainda, visto que é um mal do pós-modernismo que não teve tempo para o estudo detalhado. Mas algumas sugestões de cura causam bons resultados até, apesar de serem vistas por alguns como bastante polêmicas: tornar o homem portador menos cavalheiro, mais da ação do que das palavras, evitar o "discutir a relação" e passar para o "perceber a relação". Outra sugestão, ainda mais polêmica e difícil, é buscar as companheiras que guardam bastante pontos em comuns com suas antepassadas, as que ainda mantêm os costumes antigos e não gostam da tal modernização. Mas, na medida que o homem portador tem um certo nível de "inquietude intelectual" e não consegue pensar que está tratando uma mulher como um homem antigo, rude, cruel às vezes, se torna bastante difícil a cura por essa sugestão.
O que resta ao portador é se divertir enquanto a dita "alma gêmea", um fruto da pós-modernidade com a antiguidade clássica, não se apaixone verdadeiramente por ele, pois se isso acontece, tudo muda e se torna mais difícil de dar errado.
O Complexo de Cavalheirismo
Certas pessoas, as que sofrem mais para "dar certo" em relacionamentos, sofrem de um mal cada vez mais comuns nos tempos modernos: o complexo de cavalheirismo. Com o advento da "paridade" de comportamento entre homens e mulheres no relacionamento, de uma igualdade que sempre deveria de ser assim mas que só agora, quebrada a barreira cultural que inferiozava as mulheres, é, muitos homens afetados pelo caótico pós-modernismo tentam tratar as mulheres da forma que eles acham que elas merecem, ou seja, a melhor possível.
Gostam de fazer coisas que até algumas décadas atrás eram tabus, como discutir o relacionamento, porque querem agradá-las da melhor maneira, esclarecer as dúvidas do relacionamento a fim dele ficar mais forte e durável.
Gostam de ser carinhosos com suas parceiras por necessitarem disso, claro, mas o individualismo de alguns anos atrás deu lugar a uma preocupação maior com o outro( a outra, no caso) e isso faz com que eles dêem carinho e atenção em dose dupla, por precisarem e por achar que as mulheres também precisam.
Mas toda essa preocupação, essa percepção de certa forma inédita do homem pós-moderno, não encontra respaldo no outro lado, o feminino. Por mais que a igualdade está definida e não mais têm volta (na verdade, isso sempre foi definido, mas só agora percebido), em certos aspectos a mulher moderna parece que sente "falta" de certos costumes das suas antepassadas recentes que eram muito cortejadas antes e muito servis a quem os cortejou depois. Elas não entendem quem quer "discutir a relação"; acham estranho algum homem querer saber como anda o tal relaciomento e questioná-lo na tentativa de o fazer mais forte, menos suscetível a objeções externas, e essa não-compreensão parece realçar a busca de costumes das antepassadas que ainda não eram consideradas "iguais". Então, buscam aquele que guarda certos traços dos homens daquela época, como por exemplo o entendimento do casal não se dar na discussão, mas na ação ou na falta dela.
O complexo de cavalheirismo, esse paradoxo de doença, se caracteriza por guardar alguns resquícios do homem que tinha a mulher como apenas "companheira para cuidar dos filhos", como o cortejamento antes da relação, e características do homem pós-moderno, como o respeito à igualdade dos sexos e a busca de uma melhor compreensão do outro lado. Só que, ao contrário de ser uma vantagem, o complexo de cavalheirismo, como o nome já diz, é um mal, uma doença, pois parece que no ponto em que o homem portador é conservador, a mulher é liberal, e no ponto que ele é liberal - como buscar o entendimento através de "discutir a relação" - ela é conservadora. Um desencontro certo.
Receitas para o portador do complexo de cavalheirismo são pouco confiáveis ainda, visto que é um mal do pós-modernismo que não teve tempo para o estudo detalhado. Mas algumas sugestões de cura causam bons resultados até, apesar de serem vistas por alguns como bastante polêmicas: tornar o homem portador menos cavalheiro, mais da ação do que das palavras, evitar o "discutir a relação" e passar para o "perceber a relação". Outra sugestão, ainda mais polêmica e difícil, é buscar as companheiras que guardam bastante pontos em comuns com suas antepassadas, as que ainda mantêm os costumes antigos e não gostam da tal modernização. Mas, na medida que o homem portador tem um certo nível de "inquietude intelectual" e não consegue pensar que está tratando uma mulher como um homem antigo, rude, cruel às vezes, se torna bastante difícil a cura por essa sugestão.
O que resta ao portador é se divertir enquanto a dita "alma gêmea", um fruto da pós-modernidade com a antiguidade clássica, não se apaixone verdadeiramente por ele, pois se isso acontece, tudo muda e se torna mais difícil de dar errado.
terça-feira, novembro 22, 2005
Reportagem
Reportagem do primeiro semestre desse ano sobre o festival "Nossas Expressões", organizado pelo DCE da UFSM. Tentativa de enquadramento daquela velha história de Novo Jornalismo ( que de tão novo já ficou velho há muito tempo) que, na sua mais fácil definição, é aquele relato feito em primeira pessoa com recursos estilísticos "emprestados" da literatura.
Nossas Expressões: o tradicional festival cultural luta para se manter vivo sem se esquecer do passado
Segunda feira, 13 de junho, meio-dia e quatro. Depois de enfrentar longa fila, entrou no Restaurante Universitário, largou a pasta, lavou as mãos e foi comer. Galinha com molho, polenta,arroz, salada, e um mandolate de sobremesa. “Hoje a comida tá boa”, pensou, tentando se lembrar da última vez que tinha visto a polenta que tanto adorava no cardápio do R.U. Almoçou rápido até, em vinte minutos, pegou sua pasta, escovou os dentes no banheiro do prédio da união, e então se deu por conta: tinha uma tenda ali na frente. De lá, saía um som melodioso, imponente, certamente tocado por várias pessoas, já que não enxergava nada de onde estava. Procurou um lugar na multidão, avistou o “palco” – um tablado cinza em cima dos paralelepípedos. Músicos das mais variadas idades tocavam seus instrumentos: a menina de uns 12 anos segurava seu pequeno violino olhando com desconfiança para a platéia; o homem de cabelos brancos tocava e balançava seu violoncelo, quase dançando; a menina da percussão, de uns 20 anos, olhava constrangida para a esquerda da orquestra onde seu pai tirava fotos, orgulhoso da apresentação da filha. Não era tão estranho ter música ao vivo na frente da União, mas a curiosidade lhe fez perguntar para o que estava ao seu lado:
_ Tche, o que é isso?
_ É um festival, Nossas Expressões parece. Esse pessoal aí é a Orquestra Jovem de Santa Maria, pelo que falaram.
Nossas Expressões. Um dos festivais mais importantes do estado nos anos 80, sinônimo de música boa e variada, expressão de rebeldia dos estudantes na época da ditadura militar, cultura alternativa feita, organizada e divulgada por estudantes. Em sua 16 º edição, o Nossas Expressões de hoje guarda duas características dos antigos festivais: quem organiza ainda é o DCE (Diretório Central dos Estudantes da UFSM), e quem ministra as oficinas ainda são os estudantes da UFSM. E só. Para as pessoas que viveram o Nossas Expressões dos anos 80 e do início dos anos 90, o festival de hoje passa longe do furdunço que era naquela época. “O pessoal fazia cartazes enormes,bonitos, divulgava por toda a cidade e o estádio do Inter-Sm, onde por alguns anos aconteceu o festival, sempre estava cheio”, conta Marta Marchesan, estudante naquela época, hoje coordenadora geral da TV Campus.
Criado em 1983 como um festival de bandas, o Nossas Expressões mais tarde incorporou outras atividades culturais em sua programação, como oficinas de teatro e exposições de trabalhos dos estudantes.
“Lembro de tocar com numa das edições que foi realizada no estádio do Inter-Sm. Os shows atrasavam bastante, mas o pessoal ,com chuva e tudo, não arredava o pé”, conta o funcionário do departamento de música, Luis Martins.
Em uma época em que se sabia com clareza quem era o “inimigo” , os estudantes aproveitavam qualquer junção para protestar contra a ditadura e a censura, o que acabava se tornando um incentivo a mais para que eles participassem de eventos desse tipo. Algo que, hoje, não acontece mais. Sendo ligado ao movimento estudantil, um festival do tipo do Nossas Expressões pode servir de “termômetro” da ação dos estudantes. Quando o movimento estudantil era forte, o festival era forte. E o Nossas Expressões foi forte até o início dos anos 90. Depois parou. Hoje, há uma tentativa de retomada das duas partes, do movimento estudantil e do festival. Mas agora não é mais só o contexto político que influencia a participação ou não no festival.Há de se considerar que a opção de lazer e de entretenimento dos estudantes hoje é muito maior. “Hoje a gurizada só quer saber de computador, internet, videogame”, diz Luis Martins. Os estudantes saem do RU, dão uma olhada nas atrações musicais, passam pelas bancas de artesanato e vão para a aula. Não participam mais. São poucos os que ficam em todos os shows, participam das oficinas, assistem as peças de teatro, os filmes. È nítido o empenho dos organizadores, mas também é nítido o desinteresse dos estudantes.Mas não há de se culpar alguém, nem de se lamentar : o contexto é outro, mas o festival continua (tentando) ser o mesmo. Aí que está o problema.
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Nossas Expressões: o tradicional festival cultural luta para se manter vivo sem se esquecer do passado
Segunda feira, 13 de junho, meio-dia e quatro. Depois de enfrentar longa fila, entrou no Restaurante Universitário, largou a pasta, lavou as mãos e foi comer. Galinha com molho, polenta,arroz, salada, e um mandolate de sobremesa. “Hoje a comida tá boa”, pensou, tentando se lembrar da última vez que tinha visto a polenta que tanto adorava no cardápio do R.U. Almoçou rápido até, em vinte minutos, pegou sua pasta, escovou os dentes no banheiro do prédio da união, e então se deu por conta: tinha uma tenda ali na frente. De lá, saía um som melodioso, imponente, certamente tocado por várias pessoas, já que não enxergava nada de onde estava. Procurou um lugar na multidão, avistou o “palco” – um tablado cinza em cima dos paralelepípedos. Músicos das mais variadas idades tocavam seus instrumentos: a menina de uns 12 anos segurava seu pequeno violino olhando com desconfiança para a platéia; o homem de cabelos brancos tocava e balançava seu violoncelo, quase dançando; a menina da percussão, de uns 20 anos, olhava constrangida para a esquerda da orquestra onde seu pai tirava fotos, orgulhoso da apresentação da filha. Não era tão estranho ter música ao vivo na frente da União, mas a curiosidade lhe fez perguntar para o que estava ao seu lado:
_ Tche, o que é isso?
_ É um festival, Nossas Expressões parece. Esse pessoal aí é a Orquestra Jovem de Santa Maria, pelo que falaram.
Nossas Expressões. Um dos festivais mais importantes do estado nos anos 80, sinônimo de música boa e variada, expressão de rebeldia dos estudantes na época da ditadura militar, cultura alternativa feita, organizada e divulgada por estudantes. Em sua 16 º edição, o Nossas Expressões de hoje guarda duas características dos antigos festivais: quem organiza ainda é o DCE (Diretório Central dos Estudantes da UFSM), e quem ministra as oficinas ainda são os estudantes da UFSM. E só. Para as pessoas que viveram o Nossas Expressões dos anos 80 e do início dos anos 90, o festival de hoje passa longe do furdunço que era naquela época. “O pessoal fazia cartazes enormes,bonitos, divulgava por toda a cidade e o estádio do Inter-Sm, onde por alguns anos aconteceu o festival, sempre estava cheio”, conta Marta Marchesan, estudante naquela época, hoje coordenadora geral da TV Campus.
Criado em 1983 como um festival de bandas, o Nossas Expressões mais tarde incorporou outras atividades culturais em sua programação, como oficinas de teatro e exposições de trabalhos dos estudantes.
“Lembro de tocar com numa das edições que foi realizada no estádio do Inter-Sm. Os shows atrasavam bastante, mas o pessoal ,com chuva e tudo, não arredava o pé”, conta o funcionário do departamento de música, Luis Martins.
Em uma época em que se sabia com clareza quem era o “inimigo” , os estudantes aproveitavam qualquer junção para protestar contra a ditadura e a censura, o que acabava se tornando um incentivo a mais para que eles participassem de eventos desse tipo. Algo que, hoje, não acontece mais. Sendo ligado ao movimento estudantil, um festival do tipo do Nossas Expressões pode servir de “termômetro” da ação dos estudantes. Quando o movimento estudantil era forte, o festival era forte. E o Nossas Expressões foi forte até o início dos anos 90. Depois parou. Hoje, há uma tentativa de retomada das duas partes, do movimento estudantil e do festival. Mas agora não é mais só o contexto político que influencia a participação ou não no festival.Há de se considerar que a opção de lazer e de entretenimento dos estudantes hoje é muito maior. “Hoje a gurizada só quer saber de computador, internet, videogame”, diz Luis Martins. Os estudantes saem do RU, dão uma olhada nas atrações musicais, passam pelas bancas de artesanato e vão para a aula. Não participam mais. São poucos os que ficam em todos os shows, participam das oficinas, assistem as peças de teatro, os filmes. È nítido o empenho dos organizadores, mas também é nítido o desinteresse dos estudantes.Mas não há de se culpar alguém, nem de se lamentar : o contexto é outro, mas o festival continua (tentando) ser o mesmo. Aí que está o problema.
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domingo, novembro 20, 2005
Futebol, indignação, perplexidade, surpresa
_
O futebol, em sua magia que desperta as mais variadas formas de um único sentimento chamado paixão, não é o esporte mais popular do mundo por acaso. É especial, uma junção de pessoas desconhecidas entre si mas que , nesse mundo à parte feito por gente de coração forte, se torna unida umbilicalmente, tão suscetíveis a sentimentos fortes que quando são tocados em seu íntimo por um gol, explodem, gritam, pulam, saem de si em instantes que o tempo para e só volta a andar quando todo esse êxtase é diluído em doses homeopáticas de realidade extra-campo, de uma vida real que o futebol insiste em não querer fazer parte para poder, assim, fazer o que bem entender com a sua vida.
_
Desabafo de um colorado (eu)
A cada dia me impressiono com o alcance de um esporte na vida das pessoas. Hoje, depois de ver meu time ser roubado, não consigo não pensar, ver, escutar, ler sobre o jogo, e quando vejo que a minha indignação encontra solidariedade na de tantas pessoas que nem torcem pro meu time, mais indignado fico, e mais difícil fica deixar de ver/ler/escutar algo sobre o jogo. E o pior é que parece que não cansa...
O futebol, em sua magia que desperta as mais variadas formas de um único sentimento chamado paixão, não é o esporte mais popular do mundo por acaso. É especial, uma junção de pessoas desconhecidas entre si mas que , nesse mundo à parte feito por gente de coração forte, se torna unida umbilicalmente, tão suscetíveis a sentimentos fortes que quando são tocados em seu íntimo por um gol, explodem, gritam, pulam, saem de si em instantes que o tempo para e só volta a andar quando todo esse êxtase é diluído em doses homeopáticas de realidade extra-campo, de uma vida real que o futebol insiste em não querer fazer parte para poder, assim, fazer o que bem entender com a sua vida.
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Desabafo de um colorado (eu)
A cada dia me impressiono com o alcance de um esporte na vida das pessoas. Hoje, depois de ver meu time ser roubado, não consigo não pensar, ver, escutar, ler sobre o jogo, e quando vejo que a minha indignação encontra solidariedade na de tantas pessoas que nem torcem pro meu time, mais indignado fico, e mais difícil fica deixar de ver/ler/escutar algo sobre o jogo. E o pior é que parece que não cansa...
sábado, novembro 19, 2005
devaneios (3)
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Entre inúmeras chances de desfazer o tão sonhado caminho do destino, resolvi esquecer tudo, seguir por uma outra estrada. Uma involução ou uma evolução ? Não sei, apesar da forte suspeita de que seja nem uma nem outra, e muito menos aquela que esclarecerá a minha dúvida. Penso que algum destino me servirá de chão para novos vôos em busca de um outro, mas, enfim, dessas coisas ninguém sabe, por mais que possa se pensar que temos plenas condições de saber. Melhor opção? Vou ser um utópico construtor da minha própria utopia, se conseguir sobreviver ao hercúleo trabalho.
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Das frases bonitas sem fundamento:
O amargo do amor é a felicidade dos desgraçados
Entre inúmeras chances de desfazer o tão sonhado caminho do destino, resolvi esquecer tudo, seguir por uma outra estrada. Uma involução ou uma evolução ? Não sei, apesar da forte suspeita de que seja nem uma nem outra, e muito menos aquela que esclarecerá a minha dúvida. Penso que algum destino me servirá de chão para novos vôos em busca de um outro, mas, enfim, dessas coisas ninguém sabe, por mais que possa se pensar que temos plenas condições de saber. Melhor opção? Vou ser um utópico construtor da minha própria utopia, se conseguir sobreviver ao hercúleo trabalho.
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Das frases bonitas sem fundamento:
O amargo do amor é a felicidade dos desgraçados
quinta-feira, novembro 17, 2005
Rayuela
Rayuela, do mestre argentino Julio Cortázar. Trecho do capítulo 72, o primeiro, se for seguido a ordem que ele nos indica no início.
"Si, pero quién nos curará del fuego surdo,del fuego sin color que corre al anochecer pela rue de la Huchette, saliendo de los portales carcomidos, de los parvos zaguanes, del fuego sin imagen que lame las piedras y acecha en los vanos de las puertas, cómo haremos para lavarnos de su queimadura dulce que prosigue, que se aposenta para durar aliada al tiempo y al recuerdo, a las sustancias pegajoas que retienem de este lado, y que nos arderá dulcimente hasta calcinarmos.(...) Ardiendo así sin trégua,, soportando la quemadura central que avanza como la madurez paulatina en el fruto, ser el pulso de una hoguera en esta maraña de piedra interminable, caminar por las noches de nuestra vida com la obediencia de la sangre en su circuito ciego".
"Si, pero quién nos curará del fuego surdo,del fuego sin color que corre al anochecer pela rue de la Huchette, saliendo de los portales carcomidos, de los parvos zaguanes, del fuego sin imagen que lame las piedras y acecha en los vanos de las puertas, cómo haremos para lavarnos de su queimadura dulce que prosigue, que se aposenta para durar aliada al tiempo y al recuerdo, a las sustancias pegajoas que retienem de este lado, y que nos arderá dulcimente hasta calcinarmos.(...) Ardiendo así sin trégua,, soportando la quemadura central que avanza como la madurez paulatina en el fruto, ser el pulso de una hoguera en esta maraña de piedra interminable, caminar por las noches de nuestra vida com la obediencia de la sangre en su circuito ciego".
terça-feira, novembro 15, 2005
O guardião da sinceridade à serviço dos escravos da verdade
"Nosso amor é tão bonito. Você finge que me ama e eu finjo que acredito."
Nelson Sargento
Sim, realmente é complicado quando se tem pudor demais.
Quando há alguma "forçada de barra", por mais sútil que ela seja, há aquele constrangimento interior que chama consigo o pudor, o medo de se fazer coisas que poderiam até serem encaradas como normais diante de determinada situação, mas que só podem ser consideradas normais se haver uma "mentira" nelas - eu minto e tu acredita, funciona assim. Mas a sinceridade não consegue aceitar que a mentira seja o mais importante pré-requisito de uma situação, por isso ela cria o pudor: uma forma de barreira para a situação mentirosa não passar. É difícil para todo mundo viver numa mentira, mas para determinadas pessoas isso é mais difícil ainda, a ponto delas não admitirem , nunca, a mentira como pré-requisito para se vivenciar certas experiências - e situações que a mentira faz esse papel são bastante normais.
Claro, perde-se com isso. Muitas situações mentirosas são extremamente prazerosas. Outras, começam com uma mentira e se tornam belas verdades. Mas para quem tem o pudor excessivo, ou sinceridade demais, ou são escravos da verdade, não há como aceitar isso, é algo que vem de criança, da educação que nos é dada, de todo um contexto que já deixou suas marcas profundas, que não mais pode voltar atrás.
Há um constrangimento que puxa para fora da situação mentirosa, um alerta, um bip dizendo "isso é uma mentira, não seja ridículo, largue disso", e se não se obedece ao alerta fica-se , a todo tempo, incomodado com a situação, não se aproveita como talvez fosse o devido - a não ser, claro, que algumas substâncias façam com que essa distinção seja imperceptível.
Por isso é tão difícil fingir, por isso o pudor é requisitado a toda hora que a sinceridade percebe uma mentira, por isso o constrangimento até excessivo diante de certas situações a ponto de outros não conseguirem compreender e ficarem chateados com algo que consideram como "caretice" até.
Mais fácil mudar ou mascarar as próprias verdades do que se fazer acreditar em mentiras reconhecidas como tal.
Nelson Sargento
Sim, realmente é complicado quando se tem pudor demais.
Quando há alguma "forçada de barra", por mais sútil que ela seja, há aquele constrangimento interior que chama consigo o pudor, o medo de se fazer coisas que poderiam até serem encaradas como normais diante de determinada situação, mas que só podem ser consideradas normais se haver uma "mentira" nelas - eu minto e tu acredita, funciona assim. Mas a sinceridade não consegue aceitar que a mentira seja o mais importante pré-requisito de uma situação, por isso ela cria o pudor: uma forma de barreira para a situação mentirosa não passar. É difícil para todo mundo viver numa mentira, mas para determinadas pessoas isso é mais difícil ainda, a ponto delas não admitirem , nunca, a mentira como pré-requisito para se vivenciar certas experiências - e situações que a mentira faz esse papel são bastante normais.
Claro, perde-se com isso. Muitas situações mentirosas são extremamente prazerosas. Outras, começam com uma mentira e se tornam belas verdades. Mas para quem tem o pudor excessivo, ou sinceridade demais, ou são escravos da verdade, não há como aceitar isso, é algo que vem de criança, da educação que nos é dada, de todo um contexto que já deixou suas marcas profundas, que não mais pode voltar atrás.
Há um constrangimento que puxa para fora da situação mentirosa, um alerta, um bip dizendo "isso é uma mentira, não seja ridículo, largue disso", e se não se obedece ao alerta fica-se , a todo tempo, incomodado com a situação, não se aproveita como talvez fosse o devido - a não ser, claro, que algumas substâncias façam com que essa distinção seja imperceptível.
Por isso é tão difícil fingir, por isso o pudor é requisitado a toda hora que a sinceridade percebe uma mentira, por isso o constrangimento até excessivo diante de certas situações a ponto de outros não conseguirem compreender e ficarem chateados com algo que consideram como "caretice" até.
Mais fácil mudar ou mascarar as próprias verdades do que se fazer acreditar em mentiras reconhecidas como tal.
segunda-feira, novembro 14, 2005
A volta
Voltei. Cansei de "alternativos" que se vestem de "alternativos", agem como "alternativos", tudo modestamente falso, ou "fake" como eles dizem. Vestem-se de "alternativos"; colocam a roupinha "sou diferente", gosto de coisas diferentes só para poderem dizer aos outros,e também porque está incluído na fantasia que retiram todo dia na loja da frente de casa.
ÔÔ cambada de gente falsa!
Mas experiências e mais experiências, nem todas são boas, nem todas são ruins. Mas dessa vez muitas foram ruins. Pelo menos, de forma parecida ou igual é que não vão ser mais, e isso vale alguma coisa, poupa esforços e pensamentos depois.
ÔÔ cambada de gente falsa!
Mas experiências e mais experiências, nem todas são boas, nem todas são ruins. Mas dessa vez muitas foram ruins. Pelo menos, de forma parecida ou igual é que não vão ser mais, e isso vale alguma coisa, poupa esforços e pensamentos depois.
sexta-feira, novembro 11, 2005
Uma boa viagem!
"Através da ponte sobre o rio estarão as flores do auto conhecimento, e quanto mais difícil for a travessia mais as flores estarão amadurecidas, mas tem de se ter o cuidado de não fazer com que elas amadureçam demais e murchem - uma longa travessia cheia dos dissabores podem causar isso; se , por um acaso, se cair no rio, mais difícil ainda será a volta, embora como toda boa volta consciente, será melhor aproveitada e encontrará as flores mais rapidamente, pois elas sempre estão a espera de quem as necessita. A dor que não é fingida sempre tem as suas consequências benéficas..."
Estou indo fazer uma breve viagem, acampar. Por isso:
Uma boa viagem ao conhecido imprevisível recheado de grande potencial de situações extraordinárias!
Estou indo fazer uma breve viagem, acampar. Por isso:
Uma boa viagem ao conhecido imprevisível recheado de grande potencial de situações extraordinárias!
quinta-feira, novembro 10, 2005
Situações extraordinárias
Situações extraordinárias e suas fantasias de surpresas - tão convicencentes como aquele tipo de ator que obecede a decisão do diretor de "não incorpore o personagem, simplesmente seja" - são tão indicativas de cisão de alguma coisa dentro de si que não se consegue perceber , ao menos no momento, o que realmente será diferente e onde está a ruptura, essa cisão que parece que só é sentida, mas não localizada. As piores transformações são decorrentes de outros fatores, mas as melhores vêm dessa cisão invisível e, portanto, aparente, embora que escrevendo isso me venha agora uma dúvida : o que é apenas sentido é aparente?
Fico na dúvida toda vez que acontece esse tipo de situação. Embora não seja mais tão extraordinário que situações extraordinárias aconteçam comigo, ainda assim , e que bom que é assim, me surpreendo. Mas em alguns momentos, consigo pensar do tão extraordinário que é aquela situação, e o fato de eu pensar nisso me põe em dúvida se realmente essa vai ser mesmo tão extraordinária daquelas dignas de uma cisão invisível, pois se me dou conta disso, ela não pode ser assim tão extraordinária. Mas acontece que não me dou conta disso em todo o momento; não conseguiria, e , por causa disso, é que há a possibilidade dessa situação estar sendo extraordinária. É como um transe; há a preparação anterior para o transe, que é consciente da situação de preparação mas inconsciente do que para quê está sendo preparada, e há o transe, que , como a preparação, é consciente da situação de transe que está, mas não sabe que tipo de transe é nem no que ele vai levar. As situações extraordinárias são assim, eu ,no início, sei que estou me preparando para ela ( posso estar me preparando para nada, mas enfim, essa certeza se adquire com o treino) e depois, quando entro nela, nem percebo que tipo de situação ela é, se é normal como qualquer outra ou pertence a nobre classe das extraordinárias, e nem no que essa situação vai me colocar, que consequência ela me trará, e que cisão invisível ela provocará, se é que provocará. Mas, enfim, nunca perceberei mesmo, e aí está o combustível que preciso para que outras dessas situações venham pela frente.
Fico na dúvida toda vez que acontece esse tipo de situação. Embora não seja mais tão extraordinário que situações extraordinárias aconteçam comigo, ainda assim , e que bom que é assim, me surpreendo. Mas em alguns momentos, consigo pensar do tão extraordinário que é aquela situação, e o fato de eu pensar nisso me põe em dúvida se realmente essa vai ser mesmo tão extraordinária daquelas dignas de uma cisão invisível, pois se me dou conta disso, ela não pode ser assim tão extraordinária. Mas acontece que não me dou conta disso em todo o momento; não conseguiria, e , por causa disso, é que há a possibilidade dessa situação estar sendo extraordinária. É como um transe; há a preparação anterior para o transe, que é consciente da situação de preparação mas inconsciente do que para quê está sendo preparada, e há o transe, que , como a preparação, é consciente da situação de transe que está, mas não sabe que tipo de transe é nem no que ele vai levar. As situações extraordinárias são assim, eu ,no início, sei que estou me preparando para ela ( posso estar me preparando para nada, mas enfim, essa certeza se adquire com o treino) e depois, quando entro nela, nem percebo que tipo de situação ela é, se é normal como qualquer outra ou pertence a nobre classe das extraordinárias, e nem no que essa situação vai me colocar, que consequência ela me trará, e que cisão invisível ela provocará, se é que provocará. Mas, enfim, nunca perceberei mesmo, e aí está o combustível que preciso para que outras dessas situações venham pela frente.
quarta-feira, novembro 09, 2005
Borges (2)
Outro trecho interessantíssimo:
"Vou procurar, então, recordar um conto meu. Enquanto me traziam para cá, fiquei pensando em um conto meu, não sei se vocês leram, e que se chama “El Zahir”. Vou lembrar como cheguei à concepção desse “conto”.
Não recordo a data em que o escrevi, sei apenas que era diretor da Biblioteca Nacional, que fica no sul de Buenos Aires, perto da igreja de La Concepción. Conheço bem esse bairro. Meu ponto de partida foi uma palavra, uma palavra que usamos quase todos os dias sem nos dar conta do mistério que nela há, exceto que todas as palavras são misteriosas. Pensei na palavra inesquecível. Unforgettable, em inglês. Detive-me, não sei por que, já que havia ouvido essa palavra milhares de vezes, quase não passava um dia sem que a ouvisse. Pensei: que coisa extraordinária seria se houvesse algo de que realmente não pudéssemos nos esquecer? Que fantástico seria se houvesse, no que chamamos realidade, uma coisa, um objeto, por que não?, que fosse realmente inesquecível!
Este foi meu ponto de partida, bastante abstrato e pobre: pensar no possível sentido dessa palavra ouvida, lida, literalmente inesquecível, unforgettable, unvergesslich, inouviable. Foi um consideração bastante pobre, como vocês podem ver.
Depois, pensei que se existe algo inesquecível, deve ser algo comum, já que se tivéssemos uma Quimera, por exemplo, um monstro de três cabeças, uma cabeça, se não me engano, de cobra, outra de serpente, outra de cão, não tenho certeza, certamente recordaríamos isto. De modo que não haveria graça nenhuma num conto com um minotauro, uma quimera, um unicórnio inesquecíveis. Não, teria que ser alguma coisa bem comum. Ao pensar nessa coisa comum, pensei imediatamente numa moeda, já que são cunhadas milhares e milhares de moedas absolutamente iguais. Todas com a efígie da liberdade ou um escudo, ou com certas palavras convencionais. Que coisa extraordinária seria se houvesse uma moeda, uma moeda perdida entre esses milhões de moedas, que fosse inesquecível. Pensei, assim, numa moeda que já saiu de circulação, uma moeda de vinte centavos, uma moeda igual às outras, igual à moeda de cinco ou à de dez centavos, um pouco maior. Que coisa extraordinária seria se, entre os milhões, literalmente, de moedas cunhadas pelo Estado, houvesse uma que fosse inesquecível. Daí surgiu-me uma idéia: uma inesquecível moeda de vinte centavos. Não sei se elas ainda existem, se os numismáticos as colecionam, se elas têm algum valor, mas, enfim, não pensei nisso naquele instante. Pensei numa moeda que, para os objetivos do meu conto, teria de ser inesquecível. Isto é, uma pessoa que a visse não poderia mais pensar em outra coisa.
Depois, encontrei-me diante da segunda ou terceira dificuldade. Perdi a conta das dificuldades. Por que essa moeda viria a ser inesquecível? O leitor não aceitaria tal idéia. Eu tinha de preparar o inesquecível da minha moeda, e para tanto convinha supor um estado emocional em que ele a via, tinha de insinuar a loucura, já que o tema de meu conto é um tema que se parece com a loucura ou a obsessão. Pensei, como pensou Edgar Allan Poe quando escreveu seu merecidamente famoso poema “O corvo”, na morte de uma mulher bonita. Poe se perguntou a quem poderia impressionar a morte dessa mulher bonita e deduziu que tinha de impressionar a alguém que estivesse apaixonado por ela. Daí cheguei a idéia de uma mulher, por quem, no conto, estou apaixonado, e que morre, o que me deixa desesperado. Neste ponto, teria sido fácil, talvez fácil demais, que essa mulher fosse como a perdida Leonor, de Poe. Mas, não. Decidi mostrar essa mulher de um modo satírico, mostrar o amor de quem não esquecerá a moeda de vinte centavos como um pouco ridículo. Todos os amores o são para quem os vê de fora. Assim, ao invés de falar da beleza do love splendor, converti-a numa mulher bastante trivial, um pouco ridícula, nem feia nem muito linda. Imaginei uma situação que ocorre com freqüência: um homem é apaixonado por uma mulher, não pode viver sem ela, mas, ao mesmo tempo, sabe que essa mulher não é especialmente recomendável, digamos, para sua mãe, para suas primas, para a camareira, para a costureira, para as amigas. No entanto, para ele, esse mulher é única.
Isto me levou a uma outra idéia: a de que talvez toda pessoa seja única e que nós não vemos o extraordinário que fala a favor dessa pessoa. Às vezes, penso que isto se dá em tudo. Senão, fixemo-nos no fato de que na natureza ou em Deus, Deus sive Natura, como dizia Spinoza, o importante é a quantidade e não a qualidade. Por que não supor, então, que haja algo singular em cada formiga e que por isso Deus, ou a natureza, cria milhões de formigas. O que é falso. Não há milhões de formigas, há milhões de seres diferentes, mas a diferença é tão sutil que nós as vemos como iguais.
O que é, pois, estar apaixonado? Estar apaixonado é perceber o que há de extraordinário em cada pessoa, singularidade essa que não pode ser comunicada a não ser por meio de hipérboles ou de metáforas. Então, por que não imaginar que essa mulher, um pouco ridícula para todos, pouco ridícula para quem está apaixonado por ela, que essa mulher morra. Depois, temos o velório. Escolhi o lugar do velório, escolhi a esquina, pensei na igreja da Conceição, uma igreja não muito famosa nem muito interessante, e no homem que, depois do velório, vai tomar um refresco num botequim. Paga, dão-lhe uma moeda de troco, e ele percebe, em seguida, que há algo nela: foi riscada, o que a diferencia das outras. Ele vê a moeda, está muito emocionado pela morte da mulher, mas, ao ver a moeda, já começa a se esquecer de tudo e a pensar somente na moeda. Eu tinha, assim, o objeto mágico para o conto. Depois é que surgem as tentativas do narrador de livrar-se de sua obsessão. Diversos artifícios são utilizados: um deles é perder a moeda. Leva-a, então, a outro botequim, distante dali. Usa-a para pagar, procura esquecer em que esquina o botequim se encontrava, mas isso não resolve o problema, ele continua pensando na moeda. Chega a extremos um tanto absurdos. Por exemplo, compra uma libra esterlina, com São Jorge e o dragão, examina-a com uma lupa, procura pensar nela e esquecer a moeda de vinte centavos, já perdida para sempre, mas não consegue livrar-se da lembrança. Até o final do conto, o homem vai enlouquecendo, mas pensa que essa mesma obsessão poderá salvá-lo. Isto é, haverá um momento no qual o Universo já terá desaparecido e o próprio Universo será uma moeda de vinte centavos. Então ele, e aqui produzi um pequeno efeito literário, ele, Borges, estará louco, não saberá mais que é Borges. Já não será outra coisa a não ser o espectador dessa perdida moeda inesquecível. E conclui com uma frase devidamente literária, isto é, falsa: “Talvez por detrás da moeda esteja Deus”. Ou seja, se alguém vê uma só coisa, essa coisa única é absoluta. Há outros episódios que esqueci, alguns talvez que vocês recordem. Ao final, ele não pode dormir, sonha com a moeda, não pode ler, a moeda se interpõe entre o texto e ele, quase não pode falar senão de um modo mecânico, por que realmente está pensando na moeda.
Assim termina o conto".
"Vou procurar, então, recordar um conto meu. Enquanto me traziam para cá, fiquei pensando em um conto meu, não sei se vocês leram, e que se chama “El Zahir”. Vou lembrar como cheguei à concepção desse “conto”.
Não recordo a data em que o escrevi, sei apenas que era diretor da Biblioteca Nacional, que fica no sul de Buenos Aires, perto da igreja de La Concepción. Conheço bem esse bairro. Meu ponto de partida foi uma palavra, uma palavra que usamos quase todos os dias sem nos dar conta do mistério que nela há, exceto que todas as palavras são misteriosas. Pensei na palavra inesquecível. Unforgettable, em inglês. Detive-me, não sei por que, já que havia ouvido essa palavra milhares de vezes, quase não passava um dia sem que a ouvisse. Pensei: que coisa extraordinária seria se houvesse algo de que realmente não pudéssemos nos esquecer? Que fantástico seria se houvesse, no que chamamos realidade, uma coisa, um objeto, por que não?, que fosse realmente inesquecível!
Este foi meu ponto de partida, bastante abstrato e pobre: pensar no possível sentido dessa palavra ouvida, lida, literalmente inesquecível, unforgettable, unvergesslich, inouviable. Foi um consideração bastante pobre, como vocês podem ver.
Depois, pensei que se existe algo inesquecível, deve ser algo comum, já que se tivéssemos uma Quimera, por exemplo, um monstro de três cabeças, uma cabeça, se não me engano, de cobra, outra de serpente, outra de cão, não tenho certeza, certamente recordaríamos isto. De modo que não haveria graça nenhuma num conto com um minotauro, uma quimera, um unicórnio inesquecíveis. Não, teria que ser alguma coisa bem comum. Ao pensar nessa coisa comum, pensei imediatamente numa moeda, já que são cunhadas milhares e milhares de moedas absolutamente iguais. Todas com a efígie da liberdade ou um escudo, ou com certas palavras convencionais. Que coisa extraordinária seria se houvesse uma moeda, uma moeda perdida entre esses milhões de moedas, que fosse inesquecível. Pensei, assim, numa moeda que já saiu de circulação, uma moeda de vinte centavos, uma moeda igual às outras, igual à moeda de cinco ou à de dez centavos, um pouco maior. Que coisa extraordinária seria se, entre os milhões, literalmente, de moedas cunhadas pelo Estado, houvesse uma que fosse inesquecível. Daí surgiu-me uma idéia: uma inesquecível moeda de vinte centavos. Não sei se elas ainda existem, se os numismáticos as colecionam, se elas têm algum valor, mas, enfim, não pensei nisso naquele instante. Pensei numa moeda que, para os objetivos do meu conto, teria de ser inesquecível. Isto é, uma pessoa que a visse não poderia mais pensar em outra coisa.
Depois, encontrei-me diante da segunda ou terceira dificuldade. Perdi a conta das dificuldades. Por que essa moeda viria a ser inesquecível? O leitor não aceitaria tal idéia. Eu tinha de preparar o inesquecível da minha moeda, e para tanto convinha supor um estado emocional em que ele a via, tinha de insinuar a loucura, já que o tema de meu conto é um tema que se parece com a loucura ou a obsessão. Pensei, como pensou Edgar Allan Poe quando escreveu seu merecidamente famoso poema “O corvo”, na morte de uma mulher bonita. Poe se perguntou a quem poderia impressionar a morte dessa mulher bonita e deduziu que tinha de impressionar a alguém que estivesse apaixonado por ela. Daí cheguei a idéia de uma mulher, por quem, no conto, estou apaixonado, e que morre, o que me deixa desesperado. Neste ponto, teria sido fácil, talvez fácil demais, que essa mulher fosse como a perdida Leonor, de Poe. Mas, não. Decidi mostrar essa mulher de um modo satírico, mostrar o amor de quem não esquecerá a moeda de vinte centavos como um pouco ridículo. Todos os amores o são para quem os vê de fora. Assim, ao invés de falar da beleza do love splendor, converti-a numa mulher bastante trivial, um pouco ridícula, nem feia nem muito linda. Imaginei uma situação que ocorre com freqüência: um homem é apaixonado por uma mulher, não pode viver sem ela, mas, ao mesmo tempo, sabe que essa mulher não é especialmente recomendável, digamos, para sua mãe, para suas primas, para a camareira, para a costureira, para as amigas. No entanto, para ele, esse mulher é única.
Isto me levou a uma outra idéia: a de que talvez toda pessoa seja única e que nós não vemos o extraordinário que fala a favor dessa pessoa. Às vezes, penso que isto se dá em tudo. Senão, fixemo-nos no fato de que na natureza ou em Deus, Deus sive Natura, como dizia Spinoza, o importante é a quantidade e não a qualidade. Por que não supor, então, que haja algo singular em cada formiga e que por isso Deus, ou a natureza, cria milhões de formigas. O que é falso. Não há milhões de formigas, há milhões de seres diferentes, mas a diferença é tão sutil que nós as vemos como iguais.
O que é, pois, estar apaixonado? Estar apaixonado é perceber o que há de extraordinário em cada pessoa, singularidade essa que não pode ser comunicada a não ser por meio de hipérboles ou de metáforas. Então, por que não imaginar que essa mulher, um pouco ridícula para todos, pouco ridícula para quem está apaixonado por ela, que essa mulher morra. Depois, temos o velório. Escolhi o lugar do velório, escolhi a esquina, pensei na igreja da Conceição, uma igreja não muito famosa nem muito interessante, e no homem que, depois do velório, vai tomar um refresco num botequim. Paga, dão-lhe uma moeda de troco, e ele percebe, em seguida, que há algo nela: foi riscada, o que a diferencia das outras. Ele vê a moeda, está muito emocionado pela morte da mulher, mas, ao ver a moeda, já começa a se esquecer de tudo e a pensar somente na moeda. Eu tinha, assim, o objeto mágico para o conto. Depois é que surgem as tentativas do narrador de livrar-se de sua obsessão. Diversos artifícios são utilizados: um deles é perder a moeda. Leva-a, então, a outro botequim, distante dali. Usa-a para pagar, procura esquecer em que esquina o botequim se encontrava, mas isso não resolve o problema, ele continua pensando na moeda. Chega a extremos um tanto absurdos. Por exemplo, compra uma libra esterlina, com São Jorge e o dragão, examina-a com uma lupa, procura pensar nela e esquecer a moeda de vinte centavos, já perdida para sempre, mas não consegue livrar-se da lembrança. Até o final do conto, o homem vai enlouquecendo, mas pensa que essa mesma obsessão poderá salvá-lo. Isto é, haverá um momento no qual o Universo já terá desaparecido e o próprio Universo será uma moeda de vinte centavos. Então ele, e aqui produzi um pequeno efeito literário, ele, Borges, estará louco, não saberá mais que é Borges. Já não será outra coisa a não ser o espectador dessa perdida moeda inesquecível. E conclui com uma frase devidamente literária, isto é, falsa: “Talvez por detrás da moeda esteja Deus”. Ou seja, se alguém vê uma só coisa, essa coisa única é absoluta. Há outros episódios que esqueci, alguns talvez que vocês recordem. Ao final, ele não pode dormir, sonha com a moeda, não pode ler, a moeda se interpõe entre o texto e ele, quase não pode falar senão de um modo mecânico, por que realmente está pensando na moeda.
Assim termina o conto".
Borges(1)
Alguns trechos de uma entrevista do escritor argentino Jorge Luis Borges, que traz muita coisa interessante a respeito do seu processo de criação.
"Penso que é melhor que o escritor interfira o mínimo possível em sua obra. Isto pode parecer estranho, mas não é. Em todo caso, trata-se, curiosamente, da doutrina clássica. Nós a vemos na primeira linha, eu não sei grego, da Ilíada, de Homero, que todos lemos na censurável versão de Hermosilla: “Canta, Musa, a cólera de Aquiles”. Isto é, Homero, ou os gregos a que chamamos de Homero, sabia que o poeta não é o cantor, que o poeta, ou prosador, dá no mesmo, é simplesmente o amanuense de algo que ignora e que em sua mitologia particular chama de a Musa. Por outro lado, os hebreus preferiram falar de Espírito, e nossa psicologia contemporânea, que não sofre de excessiva beleza, de subconsciência, inconsciente coletivo, ou algo assim. Mas, enfim, o importante é o fato de que o escritor é um amanuense, ele recebe algo e procura expressá-lo".
"Penso que é melhor que o escritor interfira o mínimo possível em sua obra. Isto pode parecer estranho, mas não é. Em todo caso, trata-se, curiosamente, da doutrina clássica. Nós a vemos na primeira linha, eu não sei grego, da Ilíada, de Homero, que todos lemos na censurável versão de Hermosilla: “Canta, Musa, a cólera de Aquiles”. Isto é, Homero, ou os gregos a que chamamos de Homero, sabia que o poeta não é o cantor, que o poeta, ou prosador, dá no mesmo, é simplesmente o amanuense de algo que ignora e que em sua mitologia particular chama de a Musa. Por outro lado, os hebreus preferiram falar de Espírito, e nossa psicologia contemporânea, que não sofre de excessiva beleza, de subconsciência, inconsciente coletivo, ou algo assim. Mas, enfim, o importante é o fato de que o escritor é um amanuense, ele recebe algo e procura expressá-lo".
segunda-feira, novembro 07, 2005
"Hapiness is a warm gun"
"Hapiness is a warm gun (bang bang, shot shot)"
The Beatles
Após devaneios e wolfianas, há o amor. Ainda não acredito que seja o amor na sua forma mais completa e transformadora, mas fagulhas dele já teimam em se desgarrar e provocar princípios de incêndios. Tudo bem, são muito os bombeiros que me preservam (?) das fagulhas, mas acho que , tranquilamente, está mais que na hora de dar uma cachaça para eles, libertá-los dessa ingrata tarefa de destruir fagulhas tão promissoras...
Se bem que, se são promissoras, não deveriam se apresentar assim, pois trazem consigo expectativas, e delas obrigatoriamente vem uma cisão, seja com o que já está estabelecido em não aparecer seja com o que é mais do que previsível que aconteça, embora não é com a previsão que vão se diminuir os seus efeitos, e que bom que é assim mesmo. Enfim, se "hapiness is a warm gun", love is a slow death, ou a cold rainbow.
Realmente são as surpresas.
The Beatles
Após devaneios e wolfianas, há o amor. Ainda não acredito que seja o amor na sua forma mais completa e transformadora, mas fagulhas dele já teimam em se desgarrar e provocar princípios de incêndios. Tudo bem, são muito os bombeiros que me preservam (?) das fagulhas, mas acho que , tranquilamente, está mais que na hora de dar uma cachaça para eles, libertá-los dessa ingrata tarefa de destruir fagulhas tão promissoras...
Se bem que, se são promissoras, não deveriam se apresentar assim, pois trazem consigo expectativas, e delas obrigatoriamente vem uma cisão, seja com o que já está estabelecido em não aparecer seja com o que é mais do que previsível que aconteça, embora não é com a previsão que vão se diminuir os seus efeitos, e que bom que é assim mesmo. Enfim, se "hapiness is a warm gun", love is a slow death, ou a cold rainbow.
Realmente são as surpresas.
sábado, novembro 05, 2005
devaneios (2)
1.
O peso e o ônus de fazer parte de um grupo restrito, de não conseguir compreender muitas das relações dos outros que se nomeiam como amizade é , por muitas vezes, excessivo. Sim, não é fácil ficar ao lado de pessoas que tem relações de consequências, amizades, até relacionamentos completamente diferentes da sua. Se ouso criticar, posso ser taxado de louco, e talvez até tenham razão, mas , enfim, é isso que escolhei pra mim. Talvez pensem que os criticando estou tentanto fazer com que essas pessoas fiquem mais próximos do meu jeito de encarar certas relações, o que não é de todo mentira; mas , se faço isso, é com a intenção de que as pessoas aproveitem aquilo assim como eu estou aproveitando, de forma alguma querendo me orgulhar de estar nessa nomeada "loucura".
Sempre faço isso de boas atenções, mas acho que , por mais difícil que seja não compartilhar momentos bons, "catequizar" os outros para adentrar nesse mundo "louco" não é a melhor opção. Por isso, o melhor é guardar as próprias loucuras.
2.
Hoje em dia, o sofrimento é pop. Fácil se percebe. Porém, e ainda bem, o verdadeiro sofrimento, aquele que serve como rito de passagem para uma situação extraordinária, esse ainda não foi mapeado e popularizado, assim como eu acho que nunca vai ser, por ser demasiado polêmico e até inatingível à todos. Uma antídoto para o sofrimento pop seria fazer com que se perceba quão ridículo é exaltar o sofrimento, ou ,numa solução mais radical, é fazer com que seja provado o verdadeiro sofrimento, pois assim nunca mais ninguém o irá exaltar, exibir a bom grado, adorar até. Porque sofrer, por indispensável que seja, não é bom.
3.
Esse blog funciona tal como um "medidor de atmosfera pessoal". É uma forma de execrar os sentimentos, os pensamentos daquele dia/época. E aqui se denuncia o humor, pois há os dias tipo manhãs de sol e os pós-tragos noturnos, assim como os tristes em essência por algo maior que essa vidinha tranquila levada e os completamentes loucos de amor por essa mesma vidinha tranquila e surpreendente.
O peso e o ônus de fazer parte de um grupo restrito, de não conseguir compreender muitas das relações dos outros que se nomeiam como amizade é , por muitas vezes, excessivo. Sim, não é fácil ficar ao lado de pessoas que tem relações de consequências, amizades, até relacionamentos completamente diferentes da sua. Se ouso criticar, posso ser taxado de louco, e talvez até tenham razão, mas , enfim, é isso que escolhei pra mim. Talvez pensem que os criticando estou tentanto fazer com que essas pessoas fiquem mais próximos do meu jeito de encarar certas relações, o que não é de todo mentira; mas , se faço isso, é com a intenção de que as pessoas aproveitem aquilo assim como eu estou aproveitando, de forma alguma querendo me orgulhar de estar nessa nomeada "loucura".
Sempre faço isso de boas atenções, mas acho que , por mais difícil que seja não compartilhar momentos bons, "catequizar" os outros para adentrar nesse mundo "louco" não é a melhor opção. Por isso, o melhor é guardar as próprias loucuras.
2.
Hoje em dia, o sofrimento é pop. Fácil se percebe. Porém, e ainda bem, o verdadeiro sofrimento, aquele que serve como rito de passagem para uma situação extraordinária, esse ainda não foi mapeado e popularizado, assim como eu acho que nunca vai ser, por ser demasiado polêmico e até inatingível à todos. Uma antídoto para o sofrimento pop seria fazer com que se perceba quão ridículo é exaltar o sofrimento, ou ,numa solução mais radical, é fazer com que seja provado o verdadeiro sofrimento, pois assim nunca mais ninguém o irá exaltar, exibir a bom grado, adorar até. Porque sofrer, por indispensável que seja, não é bom.
3.
Esse blog funciona tal como um "medidor de atmosfera pessoal". É uma forma de execrar os sentimentos, os pensamentos daquele dia/época. E aqui se denuncia o humor, pois há os dias tipo manhãs de sol e os pós-tragos noturnos, assim como os tristes em essência por algo maior que essa vidinha tranquila levada e os completamentes loucos de amor por essa mesma vidinha tranquila e surpreendente.
sexta-feira, novembro 04, 2005
Wolfianas (1)
Fausto Wolff é um jornalista-escritor gaúcho, descendente de alemães do vale do Sinos e personagem do país mítico chamado "Ipanema", no RIo de Janeiro, como diz Luis Fernando Veríssimo. Desde cedo convivendo com as agruras do país, sabe como poucos meter o dedo na ferida; sabe até as receitas para curar a ferida, mas como isso não depende só dele...
Eu disse uma vez que ele é uma mistura improvável de Bukowski com Jorge Luis Borges, com pitadas marxistas.

Vou colocar alguns trechos de um livro que eu recém comecei a ler, mas que de cara vi que é magistral: A imprensa livre de Fausto Wolff. è uma coletâneas de artigos sobre o país, o caos atual em que nos encontramos. É de 2004, portanto bem recente. Alguns trechos do livro:
"Nossa imprensa - os poucos jornais que sobraram e que viraram empregado dos canais de televisão - tornou-se clean, distante, superior, limitando a narrar os fatos sem se atentar para os fenômenos que ocasionam os fatos".
"As transnacionais, os bancos, as grandes redes de TV que nos convencem a consumir mais e mais todo tipo de porcarias não podem viver sem escravos. E os escravos somos nós e somos escravos porque - na medida em que queremos ter e abdicamos da nossa condição de indivíduos - não percebemos que eles não podem viver sem nós. Pensem bem: o domador sem tigre não passa de um palhaço com um chicote na mão."
" A liberdade é uma carcereira terrível"
Algumas coisas podem até parecer radical demais, mas não; basta ler Fausto Wolff que ele nos explica direitinho que, se há alguma verdade perdida, ele chega o mais próximo possível dela.
Eu disse uma vez que ele é uma mistura improvável de Bukowski com Jorge Luis Borges, com pitadas marxistas.

Vou colocar alguns trechos de um livro que eu recém comecei a ler, mas que de cara vi que é magistral: A imprensa livre de Fausto Wolff. è uma coletâneas de artigos sobre o país, o caos atual em que nos encontramos. É de 2004, portanto bem recente. Alguns trechos do livro:
"Nossa imprensa - os poucos jornais que sobraram e que viraram empregado dos canais de televisão - tornou-se clean, distante, superior, limitando a narrar os fatos sem se atentar para os fenômenos que ocasionam os fatos".
"As transnacionais, os bancos, as grandes redes de TV que nos convencem a consumir mais e mais todo tipo de porcarias não podem viver sem escravos. E os escravos somos nós e somos escravos porque - na medida em que queremos ter e abdicamos da nossa condição de indivíduos - não percebemos que eles não podem viver sem nós. Pensem bem: o domador sem tigre não passa de um palhaço com um chicote na mão."
" A liberdade é uma carcereira terrível"
Algumas coisas podem até parecer radical demais, mas não; basta ler Fausto Wolff que ele nos explica direitinho que, se há alguma verdade perdida, ele chega o mais próximo possível dela.
quinta-feira, novembro 03, 2005
devaneios (1)
Conquanto que seja possível, a fase de experimentação da vida tem de ser "a linha de sombra" dita por Josehp Conrad ; a fase de transição da juventude para a vida "adulta", cheia de responsabilidades onde a fuga delas já não pode mais ser vista de uma boa maneira.
Há ainda uma sustentação que nos permite a experimentação, da mesma forma que são os que nos sustentam que não nos deixam extrapolar essa experimentação, pois, afinal, o investimento tem de ter um fruto, e fazer com que o fruto se perca num mar de outros mais terríveis pode fazer com que ele apodreça, e aí não há nada que o mantenha na linha correta que os que nos sustentam querem que nós sigamos. É o ônus disso tudo; podemos experimentar, mas pagamos o preço de não fugir demais.
Enfim, viva a experimentação dirigida e saudável
( se é que conseguimos distinguí-las como tal...)
Devaneios, loucuras, tudo muito difícil de dar em alguma coisa ou não. Mas é assim.
Há ainda uma sustentação que nos permite a experimentação, da mesma forma que são os que nos sustentam que não nos deixam extrapolar essa experimentação, pois, afinal, o investimento tem de ter um fruto, e fazer com que o fruto se perca num mar de outros mais terríveis pode fazer com que ele apodreça, e aí não há nada que o mantenha na linha correta que os que nos sustentam querem que nós sigamos. É o ônus disso tudo; podemos experimentar, mas pagamos o preço de não fugir demais.
Enfim, viva a experimentação dirigida e saudável
( se é que conseguimos distinguí-las como tal...)
Devaneios, loucuras, tudo muito difícil de dar em alguma coisa ou não. Mas é assim.
segunda-feira, outubro 31, 2005
Filosofia bagaceira

Team America é um filme feito todo em bonecos tipo os antigos Thunderbirds, com os fiozinhos que os movem e tudo. Criado pelos mesmo pessoal responsável pelo desenho South Park, o fulme é uma sátira cruel aos americanos e a sua "missão" de policiar e garantir o bem-estar do mundo. A Team America do título é uma polícia especial encarregada de cuidar de ações terroristas em todo o planeta, e para cumprir sua missão, não hesita em destruir tudo que vê pela frente - inclusive monumentos históricos e Museus, como no início do filme quando destroem o Museu do Louvre em Paris para matar um terrorista árabe que entrou lá para se esconder dos americanos.
Para se disfarçar de árabe e descobrir o que estes estão tramandos, eles contatam o considerado "melhor ator do mundo", Gary Johnston. A partir daí o filme se desenrola, com reviravoltas típicas dos filmes de ação (mas, neste caso, tudo é sátira), e numa das cenas mais hilárias, o ator Gary, frustrado por não conseguir interpretar em situações de risco como a que o Team America o encarrega, toma um porre num bar, e um velho que está ali observando puxa conversa no mínimo estranha com Gary:
" Há três tipos de pessoas no mundo: os dicks (paus), as pussy (bucetas) e os asshole (cús). As pussy enrolam os dicks, que só querem fodê-las sem pensar direito. E há os asshole, quer só querem cagar pra cima de tudo.
As pussy podem ficar brabas com os dicks, porque são fodidas por eles. Mas o problema é que os dicks muitas vezes fodem demais, ou fodem quando não devem, e é preciso que as pussy mostrem isso à eles; só que , às vezes, as pussy são influenciadas demais, e ficam tão cheias de merda que elas próprias se tornam assholes - pela proximidade de alguns centímetros, isso é bem fácil de acontecer. Mas os dicks também fodem os asshole, e se não fudessem, sabe o que aconteceria? os dicks e as pussy ficariam cobertos de merda!
Por isso, cabe aos dicks salvar o mundo dos assholes!
domingo, outubro 30, 2005
Uma simples história de amor
Um argumento para curta metragem, que fiz há um ano atrás. Historinha simples, romântica, ingênua.
Uma simples História de Amor
Jovem vem do interior para fazer vestibular e fica na casa dos seus tios, num quarto só para ele.
Chega num domingo à tarde. Segunda pela manhã, acorda cedo e vai fazer o vestibular.Vai a pé, senta na sala, aguarda.
A uns 3 minutos de esgotar o prazo, surge uma garota, de cabelos vermelhos, atrasada e senta atrás dele. Ele a acompanha com os olhos. Vendo o olhar do garoto, ela, mesmo um pouco ofegante, diz oi para ele e puxa uma conversa. Ele responde, um pouco sem jeito. Mas começa o vestibular, e aconversa morre .
Duas horas depois, ela se levanta para entregar a prova,e o garoto levanta-se segundos depois.
Os dois saem junto da sala. Conversam sobre a prova e outras coisas enquanto vão junto para a casa.
Ao chegar na hora de se despedir,ela dá um beijo no rosto dele e diz seu telefone. Ele chega em casa,vai direto para cama.
No outro dia, mesma rotina: acorda cedo e vai fazer o vestibular. Desta vez a garota já está na sala quando ele chega. Conversam um pouco antes do início da prova;rola um “leve” clima, ela pega na mão dele e o deseja boa sorte. Ele retribui. Fazem a prova, e desta vez ele acaba antes. O garoto espera um pouco e vão junto novamente para casa, pelo mesmo caminho. Na hora de se despedir, ela o convida para dar uma volta de tarde. Um abraço de despedida,almoço, e pelo fim da tarde os dois saem juntos, caminhando pela cidade movimentada.
Começa a chover, e eles vão correndo para casa.
Na hora da despedida, finalmente se beijam pra valer. No outro dia, no colégio, se encontram na mesma sala, um sentando atrás do outro.
Ela está bem diferente no seu comportamento, preocupada com alguma coisa.
Faz a prova rápido, sai quase correndo, mas deixa um bilhete pra ele, discretamente. Ele abre. O bilhete diz que ela não vai fazer a redação, que vai pegar o ônibus pra casa as 11:30. Ele dá um jeito de acabar a prova rápido. Sai quase correndo tentando achar ela. Vai correndo até a rodoviária; chega em tempo de ver o ônibus saindo,e vê ela dando um tchau pela janela. Ele fica desolado. Vai para a casa e chora; acaba dormindo. No outro dia, lê um jornal a caminho da rodoviária: ônibus bate em carreta e mais de dez passageiros morrem.
O garoto só abaixa a cabeça, chora muito e grita.
Outro ano. Ele faz o vestibular de novo.
No mesmo colégio e, na mesma classe, encontra uma garota atrás de si, muito parecida com a outra que morreu. Ela se apresenta, ele a olha com aquele mesmo olhar de antes.Acabam a prova juntos; e vão embora.
Uma simples História de Amor
Jovem vem do interior para fazer vestibular e fica na casa dos seus tios, num quarto só para ele.
Chega num domingo à tarde. Segunda pela manhã, acorda cedo e vai fazer o vestibular.Vai a pé, senta na sala, aguarda.
A uns 3 minutos de esgotar o prazo, surge uma garota, de cabelos vermelhos, atrasada e senta atrás dele. Ele a acompanha com os olhos. Vendo o olhar do garoto, ela, mesmo um pouco ofegante, diz oi para ele e puxa uma conversa. Ele responde, um pouco sem jeito. Mas começa o vestibular, e aconversa morre .
Duas horas depois, ela se levanta para entregar a prova,e o garoto levanta-se segundos depois.
Os dois saem junto da sala. Conversam sobre a prova e outras coisas enquanto vão junto para a casa.
Ao chegar na hora de se despedir,ela dá um beijo no rosto dele e diz seu telefone. Ele chega em casa,vai direto para cama.
No outro dia, mesma rotina: acorda cedo e vai fazer o vestibular. Desta vez a garota já está na sala quando ele chega. Conversam um pouco antes do início da prova;rola um “leve” clima, ela pega na mão dele e o deseja boa sorte. Ele retribui. Fazem a prova, e desta vez ele acaba antes. O garoto espera um pouco e vão junto novamente para casa, pelo mesmo caminho. Na hora de se despedir, ela o convida para dar uma volta de tarde. Um abraço de despedida,almoço, e pelo fim da tarde os dois saem juntos, caminhando pela cidade movimentada.
Começa a chover, e eles vão correndo para casa.
Na hora da despedida, finalmente se beijam pra valer. No outro dia, no colégio, se encontram na mesma sala, um sentando atrás do outro.
Ela está bem diferente no seu comportamento, preocupada com alguma coisa.
Faz a prova rápido, sai quase correndo, mas deixa um bilhete pra ele, discretamente. Ele abre. O bilhete diz que ela não vai fazer a redação, que vai pegar o ônibus pra casa as 11:30. Ele dá um jeito de acabar a prova rápido. Sai quase correndo tentando achar ela. Vai correndo até a rodoviária; chega em tempo de ver o ônibus saindo,e vê ela dando um tchau pela janela. Ele fica desolado. Vai para a casa e chora; acaba dormindo. No outro dia, lê um jornal a caminho da rodoviária: ônibus bate em carreta e mais de dez passageiros morrem.
O garoto só abaixa a cabeça, chora muito e grita.
Outro ano. Ele faz o vestibular de novo.
No mesmo colégio e, na mesma classe, encontra uma garota atrás de si, muito parecida com a outra que morreu. Ela se apresenta, ele a olha com aquele mesmo olhar de antes.Acabam a prova juntos; e vão embora.
quinta-feira, outubro 27, 2005
Impressões de viagem : Punta Del Este (2)
Algumas outras fotos de Punta Del Este, as últimas da viagem.
No último dia lá, pegamos umas bicicletas com o cara do Hotel e andamos por todos os arredores da cidade. Há uns 8 quilômteros do hotel, o pneu da bicicleta do André furou, e pra conseguir uma borracharia ali... sorte nossa que um brasileiro e dois uruguaios estavam , de bicicleta, indo para Punta em busca de trabalho. Como andavam , de bicicleta, desde montevideo, traziam consigo os materiais necessários para remendos de pneu, e por um precinho camarada e umas bolachas arrumaram pra nós. O brasileiro, que era de Livramento, uma figura interessantíssima: algo como um brasiguaio, falava portugûes com nós e espanhol com os outros companheiros, em cada língua com sotaque da outra. Ele veio de bicicleta de Livramento a Montevideo em 3 dias e meio, quase 500 Km, um recorde. Veio pra procurar trabalho, trazendo só uma mochila e alguns poucos pertences.
Depois do pneu, andamos bastante ainda, a minha bicicleta deu problema também, desta vez no câmbio, mas seguimos igual. Fizemos uns 30 Km acho, com algumas subidas cansativas incluso. Chegamos no hotel podre de cansados, logicamente.

Na Casapuebla, um casarão bem estranho de um artista plástico que hoje virou museu. Fica a alguns quilômetros do Centro, numa região com belas praias.

Na Praia em um dos lados da península onde fica Punta; é uma escultura de uma mão enterrada.

No porto, nós e as bici.

Na exata ponta onde o Rio da Prata encontra o Oceano.
À esquerda, o atlântico; à direita, o Rio, que se desde Montevideo já tem cara de mar, aqui então nem lembra mais um rio.
No último dia lá, pegamos umas bicicletas com o cara do Hotel e andamos por todos os arredores da cidade. Há uns 8 quilômteros do hotel, o pneu da bicicleta do André furou, e pra conseguir uma borracharia ali... sorte nossa que um brasileiro e dois uruguaios estavam , de bicicleta, indo para Punta em busca de trabalho. Como andavam , de bicicleta, desde montevideo, traziam consigo os materiais necessários para remendos de pneu, e por um precinho camarada e umas bolachas arrumaram pra nós. O brasileiro, que era de Livramento, uma figura interessantíssima: algo como um brasiguaio, falava portugûes com nós e espanhol com os outros companheiros, em cada língua com sotaque da outra. Ele veio de bicicleta de Livramento a Montevideo em 3 dias e meio, quase 500 Km, um recorde. Veio pra procurar trabalho, trazendo só uma mochila e alguns poucos pertences.
Depois do pneu, andamos bastante ainda, a minha bicicleta deu problema também, desta vez no câmbio, mas seguimos igual. Fizemos uns 30 Km acho, com algumas subidas cansativas incluso. Chegamos no hotel podre de cansados, logicamente.

Na Casapuebla, um casarão bem estranho de um artista plástico que hoje virou museu. Fica a alguns quilômetros do Centro, numa região com belas praias.

Na Praia em um dos lados da península onde fica Punta; é uma escultura de uma mão enterrada.

No porto, nós e as bici.

Na exata ponta onde o Rio da Prata encontra o Oceano.
À esquerda, o atlântico; à direita, o Rio, que se desde Montevideo já tem cara de mar, aqui então nem lembra mais um rio.
terça-feira, outubro 25, 2005
Lembranças de sonhos
De uns meses pra cá eu tenho sonhado compulsivamente. No sono pesado tradicional à noite já era comum, mas agora os sonhos vêm em qualquer dormida que seja, até aquelas cestas de 30 minutos depois do almoço. Na verdade, desconfio que sempre sonhei bastante, mas a diferença desta vez é que me lembro de quase todos os sonhos, embora muitas vezes o que lembro não consegue formar um relato coeso e com nexo. Mas sonho não tem muito nexo mesmo... o que comprovei através das lembranças dos meus sonhos é que eles são diremante ligados ao "assunto" que predominou na minha cabeça durante o dia. É difícil de se medir exatamente o tal assunto, mas acredito que todo mundo tenha uma boa noção para si de qual é esse assunto.
O nível de preocupação sobre esse "assunto" no dia também tem ligação com o sonho; nos dias mais tensos, ou mais ricos em experiências novas e diferentes do comum, é mais fácil, por assim dizer, sonhar. Em outros mais tranquilos, sem muita preocupação ou mesmo monótonos, os sonhos demoram a vir - quando vêm - e talvez nesses dias eles possam dizer alguma coisa a mais sobre nós, se é que eles possam dizer alguma coisa, pois as preocupações e experiências novas de certa forma "tendenciam" o sono, e nos dias em que não há nenhum nem outro, a mente está mais "liberta" para sonhar, sem qualquer amarra com o assunto do dia. Começarei a observar mais os sonhos nestes dias. Posso estar acreditando numa grande bobagem, e essas coisas que pensei podem ser tremendas bobagens, mas eu acredito, pois eu sinto isso, e por mais que não possamos acreditar na nossa memória, pelo menos em certos pontos dá para se acreditar, e é isso que farei.
O nível de preocupação sobre esse "assunto" no dia também tem ligação com o sonho; nos dias mais tensos, ou mais ricos em experiências novas e diferentes do comum, é mais fácil, por assim dizer, sonhar. Em outros mais tranquilos, sem muita preocupação ou mesmo monótonos, os sonhos demoram a vir - quando vêm - e talvez nesses dias eles possam dizer alguma coisa a mais sobre nós, se é que eles possam dizer alguma coisa, pois as preocupações e experiências novas de certa forma "tendenciam" o sono, e nos dias em que não há nenhum nem outro, a mente está mais "liberta" para sonhar, sem qualquer amarra com o assunto do dia. Começarei a observar mais os sonhos nestes dias. Posso estar acreditando numa grande bobagem, e essas coisas que pensei podem ser tremendas bobagens, mas eu acredito, pois eu sinto isso, e por mais que não possamos acreditar na nossa memória, pelo menos em certos pontos dá para se acreditar, e é isso que farei.
segunda-feira, outubro 24, 2005
Impressões de viagem : Punta Del Este (1)
Depois de dois dias em Montevideo, decidimos ir pra Punta Del Este, famoso balneário da América do Sul, auto-proclamado "capital turística do Mercosul". Fomos num Domingo pra lá. E como toda a praia relativamente perto de cidades maiores, domingo de tarde esvazia, as pessoas vão para suas casas, e, quando não é epoca de veraneio, tudo fica naquele clima de "cidade-fantasma".
Punta estava assim. A linda orla de muitos prédios chiques, vazia. Nas avenidas, poucos carros - mas dentre os poucos, só carrões. Procuramos um hotel pelas cercanias do centro, onde fomos deixados por um simpático uruguaio dono de restaurante em Punta, e achamos bem mais fácil que Montevideo. Mais caro a diária, mas pouco comparado a inúmeras outras coisas que em Punta são muito mais caras que em todo o uruguai. Hotelzinho simpático, o dono acostumado com brasileiros arranhava um português, a comunicação se tornou mais fácil. Conversamos bastante com ele, que disse que até um dia anterior o hotel dele estava cheio - agora estava vazio - pois tinha um torneio de Poker no Cassino Hotel Conrad, e esses torneios costumam unir muita gente de fora, brasileiros em peso.
Ah, os Casinos! Punta tem muitos, em sua maioria estatais, e o Conrad, o maior e mais famoso da América Latina. Depois de descansarmos no hotel, caminhamos até lá. O prédio é realmente de encher os olhos; mas o que nos surpreendeu foi a facilidade de se entrar lá, de andar pelos aposentos chiques tranquilamente sem ninguém incomodar. O chão, todo entapetado, era um deleite para nossos pés cansados de ficar em pé;os inúmeros sofás chiques espalhados foram ocupados por nós sem cerimônias. Sentamos bem no do enorme hall de entrada e tomamos um mate, meio receosos com a tranquilidade com que se podia fazer (quase) tudo ali sem se preocupar com nada. As pessoas em volta , em sua grande maioria, vestidas com trajes chiques, vestidos longos, sapatos de salto alto, ternos, jóias... E nós ali, de all-star, mochila, casaco jeans e tomando mate. Pena que a água acabou no segundo mate de cada um. Ficamos ainda umas duas horas por lá, conhecendo os aposentos do Conrad, usando o banheiro gigante e bem cheiroso, até jogando no Cassino - só se podia jogar em dólares, trocamos os pesos e jogamos míseros 2 dólares. E perdemos.

O Conrad

Eu bem sentado num dos diversos aposentos do Conrad. ( tá um pouco escura, não consegui clarear direito)
Tenho mais algumas fotos, coloco depois e conto algumas outras histórias junto.
Punta estava assim. A linda orla de muitos prédios chiques, vazia. Nas avenidas, poucos carros - mas dentre os poucos, só carrões. Procuramos um hotel pelas cercanias do centro, onde fomos deixados por um simpático uruguaio dono de restaurante em Punta, e achamos bem mais fácil que Montevideo. Mais caro a diária, mas pouco comparado a inúmeras outras coisas que em Punta são muito mais caras que em todo o uruguai. Hotelzinho simpático, o dono acostumado com brasileiros arranhava um português, a comunicação se tornou mais fácil. Conversamos bastante com ele, que disse que até um dia anterior o hotel dele estava cheio - agora estava vazio - pois tinha um torneio de Poker no Cassino Hotel Conrad, e esses torneios costumam unir muita gente de fora, brasileiros em peso.
Ah, os Casinos! Punta tem muitos, em sua maioria estatais, e o Conrad, o maior e mais famoso da América Latina. Depois de descansarmos no hotel, caminhamos até lá. O prédio é realmente de encher os olhos; mas o que nos surpreendeu foi a facilidade de se entrar lá, de andar pelos aposentos chiques tranquilamente sem ninguém incomodar. O chão, todo entapetado, era um deleite para nossos pés cansados de ficar em pé;os inúmeros sofás chiques espalhados foram ocupados por nós sem cerimônias. Sentamos bem no do enorme hall de entrada e tomamos um mate, meio receosos com a tranquilidade com que se podia fazer (quase) tudo ali sem se preocupar com nada. As pessoas em volta , em sua grande maioria, vestidas com trajes chiques, vestidos longos, sapatos de salto alto, ternos, jóias... E nós ali, de all-star, mochila, casaco jeans e tomando mate. Pena que a água acabou no segundo mate de cada um. Ficamos ainda umas duas horas por lá, conhecendo os aposentos do Conrad, usando o banheiro gigante e bem cheiroso, até jogando no Cassino - só se podia jogar em dólares, trocamos os pesos e jogamos míseros 2 dólares. E perdemos.

O Conrad

Eu bem sentado num dos diversos aposentos do Conrad. ( tá um pouco escura, não consegui clarear direito)
Tenho mais algumas fotos, coloco depois e conto algumas outras histórias junto.
domingo, outubro 23, 2005
Impressões de viagem: Montevideo (3)
Voltando aos relatos de viagem, algumas fotos de Montevideo.

Da parte "praiana" de Montevideo, AO fundo, os prédios da orla da praia de Pocitos.

Descansando um pouco, nessa mesma orla, perto do Iate Clube.

Na tradicional feira de Tristan Návaja, que funciona todos os domingos de manhã. É uma grande feira de camelôs, antiquários, comidas, roupas, discos, artigos tradicionais do Uruguai, e tudo o que mais se imaginar. ( as minha caras nas fotos é sempre a mesma. Não sou fotogênico. :)
Amanhã conto de Punta Del Este.

Da parte "praiana" de Montevideo, AO fundo, os prédios da orla da praia de Pocitos.

Descansando um pouco, nessa mesma orla, perto do Iate Clube.

Na tradicional feira de Tristan Návaja, que funciona todos os domingos de manhã. É uma grande feira de camelôs, antiquários, comidas, roupas, discos, artigos tradicionais do Uruguai, e tudo o que mais se imaginar. ( as minha caras nas fotos é sempre a mesma. Não sou fotogênico. :)
Amanhã conto de Punta Del Este.
sexta-feira, outubro 21, 2005
Na Linha de Sombra
Dando uma breve pausa dos relatos de viagem, um trecho interessante de um livro ótimo - A linha de sombra, de Joseph Conrad.
Apenas os menos jovens têm tais momentos.(...) Fecha-se atrás de si o pequeno portão da mera meninice - e adentra-se um jardim encantado. Até as sombras aqui resplandecem cheia de promessas. Cada curva de vereda tem suas seduções. E não porque se trate de um país desconhecido. Sabe-se muito bem que a humanidade toda já trilhou aquela senda. É o encanto da experiência universal, da qual se espera extrair um sensação incomum ou pessoal - um algo que seja só nosso.
Vai-se reconhecendo os marcos dos predecessores, excitado, divertindo-se, aceitando a boa como a má sorte - as roas e os espinhos, como se costuma dizer - o pitoresco lote padrão, que guarda tantas possibilidades para os mrecedores, ou talvez para os afortunados.
Sim. Vai-se adiante. E o tempo, também, caminha - até que se percebe logo adiante uma linha de sombra avisando-nos que também a região da mocidade deverá ser deixada para trás. Este é o momento da vida no qual os tais momentos de tédio, desânimo, de insatisfação costumam aparecer.
Às vezes me pergunto se já passei da linha de sombra; se umas horas tenho certeza, outras fico na dúvida. Talvez esteja pra sair, ou já saí e não percebi ainda?
Apenas os menos jovens têm tais momentos.(...) Fecha-se atrás de si o pequeno portão da mera meninice - e adentra-se um jardim encantado. Até as sombras aqui resplandecem cheia de promessas. Cada curva de vereda tem suas seduções. E não porque se trate de um país desconhecido. Sabe-se muito bem que a humanidade toda já trilhou aquela senda. É o encanto da experiência universal, da qual se espera extrair um sensação incomum ou pessoal - um algo que seja só nosso.
Vai-se reconhecendo os marcos dos predecessores, excitado, divertindo-se, aceitando a boa como a má sorte - as roas e os espinhos, como se costuma dizer - o pitoresco lote padrão, que guarda tantas possibilidades para os mrecedores, ou talvez para os afortunados.
Sim. Vai-se adiante. E o tempo, também, caminha - até que se percebe logo adiante uma linha de sombra avisando-nos que também a região da mocidade deverá ser deixada para trás. Este é o momento da vida no qual os tais momentos de tédio, desânimo, de insatisfação costumam aparecer.
Às vezes me pergunto se já passei da linha de sombra; se umas horas tenho certeza, outras fico na dúvida. Talvez esteja pra sair, ou já saí e não percebi ainda?
quinta-feira, outubro 20, 2005
Impressões de viagem: Montevideo (2)
Continuando...
Montevideo tem dois lados meio distintos:
O centro,da Plaza Independecia até perto do porto e do mercado público, que é a parte conhecida como Ciudad Veja, onde surgiram as primeiras povoações. É uma península no Rio da Prata: o porto fica na ponta da península, e o começo da Ciudad Veja fica no meio. Seguindo em direção da Plaza ao porto, pode-se olhar para os dois lados e encontrar água. É como Porto Alegre: estando parado no calçadão da Andradas, olhando para a Praça da Alfândega, por exemplo, o rio Guaíba está na frente e nos dois lados, sendo que atrás de ti é que está o continente. Montevideo é a mesma coisa.

uma das ruas da Ciudad Veja
As praias. Sim, há praias em Montevideo. Elas são distante alguns quilômetros do centro, mas nada que um ônibus não resolva. Pocitos é a primeira de inúmeras que vêm a seguir, todas com uma excelente infra-estrutura, calçadão, uma linda orla com inúmeros prédios chiques, enseadas e tudo. Há uma boa faixa de areia em cada praia, aquelas areias mais escuras, dura, mas a água não é muito aconselhável para o banho, embora sempra haja alguns corajosos. É uma região muito bonita, cheio de gramadões verdes para se sentar, deitar, ler um livro, e um bom lugar para se fazer uma corrida, já que o calçadão acompanha todos a área entrecortada das praias, que dão no total quase 4 quilômetros. É considerada uma área nobre da cidade, há bastante restaurantes, lojas e prédios finos, além do Iate Club, tradiconalmente lugar de elite, onde ficam alguns pequenos iates, lanchas e outros barcos atracados.
As fotos dessa parte virão depois, não descarreguei elas ainda.
As uruguaias
As uruguaias são "cult". A grande maioria anda vestida no que aqui consideramos como "cult", pelo menos. All-Star ou um genérico, calça jeans, uma blusa e um casaco, franjas no cabelo negro. Quase que nem os indies daqui. A diferença é que ,se aqui é exceção esse jeito, lá é maioria. Não há patis, não se vê mulheres de salto na rua - salvo as que tem de trabalhar com ele -, não se vê quase muita produção para se sair na rua, como geralmente acontece por aqui. Assim, a beleza delas é mais rústica, natural.
E, puta que pariu, são muito belas! Morenas, cabelo comprido quase sempre, olhos calros, magras mas boas de corpo - há pouquíssimas gordas, pelo menos das que saiam nas ruas . O que mais se vê por lá são morenas magras de olhos claros de All-star, o que seriaum paraíso, se elas não fossem , digamos, arredias. Nas andanças noturnas, poucas davam conversa, tanto para uruguaios quanto para estrangeiros - que, por sinal, são bastantes por lá ; encontrei dois espanhóis e dois ingleses perdidos como nós , deu até pra arriscar um inglês, andamos juntos por um tempo, até que eles decidiram entrar num lugar e nós ficamos andando mesmo. Mas voltando às uruguaias. Elas andavam pelos circuitos de pubs rapidamente, dando uma leve olhadinha para os em sua maioria homens que estavam nas mesas de fora dos bares, como que para se assegurarem de que eles vão retribuir o olhar e elas continuaram andando, como se não tivessem olhado. Caí muito nesse joguinho delas até perceber que era um jogo que já se começava perdido pra mim. Deixei elas pra lá e fui tomar minha Pilsen litro.
Em um bar/boate que entramos por lá (AlmodoBar o nome, criativo), tivemos a triste verificação de que nosso "espanhol" não é suficiente para se trovar uma uruguaia. Ainda mais uma uruguaia, arredia a uma aproximação simples e corriqueira por aqui.
O lugar. Como os daqui, nada de diferente. Só a banda, um trio de rock com uma mulher no vocal,que por aqui não seria digna de tocar num lugar como esses. Muito ruim. Som péssimo.
Algo comum no lugar , e nas ruas também, era ver gente tomando uma garrafa de litro de cerveja no bico, sem qualquer cerimônia. O que aqui é coisa de bêbado, lá é normal. Muito estranho.
Mas, enfim, ainda caso com uma uruguaia daquelas.
Montevideo tem dois lados meio distintos:
O centro,da Plaza Independecia até perto do porto e do mercado público, que é a parte conhecida como Ciudad Veja, onde surgiram as primeiras povoações. É uma península no Rio da Prata: o porto fica na ponta da península, e o começo da Ciudad Veja fica no meio. Seguindo em direção da Plaza ao porto, pode-se olhar para os dois lados e encontrar água. É como Porto Alegre: estando parado no calçadão da Andradas, olhando para a Praça da Alfândega, por exemplo, o rio Guaíba está na frente e nos dois lados, sendo que atrás de ti é que está o continente. Montevideo é a mesma coisa.

uma das ruas da Ciudad Veja
As praias. Sim, há praias em Montevideo. Elas são distante alguns quilômetros do centro, mas nada que um ônibus não resolva. Pocitos é a primeira de inúmeras que vêm a seguir, todas com uma excelente infra-estrutura, calçadão, uma linda orla com inúmeros prédios chiques, enseadas e tudo. Há uma boa faixa de areia em cada praia, aquelas areias mais escuras, dura, mas a água não é muito aconselhável para o banho, embora sempra haja alguns corajosos. É uma região muito bonita, cheio de gramadões verdes para se sentar, deitar, ler um livro, e um bom lugar para se fazer uma corrida, já que o calçadão acompanha todos a área entrecortada das praias, que dão no total quase 4 quilômetros. É considerada uma área nobre da cidade, há bastante restaurantes, lojas e prédios finos, além do Iate Club, tradiconalmente lugar de elite, onde ficam alguns pequenos iates, lanchas e outros barcos atracados.
As fotos dessa parte virão depois, não descarreguei elas ainda.
As uruguaias
As uruguaias são "cult". A grande maioria anda vestida no que aqui consideramos como "cult", pelo menos. All-Star ou um genérico, calça jeans, uma blusa e um casaco, franjas no cabelo negro. Quase que nem os indies daqui. A diferença é que ,se aqui é exceção esse jeito, lá é maioria. Não há patis, não se vê mulheres de salto na rua - salvo as que tem de trabalhar com ele -, não se vê quase muita produção para se sair na rua, como geralmente acontece por aqui. Assim, a beleza delas é mais rústica, natural.
E, puta que pariu, são muito belas! Morenas, cabelo comprido quase sempre, olhos calros, magras mas boas de corpo - há pouquíssimas gordas, pelo menos das que saiam nas ruas . O que mais se vê por lá são morenas magras de olhos claros de All-star, o que seriaum paraíso, se elas não fossem , digamos, arredias. Nas andanças noturnas, poucas davam conversa, tanto para uruguaios quanto para estrangeiros - que, por sinal, são bastantes por lá ; encontrei dois espanhóis e dois ingleses perdidos como nós , deu até pra arriscar um inglês, andamos juntos por um tempo, até que eles decidiram entrar num lugar e nós ficamos andando mesmo. Mas voltando às uruguaias. Elas andavam pelos circuitos de pubs rapidamente, dando uma leve olhadinha para os em sua maioria homens que estavam nas mesas de fora dos bares, como que para se assegurarem de que eles vão retribuir o olhar e elas continuaram andando, como se não tivessem olhado. Caí muito nesse joguinho delas até perceber que era um jogo que já se começava perdido pra mim. Deixei elas pra lá e fui tomar minha Pilsen litro.
Em um bar/boate que entramos por lá (AlmodoBar o nome, criativo), tivemos a triste verificação de que nosso "espanhol" não é suficiente para se trovar uma uruguaia. Ainda mais uma uruguaia, arredia a uma aproximação simples e corriqueira por aqui.
O lugar. Como os daqui, nada de diferente. Só a banda, um trio de rock com uma mulher no vocal,que por aqui não seria digna de tocar num lugar como esses. Muito ruim. Som péssimo.
Algo comum no lugar , e nas ruas também, era ver gente tomando uma garrafa de litro de cerveja no bico, sem qualquer cerimônia. O que aqui é coisa de bêbado, lá é normal. Muito estranho.
Mas, enfim, ainda caso com uma uruguaia daquelas.
Impressões de viagem : Montevideo(1)
Aos poucos, vou relatando algumas impressões que tive dos lugares por onde passei, algumas coisas que só amadurecem depois de um certo tempo.
Montevideo (traduzido para o português, fica Montevidéu, mas eu prefiro o original) é uma cidade calma. Na parte central, tudo gira em torno da Avenida 18 de Julho, que é onde ficam os principais bancos, praças, sedes de governo, prédios históricos e administrativos do Uruguai. Mesmo com tudo concentrado ali, as coisas parecem funcionar tranquilamente; os ônibus velhos andam nos seus lugares, as pessoas caminham na calçada e não na rua, o chão é limpo em comparação com cidades do mesmo tamanho, as sinaleiras funcionam, quase não se ouve barulhos de buzinas, tudo parece estar em harmonia.

eu na Plaza Independencia, ao fundo a 18 de Julho.
Mate
Um fato curioso é que, independe da hora do dia, os uruguaios sempre carregam a térmica e a cuia para o mate. Pude conferir isso de manhã bem cedinho, pelo meio dia, depois do almoço, à tardinha, até à noite... sempre com o mate, tantos os jovens quantos os mais velhos, mulheres e homens, seja na 18 de Julho ou nas ruas paralelas menos movimentadas.
Algo que me intrigou de início é que o mate parecia um chá, não tinha o tradicional morrinho que fazemos por aqui, era a bomba perdida na cuia sem lugar certo, como um canudinho em um copo de refri. Depois, comprei uma erva num mercado e percebi o motivo disso: a erva deles é muito ruim. Fina, parece aquele pó de se fazer chá-mate, não há morrinho que dure - ainda mais com aquele vento forte que sopra em Montevideo . Tentei fazer um morrinho, mas já no terceiro mate tudo desabou, e meu mate ficou igual ao dos uruguaios. Ainda assim continuei tomando, e ele até que demorou mais do que o normal para ficar "lavado". O gosto é um pouco mais fraco que o nosso, acho que por a erva ser mais fina, mais misturada que a nossa. Mas, definitivamente, o nosso mate/chimarrão é melhor.
Carros
Os carros são quase todos de motor à diesel. Nos acostumamos aqui a ver só caminhonetes, ônibus, caminhões - veículos grandes em geral - com esse tipo de motor, e reconhecemos aquele ronco caracterísitico que o carrom acaba fazendo quando um desses se aproxima. Mas lá, caminhando pelas ruas, parava numa esquina para atravessar e ouvia aquele ronco que , para mim era característico de carro grande, vindo de tudo quanto é tipo de carro, principalmente dos pequenos , corsas, celtas, clios, gols, paratis, todos esses. Estranhava muito, o que me fez ficar cuidando para ver se encontrava algum carro que não tivesse aquele ronco, mas era extremamente difícil. Numa proporção de cabeça, diria que de 90 a 95% dos carros uruguaios são à diesel.
Percebe-se que o DETRAN deles não fiscaliza muito os carros velhos. Há de todos os tipos; fusca caindo aos pedaços, corcel sem uma lasca de pintura, fubicas não se sabe como andando de tão velhas, até mesmo carros novos com batidas no parachoques não consertadas, com a porta estragada, o vidro de trás quebrado.
Há uma justificativa para isso, acho eu: encontrei um carro desses velhos, mas ainda não caindo aos pedaços, por 9000 pesos, o que dá algo perto de R$ 900 reais. Muito barato se comparado aos daqui.
As marcas dos carros de lá são quase as mesmas dos daqui,e não poderia ser diferente, já que a grande maioria é importado do Brasil e da Argentina. Há um ligeiro maior número de carros da Renault que aqui, assim como também acontece na Argentina, onde as fábricas da montadora francesa são mais antigas .No mais, é a mesma proporção nossa, Fiat, Wolksvagem, Ford, GM, etc.
Montevideo (traduzido para o português, fica Montevidéu, mas eu prefiro o original) é uma cidade calma. Na parte central, tudo gira em torno da Avenida 18 de Julho, que é onde ficam os principais bancos, praças, sedes de governo, prédios históricos e administrativos do Uruguai. Mesmo com tudo concentrado ali, as coisas parecem funcionar tranquilamente; os ônibus velhos andam nos seus lugares, as pessoas caminham na calçada e não na rua, o chão é limpo em comparação com cidades do mesmo tamanho, as sinaleiras funcionam, quase não se ouve barulhos de buzinas, tudo parece estar em harmonia.

eu na Plaza Independencia, ao fundo a 18 de Julho.
Mate
Um fato curioso é que, independe da hora do dia, os uruguaios sempre carregam a térmica e a cuia para o mate. Pude conferir isso de manhã bem cedinho, pelo meio dia, depois do almoço, à tardinha, até à noite... sempre com o mate, tantos os jovens quantos os mais velhos, mulheres e homens, seja na 18 de Julho ou nas ruas paralelas menos movimentadas.
Algo que me intrigou de início é que o mate parecia um chá, não tinha o tradicional morrinho que fazemos por aqui, era a bomba perdida na cuia sem lugar certo, como um canudinho em um copo de refri. Depois, comprei uma erva num mercado e percebi o motivo disso: a erva deles é muito ruim. Fina, parece aquele pó de se fazer chá-mate, não há morrinho que dure - ainda mais com aquele vento forte que sopra em Montevideo . Tentei fazer um morrinho, mas já no terceiro mate tudo desabou, e meu mate ficou igual ao dos uruguaios. Ainda assim continuei tomando, e ele até que demorou mais do que o normal para ficar "lavado". O gosto é um pouco mais fraco que o nosso, acho que por a erva ser mais fina, mais misturada que a nossa. Mas, definitivamente, o nosso mate/chimarrão é melhor.
Carros
Os carros são quase todos de motor à diesel. Nos acostumamos aqui a ver só caminhonetes, ônibus, caminhões - veículos grandes em geral - com esse tipo de motor, e reconhecemos aquele ronco caracterísitico que o carrom acaba fazendo quando um desses se aproxima. Mas lá, caminhando pelas ruas, parava numa esquina para atravessar e ouvia aquele ronco que , para mim era característico de carro grande, vindo de tudo quanto é tipo de carro, principalmente dos pequenos , corsas, celtas, clios, gols, paratis, todos esses. Estranhava muito, o que me fez ficar cuidando para ver se encontrava algum carro que não tivesse aquele ronco, mas era extremamente difícil. Numa proporção de cabeça, diria que de 90 a 95% dos carros uruguaios são à diesel.
Percebe-se que o DETRAN deles não fiscaliza muito os carros velhos. Há de todos os tipos; fusca caindo aos pedaços, corcel sem uma lasca de pintura, fubicas não se sabe como andando de tão velhas, até mesmo carros novos com batidas no parachoques não consertadas, com a porta estragada, o vidro de trás quebrado.
Há uma justificativa para isso, acho eu: encontrei um carro desses velhos, mas ainda não caindo aos pedaços, por 9000 pesos, o que dá algo perto de R$ 900 reais. Muito barato se comparado aos daqui.
As marcas dos carros de lá são quase as mesmas dos daqui,e não poderia ser diferente, já que a grande maioria é importado do Brasil e da Argentina. Há um ligeiro maior número de carros da Renault que aqui, assim como também acontece na Argentina, onde as fábricas da montadora francesa são mais antigas .No mais, é a mesma proporção nossa, Fiat, Wolksvagem, Ford, GM, etc.
quarta-feira, outubro 19, 2005
Volta à realidade
Pois bem, depois de alguns dias viajando (mais especificamente 6 dias), a volta a realidade sempre é cruel, as lembranças dos lugares visitados sempre tornam a comparação com a nossa casa desigual, por melhor que nosso lar seja, e demora-se alguns dias até que as lembranças diminuam o , digamos, "domínio de sensações" que as memórias da viagem a todo momento se fazem lembrar.
Hoje é dia de sol forte, calor mas com vento; o mesmo clima de praticamente toda a nossa viagem pelo Uruguai, então saio na rua e lembro do Uruguai, dos lugares que o vento forte causou algo interessante que me fez lembrar mais do que outras coisas e assim por diante. Mas com a quantidade de viagens vem também uma mais rápida "acostumação" da realidade.
Aos poucos, vou colocando impressões de lá, fotos e outras coisas, já que o que era para ser um diário de viagem se tornou apenas um meio diário - um terço de diário - principalmente pelo difícil acesso à cybercafés pelo caminho, mas também por ser mais díficil "analisar" um lugar, contar impressões , estando nele. Um certo distanciamento é saudável para se que as lembranças amadureçam...

Essa é a Peatonal Sarandí da Ciudad Veja, bem no centro de Montevideo. Basicamente, é um caminho de algumas quadras de um tipo dum calçadão onde ficam bares, restaurantes, lojas, antiquários, praças, e que a noite é onde se concentram o movimento das pessoas. Nas ruas paralelas ao caminho há uma grande concentração de pubs, dos mais variados gostos. Os uruguaios gostam muito de se sentar nos pubs, tomarem suas cervejas de litro (Pilsen, preferencialmente, mas também Norteña, Patricia, Heineken...) e conversarem bastante, ao som de rock,tango, música flamenca e mais outros estilos, mas em sua maioria esses. Há bastante jovens, mas também há bastante adultos de seus 30, 40 e até 50 e poucos anos. Em sua maioria, mulheres. Mas essas merecem um capítulo à parte, que eu deixarei para amanhã ou depois.
Hoje é dia de sol forte, calor mas com vento; o mesmo clima de praticamente toda a nossa viagem pelo Uruguai, então saio na rua e lembro do Uruguai, dos lugares que o vento forte causou algo interessante que me fez lembrar mais do que outras coisas e assim por diante. Mas com a quantidade de viagens vem também uma mais rápida "acostumação" da realidade.
Aos poucos, vou colocando impressões de lá, fotos e outras coisas, já que o que era para ser um diário de viagem se tornou apenas um meio diário - um terço de diário - principalmente pelo difícil acesso à cybercafés pelo caminho, mas também por ser mais díficil "analisar" um lugar, contar impressões , estando nele. Um certo distanciamento é saudável para se que as lembranças amadureçam...

Essa é a Peatonal Sarandí da Ciudad Veja, bem no centro de Montevideo. Basicamente, é um caminho de algumas quadras de um tipo dum calçadão onde ficam bares, restaurantes, lojas, antiquários, praças, e que a noite é onde se concentram o movimento das pessoas. Nas ruas paralelas ao caminho há uma grande concentração de pubs, dos mais variados gostos. Os uruguaios gostam muito de se sentar nos pubs, tomarem suas cervejas de litro (Pilsen, preferencialmente, mas também Norteña, Patricia, Heineken...) e conversarem bastante, ao som de rock,tango, música flamenca e mais outros estilos, mas em sua maioria esses. Há bastante jovens, mas também há bastante adultos de seus 30, 40 e até 50 e poucos anos. Em sua maioria, mulheres. Mas essas merecem um capítulo à parte, que eu deixarei para amanhã ou depois.
sábado, outubro 15, 2005
Diário de Viagem (2)
Buenas, cá estamos. Nao consegui postar ontem, esgotou o tempo, uma falha grave que pretendo consertar hoje.
Na quinta, pegamos 3 caronas até Livramento. Em Sao Vicente, a coisa foi complicada, demoramos quase duas horas, mas , por sorte, pegamos uma bem na hora que comecou a chuver. E que chuva! No caminho para Cacequi, choveu até pedra.
Chegamos pelas 8 em Livramento, jantamos e conseguimos pegar o onibus da meia noite e meia para Montevideo. Chuvia bastante, estávamos cansado, acabou sendo a melhor alternativa.
6 horas chegamos em Montevideo. O horário de verao aqui já está em vigor, adiantamos o relógio em uma hora e fomos andar pela cidade. Temperatura agradável, amanhecendo , as pessoas indo trabalhar.
Aqui as coisas giram em torno da Avenida 18 de Julho, a principal da cidade. Nem parece que a cidade tem mais de um milhao de habitantes, as coisas sao tudo meio perto, tudo em volta dessa avenida.
Depois de andar nos arredores da 18 Julho atás de um hotel bom e barato, acabamos achando um nem tao bom, nem tao barato, mas suficiente, na avenida Uruguay esquina com a Rio Branco, tres quadras da 18 de Julho. Alpey o nome do hotel. Conseguimos um desconto de alguns pesos com o gerente-porteiro e fomos para o quarto, que fica numa ala onde era um casarao antigo, com aqueles corredores enormes, o chao de madeira que faz ressoar longe os passos. O quarto é simples, grande.

Descansamos um pouco (umas 3 horas) e fomos conhecer a cidade. Tiramos umas fotos, conhecemos os arredores da plaza Independencia, que é bem o centro da cidade, as ruelinhas que lembram bastante Cuba, os arredores do porto. Tomamamos uma Pilsen no Mercado Publico...

Conhecemos mais alguns lugres, tomamos um mate na beira do Rio da Prata. Aliás, mate é algo que todos uruguaios tomam, na rua a castelhanada toda anda com sua térmica debaixo do braco e a bomba atravessada nos queixo...
De noite, fomos conhecer os bares, tomar algumas cevas, etc. Mas como nao tenho muito tempo, quando chegar conto mais detalhes (ou nao...)
Ficaremos aqui até domingo, depois vamos subir o litoral uruguaio até o Chuy, onde pretendemos chegar segunda ou terca...
Outra foto por lá...

P.s 1 Uso o plural porque estamos eu e o André.
P.s 2 Nao me adaptei ao teclado daqui, que é bastante diferente. Entao algumas coisas saem estranhas, sem acentos principalmente...
Na quinta, pegamos 3 caronas até Livramento. Em Sao Vicente, a coisa foi complicada, demoramos quase duas horas, mas , por sorte, pegamos uma bem na hora que comecou a chuver. E que chuva! No caminho para Cacequi, choveu até pedra.
Chegamos pelas 8 em Livramento, jantamos e conseguimos pegar o onibus da meia noite e meia para Montevideo. Chuvia bastante, estávamos cansado, acabou sendo a melhor alternativa.
6 horas chegamos em Montevideo. O horário de verao aqui já está em vigor, adiantamos o relógio em uma hora e fomos andar pela cidade. Temperatura agradável, amanhecendo , as pessoas indo trabalhar.
Aqui as coisas giram em torno da Avenida 18 de Julho, a principal da cidade. Nem parece que a cidade tem mais de um milhao de habitantes, as coisas sao tudo meio perto, tudo em volta dessa avenida.
Depois de andar nos arredores da 18 Julho atás de um hotel bom e barato, acabamos achando um nem tao bom, nem tao barato, mas suficiente, na avenida Uruguay esquina com a Rio Branco, tres quadras da 18 de Julho. Alpey o nome do hotel. Conseguimos um desconto de alguns pesos com o gerente-porteiro e fomos para o quarto, que fica numa ala onde era um casarao antigo, com aqueles corredores enormes, o chao de madeira que faz ressoar longe os passos. O quarto é simples, grande.

Descansamos um pouco (umas 3 horas) e fomos conhecer a cidade. Tiramos umas fotos, conhecemos os arredores da plaza Independencia, que é bem o centro da cidade, as ruelinhas que lembram bastante Cuba, os arredores do porto. Tomamamos uma Pilsen no Mercado Publico...

Conhecemos mais alguns lugres, tomamos um mate na beira do Rio da Prata. Aliás, mate é algo que todos uruguaios tomam, na rua a castelhanada toda anda com sua térmica debaixo do braco e a bomba atravessada nos queixo...
De noite, fomos conhecer os bares, tomar algumas cevas, etc. Mas como nao tenho muito tempo, quando chegar conto mais detalhes (ou nao...)
Ficaremos aqui até domingo, depois vamos subir o litoral uruguaio até o Chuy, onde pretendemos chegar segunda ou terca...
Outra foto por lá...

P.s 1 Uso o plural porque estamos eu e o André.
P.s 2 Nao me adaptei ao teclado daqui, que é bastante diferente. Entao algumas coisas saem estranhas, sem acentos principalmente...
quinta-feira, outubro 13, 2005
Diário de Viagem (1)
Estamos partindo ao meio dia. Espero estar à noite em Santana do Livramento, mas nessas andanças nunca se sabe, então não me surpeendo se , à noite, estivermos em:
a)Uruguaiana
b)Alegrete
c)Rósário do Sul
d) Bagé
e)ainda São Vicente do Sul
Qualquer outro lugar - fora Livramento, claro - vai ser surpresa. O calor, o sol forte até ajudam a conseguir carona, mas a chuva que promete vir amanhã pode ser um empecilho para os futuros planos. Mas o bom dessa vida é que nunca se sabe: o que em determinada circunstâncias poderia ser motivo de apreensão, aqui pode ser motivo para se surpeender com a capacidade de se enfrentar adversidades. Algo como um tempero forte, que dá um gosto tão bom na comida que depois não se imagina como nós queríamos comer aquela comida sem o bendito tempero.
a)Uruguaiana
b)Alegrete
c)Rósário do Sul
d) Bagé
e)ainda São Vicente do Sul
Qualquer outro lugar - fora Livramento, claro - vai ser surpresa. O calor, o sol forte até ajudam a conseguir carona, mas a chuva que promete vir amanhã pode ser um empecilho para os futuros planos. Mas o bom dessa vida é que nunca se sabe: o que em determinada circunstâncias poderia ser motivo de apreensão, aqui pode ser motivo para se surpeender com a capacidade de se enfrentar adversidades. Algo como um tempero forte, que dá um gosto tão bom na comida que depois não se imagina como nós queríamos comer aquela comida sem o bendito tempero.
terça-feira, outubro 11, 2005
Experimentações (literárias?)
Como tudo aqui, esse texto está sujeito a alterações. Aliás, mais do que os outros, pois esse certamente irei alterar depois, mas posto hoje para ver o que mudarei na vez em que alterá-lo.
Um experimento para comprovar que muito do texto, principalmente o final, depende do estado de espírito em que estamos na hora de escrevê-lo, e que é bastante saudável , na maioria dos casos, deixar o texto amadurecer, como um bom vinho, para passado algum tempo ver se ele ainda conserva o mesmo sabor sentido logo depois de seu término, ou se aumentou, diminiui, mudou completamente.
Eu queria passar na ponte de carro e nadar, só isso.
Então, decidi que era hoje que iria até lá, naquela noite. De uma festa que estava ruim demais, onde o champanhe tinha gosto de sangue e as pessoas fingiam que isso era bom, fui de carro até a ponte, que era distante da festa alguns bons quilômetros. Em um cruzamento já afastado da cidade, peguei à direita numa estradinha de chão batido e de lá segui até a ponte com os milharais me acompanhando, bêbados, agitados, gritando para tentar me dispersar, e , quem sabe, me fazer dormir com eles, ali mesmo.
Chegaram a gritar tanto que perderam a voz, e a lua finalmente conseguiu ouvir meus apelos e se tornou minha guia. Naquele céu estrelado, sem uma nuvem, ela funcionava como um farol para um barco que sabe onde está a costa, mas está embriagado o suficiente para não lembrar mais onde atracar.
Depois de algum tempo no imenso silêncio, cheguei na ponte. Ela estava ali como sempre esteve, me esperando, e dessa vez parecia mais linda ainda – cortesia da minha guia, que a iluminava como um grande sol num filme preto-e-branco. Não tinha muito controle dos meus atos, mas os meus sentidos estavam até mais aguçados, e talvez por isso consegui escutar com clareza a limpidez das águas, o bater suave nas pedras, a correnteza forte que levava tanta água que eu comecei a achar que as pedras não iriam agüentar, principalmente uma menor que estava sozinha, metade fora metade dentro d’água, tão pequena e inocente para estar ali, ao lado de tantas maiores e resistentes, como que esperando o destino cruel que a levaria rio abaixo até a grande cachoeira que o partiria em vários pedaços.
Parei o carro em cima da ponte, tirei o terno apertado, e , nú, me joguei dali de cima. Por algo que eu não entendo até hoje, não lembrei de mais nada depois. Sei exatamente do que aconteceu antes da onda preta aparecer. Foi assim: quando me joguei, vi as águas correndo, bem escuras, a pedrinha solitária ali me chamando, Venha se juntar a mim vamos ser solitários juntos, e algumas espalhadas que foram ficando cada vez mais juntas, maiores, e então veio uma onda meio amarela nos olhos e depois a preta, o breu.
Um experimento para comprovar que muito do texto, principalmente o final, depende do estado de espírito em que estamos na hora de escrevê-lo, e que é bastante saudável , na maioria dos casos, deixar o texto amadurecer, como um bom vinho, para passado algum tempo ver se ele ainda conserva o mesmo sabor sentido logo depois de seu término, ou se aumentou, diminiui, mudou completamente.
Eu queria passar na ponte de carro e nadar, só isso.
Então, decidi que era hoje que iria até lá, naquela noite. De uma festa que estava ruim demais, onde o champanhe tinha gosto de sangue e as pessoas fingiam que isso era bom, fui de carro até a ponte, que era distante da festa alguns bons quilômetros. Em um cruzamento já afastado da cidade, peguei à direita numa estradinha de chão batido e de lá segui até a ponte com os milharais me acompanhando, bêbados, agitados, gritando para tentar me dispersar, e , quem sabe, me fazer dormir com eles, ali mesmo.
Chegaram a gritar tanto que perderam a voz, e a lua finalmente conseguiu ouvir meus apelos e se tornou minha guia. Naquele céu estrelado, sem uma nuvem, ela funcionava como um farol para um barco que sabe onde está a costa, mas está embriagado o suficiente para não lembrar mais onde atracar.
Depois de algum tempo no imenso silêncio, cheguei na ponte. Ela estava ali como sempre esteve, me esperando, e dessa vez parecia mais linda ainda – cortesia da minha guia, que a iluminava como um grande sol num filme preto-e-branco. Não tinha muito controle dos meus atos, mas os meus sentidos estavam até mais aguçados, e talvez por isso consegui escutar com clareza a limpidez das águas, o bater suave nas pedras, a correnteza forte que levava tanta água que eu comecei a achar que as pedras não iriam agüentar, principalmente uma menor que estava sozinha, metade fora metade dentro d’água, tão pequena e inocente para estar ali, ao lado de tantas maiores e resistentes, como que esperando o destino cruel que a levaria rio abaixo até a grande cachoeira que o partiria em vários pedaços.
Parei o carro em cima da ponte, tirei o terno apertado, e , nú, me joguei dali de cima. Por algo que eu não entendo até hoje, não lembrei de mais nada depois. Sei exatamente do que aconteceu antes da onda preta aparecer. Foi assim: quando me joguei, vi as águas correndo, bem escuras, a pedrinha solitária ali me chamando, Venha se juntar a mim vamos ser solitários juntos, e algumas espalhadas que foram ficando cada vez mais juntas, maiores, e então veio uma onda meio amarela nos olhos e depois a preta, o breu.
domingo, outubro 09, 2005
Uma crônica
Eu fiz essa crônica com a intenção de mandar para um concurso de ex-alunos da UFSM. Como eles abriram para os alunos atuais, pensei em fazer. Mas precisava de um "padrinho" entre os ex-alunos. E eu não consegui nenhum. Então, vou colocar ela aqui mesmo, pelo menos alguém vai ler.
AH! É uma história verídica.
O MATE COM PAIEIRO NO CAMPUS
Certa vez, alguém me disse que fumar um paieiro e tomar um mate no campo, deitado, olhando para o céu muito mais estrelado que o normal na cidade, era algo espetacular e indescritível, daquelas coisas que um homem deve fazer algum dia na vida – assim como plantar uma árvore, escrever um livro e ter um filho, segundo aquele ditado bem conhecido. Como na época não fumava e era um recém iniciado no mate - ainda não era capaz de sentir verdadeiro prazer a ponto de tomar um sozinho – achei que isso era bobagem. Era invenção de quem tinha lido As aventuras de Tom Sawyer, do escritor americano Mark Twain, e resolveu adaptar a situação lida às tradições gaúchas, pensei. No livro, Tom e seus amigos, no desabrochar da flor da infância para a adolescência, tem como um de seus grande prazeres ir para as matas além da vila onde moram, na beira do grande rio Mississipi, e sentar-se por lá, fumando um paieiro. O prazer se dá mais pelo proibido da situação do que pelo prazer propriamente dito causado pelo fumo. Tinha escutado isso há bastante tempo, na minha já distante infância no interior.
Pois bem. Numa dessas andanças de carro pelas noites do inverno santa-mariense, lembrei dessa história. Como naqueles estalos que vêm muito depois de se querer, subia a Fernando Ferrari com mais dois amigos , a cabeça grudada na janela do lado olhando para o céu límpido, quando surgiu a idéia:
_ Vamos fumar um paieiro e tomar um mate no bosque do campus!
Silêncio sepulcral de 3 segundos. A resposta veio do meu lado, no banco do motorista:
_ Ué, vamos. Nesse frio...
_ Fazemos uma fogueira, daí! – disse o de trás.
Todos concordaram.
Passamos em casa, pegamos cuia, térmica, bomba, esquentamos a água. Passei no quarto do meu pai e busquei lá no fundo do roupeiro, dentro de uma caixa de sapato, o fumo em corda e as palhas in natura, saídas direto do milharal . Fomos.
Era depois da meia noite, estava perto duns cinco graus na rua. No caminho, pensamos , dentre outras maluquices, em alguma forma de despistar o guardinha da entrada do campus, que achamos que iria complicar com a nossa presença ali àquela hora . Mas era tão mais fácil falar que íamos visitar um amigo na casa do estudante que nem pensamos em inventar alguma história mirabolante.
Da entrada fácil (nem perguntaram nada, apenas pediram o RG de cada um, sabe se lá pra quê) até estacionarmos em frente à reitoria foram três minutos contados no meu relógio. O campus estava vazio, com algumas poucas luzes e barulhos vindos do primeiro prédio da CEU II , aquele mais antigo.
O bosque praticamente tem só aquelas árvores de tronco alto, com muitos metros acima da nossa cabeça, e isso o torna , principalmente à noite, bastante assustador.
Na entrada, olhei para cima e - eu senti isso, juro – pareceu que as árvores se tornariam enormes guardas com armaduras, lanças e escudos só esperando que entrássemos para desferir o golpe mortal que nos desacordaria, para , no outro dia , início da manhã, algum guarda do campus vir nos perguntar “o que vocês fazem aí a essa hora?”.
Entramos devagar, olhando bem para os lados. Apesar de dar medo, a visão era muito bonita, a claridade do céu estrelado entrava pelo meio das árvores, dando um belo contraste claro/escuro no chão. Era como se estivéssemos num filme preto e branco, e o estar ali , bem no meio do bosque, longe o suficiente pra vermos a saída em um pontinho branco lá no fundo, nos dava a nítida sensação de fazermos parte de um filme de faroeste americano, justamente naqueles momentos da parada para descanso da turma do bandido – que normalmente acontece em matas, para evitar a exposição que traria uma área mais aberta.
Passada a ponte sobre o riachinho, alguns metros à direita da estrada, sentamos num tronco caído, colhemos uns tocos de lenha ali pela volta, e fizemos a fogueira. Sentei, olhei para o céu entre as árvores, vi as Três Marias brilhando como nunca , tirei o fumo em corda. O aroma forte de fumo caseiro que saiu nos embriagou de vontade de fumar. O fogo já estava estabelecido, o mate já começava a rodar pelas seis mãos presentes; piquei todo o fumo, juntei a palha, acendi e soltei aquela tragada forte que só os bons fumos possibilitam. Passei o paieiro, recebi o mate, e aquela água quente na garganta desceu como nunca, deixando o gosto forte e amargo do fumo ainda mais forte e amargo, infinitamente mais agradável.
Nem lembrei mais do frio, do medo, dos bandidos, do contraste, das árvores enormes nos vigiando (ai se elas contam para o reitor!), dos guardas, das luzes já tão longe.
Só levantamos dali quando acabou a água.
AH! É uma história verídica.
O MATE COM PAIEIRO NO CAMPUS
Certa vez, alguém me disse que fumar um paieiro e tomar um mate no campo, deitado, olhando para o céu muito mais estrelado que o normal na cidade, era algo espetacular e indescritível, daquelas coisas que um homem deve fazer algum dia na vida – assim como plantar uma árvore, escrever um livro e ter um filho, segundo aquele ditado bem conhecido. Como na época não fumava e era um recém iniciado no mate - ainda não era capaz de sentir verdadeiro prazer a ponto de tomar um sozinho – achei que isso era bobagem. Era invenção de quem tinha lido As aventuras de Tom Sawyer, do escritor americano Mark Twain, e resolveu adaptar a situação lida às tradições gaúchas, pensei. No livro, Tom e seus amigos, no desabrochar da flor da infância para a adolescência, tem como um de seus grande prazeres ir para as matas além da vila onde moram, na beira do grande rio Mississipi, e sentar-se por lá, fumando um paieiro. O prazer se dá mais pelo proibido da situação do que pelo prazer propriamente dito causado pelo fumo. Tinha escutado isso há bastante tempo, na minha já distante infância no interior.
Pois bem. Numa dessas andanças de carro pelas noites do inverno santa-mariense, lembrei dessa história. Como naqueles estalos que vêm muito depois de se querer, subia a Fernando Ferrari com mais dois amigos , a cabeça grudada na janela do lado olhando para o céu límpido, quando surgiu a idéia:
_ Vamos fumar um paieiro e tomar um mate no bosque do campus!
Silêncio sepulcral de 3 segundos. A resposta veio do meu lado, no banco do motorista:
_ Ué, vamos. Nesse frio...
_ Fazemos uma fogueira, daí! – disse o de trás.
Todos concordaram.
Passamos em casa, pegamos cuia, térmica, bomba, esquentamos a água. Passei no quarto do meu pai e busquei lá no fundo do roupeiro, dentro de uma caixa de sapato, o fumo em corda e as palhas in natura, saídas direto do milharal . Fomos.
Era depois da meia noite, estava perto duns cinco graus na rua. No caminho, pensamos , dentre outras maluquices, em alguma forma de despistar o guardinha da entrada do campus, que achamos que iria complicar com a nossa presença ali àquela hora . Mas era tão mais fácil falar que íamos visitar um amigo na casa do estudante que nem pensamos em inventar alguma história mirabolante.
Da entrada fácil (nem perguntaram nada, apenas pediram o RG de cada um, sabe se lá pra quê) até estacionarmos em frente à reitoria foram três minutos contados no meu relógio. O campus estava vazio, com algumas poucas luzes e barulhos vindos do primeiro prédio da CEU II , aquele mais antigo.
O bosque praticamente tem só aquelas árvores de tronco alto, com muitos metros acima da nossa cabeça, e isso o torna , principalmente à noite, bastante assustador.
Na entrada, olhei para cima e - eu senti isso, juro – pareceu que as árvores se tornariam enormes guardas com armaduras, lanças e escudos só esperando que entrássemos para desferir o golpe mortal que nos desacordaria, para , no outro dia , início da manhã, algum guarda do campus vir nos perguntar “o que vocês fazem aí a essa hora?”.
Entramos devagar, olhando bem para os lados. Apesar de dar medo, a visão era muito bonita, a claridade do céu estrelado entrava pelo meio das árvores, dando um belo contraste claro/escuro no chão. Era como se estivéssemos num filme preto e branco, e o estar ali , bem no meio do bosque, longe o suficiente pra vermos a saída em um pontinho branco lá no fundo, nos dava a nítida sensação de fazermos parte de um filme de faroeste americano, justamente naqueles momentos da parada para descanso da turma do bandido – que normalmente acontece em matas, para evitar a exposição que traria uma área mais aberta.
Passada a ponte sobre o riachinho, alguns metros à direita da estrada, sentamos num tronco caído, colhemos uns tocos de lenha ali pela volta, e fizemos a fogueira. Sentei, olhei para o céu entre as árvores, vi as Três Marias brilhando como nunca , tirei o fumo em corda. O aroma forte de fumo caseiro que saiu nos embriagou de vontade de fumar. O fogo já estava estabelecido, o mate já começava a rodar pelas seis mãos presentes; piquei todo o fumo, juntei a palha, acendi e soltei aquela tragada forte que só os bons fumos possibilitam. Passei o paieiro, recebi o mate, e aquela água quente na garganta desceu como nunca, deixando o gosto forte e amargo do fumo ainda mais forte e amargo, infinitamente mais agradável.
Nem lembrei mais do frio, do medo, dos bandidos, do contraste, das árvores enormes nos vigiando (ai se elas contam para o reitor!), dos guardas, das luzes já tão longe.
Só levantamos dali quando acabou a água.
quarta-feira, outubro 05, 2005
Luto
.
Devido à morte do meu vô.
Grande pessoa, honesto, trabalhador, criou uma família linda a custo de muito trabalho e reza. Saiu do interior do interior, veio pra cidade, abriu uma empresa, criou e educou 10 filhos, todos bem sucedidos profissionalmente (engenheiro, administradores de empresa, médica, professoras, fisioterapeuta, jornalista), sempre ajudou quem precisava das mais variadas formas, sempre tão simples e correto nas suas idéias.
Um grande ídolo.
Se alguém conseguir ser metade do que ele conseguiu ser nessa vida já pode se sentir orgulhoso de ter sido alguém muito importante para uma cidade.
..
Devido à morte do meu vô.
Grande pessoa, honesto, trabalhador, criou uma família linda a custo de muito trabalho e reza. Saiu do interior do interior, veio pra cidade, abriu uma empresa, criou e educou 10 filhos, todos bem sucedidos profissionalmente (engenheiro, administradores de empresa, médica, professoras, fisioterapeuta, jornalista), sempre ajudou quem precisava das mais variadas formas, sempre tão simples e correto nas suas idéias.
Um grande ídolo.
Se alguém conseguir ser metade do que ele conseguiu ser nessa vida já pode se sentir orgulhoso de ter sido alguém muito importante para uma cidade.
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domingo, outubro 02, 2005
Lista
Inspirado em um colunista de um site de cultura pop aí, vou abrir a lista com todas as músicas minhas no winamp e deixar tocar no modo aleatório. As 8 primeiras que tocarem eu comento alguma coisa aqui.
1) Hellacopters - Take me on
Boa música da banda de hard rock lá da Suécia (ou seria Dinamarca?, não lembro). Pesada, rápida, com aquele solinho clássico de hard rock no meio e depois a repetição do refrão, e um outro solo vai tocando até o final, junto da voz.
2)Mundo Livre S.A - E a vida se fez de louca
Sambinha dos pernambucanos do Mundo Livre, banda que apareceu junto da Nação Zumbi na explosão MangueBeat. A letra é meio algo como socialista/crítica ao capitalismo com uma história de amor. O cavaquinho toma a frente da condução da melodia, mas tem uns barulhos eletrônicos e uma pitada rock na bateria, tudo bem característico da banda. " Deus me dê fígado porque temos uma vida pela frente" realça o tom "música de boteco pra se tomar cerveja discutindo a situação do mundo".
3) Teenage Fanclub - Alcoholiday
Power-pop clássico do quarterto inglês. Uma guitarrinha pesada, uma letra melosa loser, um vocal meio choroso = melodia extremamente assobiável, que gruda na cabeça e só sai dali se substituída por outra completamente diferente.
4) Franz Ferdinand - Michael
Essa é a legítima música de gay. Faz vários dançarem freneticamente e boiolamente.
A letra: "So sexy, I'm sexy,so come and dance with me Michael" e a entonação da voz, meio que sussurando no ouvido, é de uma viadagem suprema, quase um convite para dois viados se esfregarem e cantarem um no ouvido do outro a letra. Mesmo assim, uma boa banda, e a música diverte, a melodia é bem típica do pos-punk alegre dos anos 80, apesar de a banda ser de hoje.
5) Andromeda - Too Old
Banda do final dos anos 60 que descobri por acaso lendo uma revista. Rock'roll tradicional, psicodélico. Boa para aquelas festas "revival" e para se agitar um pouco antes de sair para uma festa que só vai tocar música "dançante".
6)Jeff Buckley - Mojo pinEssa é triste. Aliás, na voz do Jeff Buckley quase tudo fica triste. Alguns sussuros no início, gritos bem afinados ( ele canta muuito), uma letra bem, digamos, poética. A maioria das letras dele é assim, profundas, de fazer a gente pensar e a forma como ele canta as letras dá uma angústia, parece que ele sofre em muito em ter de dizer aquilo. Um rock com um quê de folk por causa da guitarra quase sem distorção, que em momentos lembra um violão. O refrão: "Don’t wanna weep for you, I don’t wanna know
I’m blind and tortured, the white horses flow , The memories fire, the rhythms fall slow Black beauty I love you so". É uma versão ao vivo, que é ainda mais emocionante.
7) John Frusciante - Carvel
O guitarrista do Red Hot é um cara esquizofrênico. Quase morreu de tanto se chapar, voltou pra banda e agora té limpinho. Mas as sequelas continuaram pra sempre...
Os mais recentes albuns solos dele são excelentes, baladinhas no violão e a voz , se não é das mais afinadas, pelo menos não compromete. As melodias levadas quase sempre ao violão são belíssimas - é aí o ponto forte dele - mas aquela "loucura" está sempre presente nas músicas, seja na forma dos gritos angustiados dele ou na levada do violão, no ritmo...
8) Mad Season - i'm above
Projeto paralelo do vocalista do Alice in Chains, Layne Staley, com o guitarrista do Pearl Jam, Mike McCready, e mais dois ex-integrantes de bandas de Seattle. Muito bom. Tem um toque "blues", uma percussão meio world music( em algumas músicas, algo que inexiste nas bandas originais dos integrantes . É um som mais calmo, a guitarra soa mais limpa, menos pesada, com us toques psicodélicos até. E a voz do Layne... Continua excelente como sempre, mais dosada de gritos do que com o Alice in Chains.
A música é do único album deles, Above, que é de 95.
1) Hellacopters - Take me on
Boa música da banda de hard rock lá da Suécia (ou seria Dinamarca?, não lembro). Pesada, rápida, com aquele solinho clássico de hard rock no meio e depois a repetição do refrão, e um outro solo vai tocando até o final, junto da voz.
2)Mundo Livre S.A - E a vida se fez de louca
Sambinha dos pernambucanos do Mundo Livre, banda que apareceu junto da Nação Zumbi na explosão MangueBeat. A letra é meio algo como socialista/crítica ao capitalismo com uma história de amor. O cavaquinho toma a frente da condução da melodia, mas tem uns barulhos eletrônicos e uma pitada rock na bateria, tudo bem característico da banda. " Deus me dê fígado porque temos uma vida pela frente" realça o tom "música de boteco pra se tomar cerveja discutindo a situação do mundo".
3) Teenage Fanclub - Alcoholiday
Power-pop clássico do quarterto inglês. Uma guitarrinha pesada, uma letra melosa loser, um vocal meio choroso = melodia extremamente assobiável, que gruda na cabeça e só sai dali se substituída por outra completamente diferente.
4) Franz Ferdinand - Michael
Essa é a legítima música de gay. Faz vários dançarem freneticamente e boiolamente.
A letra: "So sexy, I'm sexy,so come and dance with me Michael" e a entonação da voz, meio que sussurando no ouvido, é de uma viadagem suprema, quase um convite para dois viados se esfregarem e cantarem um no ouvido do outro a letra. Mesmo assim, uma boa banda, e a música diverte, a melodia é bem típica do pos-punk alegre dos anos 80, apesar de a banda ser de hoje.
5) Andromeda - Too Old
Banda do final dos anos 60 que descobri por acaso lendo uma revista. Rock'roll tradicional, psicodélico. Boa para aquelas festas "revival" e para se agitar um pouco antes de sair para uma festa que só vai tocar música "dançante".
6)Jeff Buckley - Mojo pinEssa é triste. Aliás, na voz do Jeff Buckley quase tudo fica triste. Alguns sussuros no início, gritos bem afinados ( ele canta muuito), uma letra bem, digamos, poética. A maioria das letras dele é assim, profundas, de fazer a gente pensar e a forma como ele canta as letras dá uma angústia, parece que ele sofre em muito em ter de dizer aquilo. Um rock com um quê de folk por causa da guitarra quase sem distorção, que em momentos lembra um violão. O refrão: "Don’t wanna weep for you, I don’t wanna know
I’m blind and tortured, the white horses flow , The memories fire, the rhythms fall slow Black beauty I love you so". É uma versão ao vivo, que é ainda mais emocionante.
7) John Frusciante - Carvel
O guitarrista do Red Hot é um cara esquizofrênico. Quase morreu de tanto se chapar, voltou pra banda e agora té limpinho. Mas as sequelas continuaram pra sempre...
Os mais recentes albuns solos dele são excelentes, baladinhas no violão e a voz , se não é das mais afinadas, pelo menos não compromete. As melodias levadas quase sempre ao violão são belíssimas - é aí o ponto forte dele - mas aquela "loucura" está sempre presente nas músicas, seja na forma dos gritos angustiados dele ou na levada do violão, no ritmo...
8) Mad Season - i'm above
Projeto paralelo do vocalista do Alice in Chains, Layne Staley, com o guitarrista do Pearl Jam, Mike McCready, e mais dois ex-integrantes de bandas de Seattle. Muito bom. Tem um toque "blues", uma percussão meio world music( em algumas músicas, algo que inexiste nas bandas originais dos integrantes . É um som mais calmo, a guitarra soa mais limpa, menos pesada, com us toques psicodélicos até. E a voz do Layne... Continua excelente como sempre, mais dosada de gritos do que com o Alice in Chains.
A música é do único album deles, Above, que é de 95.
sábado, outubro 01, 2005
A felicidade nunca me trouxe boas histórias
.
_ A felicidade nunca me trouxe boas histórias...
_ Tá, e tu é um personagem ou um ser humano? de que adianta boas histórias e uma vida infeliz?
..
_ A felicidade nunca me trouxe boas histórias...
_ Tá, e tu é um personagem ou um ser humano? de que adianta boas histórias e uma vida infeliz?
..
quinta-feira, setembro 29, 2005
Percebia
A gente acredita tão piamente em certas coisas.
Pois é.
"Percebia, sim
naquele silêncio todo,
de canto de olho,
como quem não quer nada,
mas deseja acima de tudo
Um amor
alguém pra soltar todos aqueles clichês
"eu te amo, te quero demais, meu docinho"
e não mais ter vergonha
de falar de coisas de que não sabe"
.
Pois é.
"Percebia, sim
naquele silêncio todo,
de canto de olho,
como quem não quer nada,
mas deseja acima de tudo
Um amor
alguém pra soltar todos aqueles clichês
"eu te amo, te quero demais, meu docinho"
e não mais ter vergonha
de falar de coisas de que não sabe"
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segunda-feira, setembro 26, 2005
Amor e samba
Imagine o Rio de janeiro, quadra de alguma escola de samba.
Churrasco assando, cerveja gelada de copo em copo.
Uma rodinha de samba em volta de duas mesas.
Oito pessoas, típicos carioca da gema, tocam pandeiro, violão, cavaquinho, bandolim e outros batuques.
Um puxador é a voz principal, o resto é o coro.
Mulatas sambando, brancas sambando timidamente, velha guarda de branco dançando junto, crianças brincando de pega-pega, jovens paquerando e cantando.
A música é um samba, o esboço do samba-enredo do próximo ano da escola cujo tema do desfile é o Amor.
A letra:
Amor, coisa rara, já foi embora
Bateu na porta, disse Olá, não gostou?
Fico em triste em saber,
que o amor não diz porquê
aparece, vai embora sem dar tchau!
Mas mesmo assim não há quem consiga
Viver sem tê-lo em companhia!
A entonação:
Amoooorrrr, coisa rara/
jáá foi embooraaaa/
bateu na porta disse Olá, Não gooostouuuuu?
Fico em triste em sabeeerrr que o amor não diz porquêêêê/
aparecee, vai embora sem dar tchauuuu!/
Mas mesmo assimm, não há, quem consigaaa
Viver sem tê-looo em compaanhiiaaaa!
! ah, o amor!
Amoorrr, coisa rara...
Churrasco assando, cerveja gelada de copo em copo.
Uma rodinha de samba em volta de duas mesas.
Oito pessoas, típicos carioca da gema, tocam pandeiro, violão, cavaquinho, bandolim e outros batuques.
Um puxador é a voz principal, o resto é o coro.
Mulatas sambando, brancas sambando timidamente, velha guarda de branco dançando junto, crianças brincando de pega-pega, jovens paquerando e cantando.
A música é um samba, o esboço do samba-enredo do próximo ano da escola cujo tema do desfile é o Amor.
A letra:
Amor, coisa rara, já foi embora
Bateu na porta, disse Olá, não gostou?
Fico em triste em saber,
que o amor não diz porquê
aparece, vai embora sem dar tchau!
Mas mesmo assim não há quem consiga
Viver sem tê-lo em companhia!
A entonação:
Amoooorrrr, coisa rara/
jáá foi embooraaaa/
bateu na porta disse Olá, Não gooostouuuuu?
Fico em triste em sabeeerrr que o amor não diz porquêêêê/
aparecee, vai embora sem dar tchauuuu!/
Mas mesmo assimm, não há, quem consigaaa
Viver sem tê-looo em compaanhiiaaaa!
! ah, o amor!
Amoorrr, coisa rara...
domingo, setembro 25, 2005
Domingo em família (2)
à noite
Ato Quatro
Sala
A tv ligada no jogo de um dos dois times da família. Da minoria; dois torcem a favor, seis contra; 'secam' ainda mais com o gol de empate do time adversário e com o nervosismo de um dos que torcem pelo time local que joga. Ele fica brabo, sai da sala. Tios, primos, e uma "intrusa", amiga de uma das tias, secam. Mas o jogo acaba empatado.
Mesa principal e secundária
Estão quase vazias; começa as conversas para qual a melhor maneira de se aproveitar o restante do almoço para se fazer uma boa janta. A prima de vinte e poucos anos, não muito ativa em matéria de preparação de comida, se manifesta. Silêncio entre as tias e a avó.
"Vamos testar nossa sobrinha" devem ter pensado.
Ato Cinco
Mesa Principal
É hora da janta. Corta-se as carnes restantes do meio dia, mistura-se a orégano e azeite, põe-se na panela. Misturada com farofa pronta Ioki, maionese e outras coisas restantes do almoço, está feita a janta. Toma-se vinho, sempre, para acompanhar e temperar as conversas.
O assunto que uniu todos ali ainda é prioridade; todos estão otimistas, as piadas são mais aceitas, os causos - referentes ao assunto,sempre - se tornam mais frequentes. Tios, tias, primos acima dos vinte, os mais velhos. A prima teve a idéia da carne com orégano; mesmo com receio de fazer besteira, tudo ficou muito bom; aprovada. Fará outras vezes?
Mesa Secundária
Primos abaixo dos vinte, tios com dores de cabeça jogam truco.
Sala
Para os que não tem espaço na mesa principal. O Fantástico como pauta para os assuntos. Tias e primos mais novos, com a adição dos que transitam entre a comida da mesa principal e a tv da sala.
Ato Seis
Mesa Principal
Chegam mais tios, juntam-se a mesa. Mais vinhos são trazidos. Sobram os tios na mesa; as mulheres vão para sala.
Mesa Secundária
O truco acabou.
Sala
Tias, primos, priminhas enchem a sala. Olham tv, conversam, as primas brincam, olham fotos. Risadas. A filosofia é motivo de discussão entre duas tias professoras e um primo estudante, que, por ser mais novo, tem a memória melhor e ganha a parada. As tias consentem
Prólogo
Sala
O primo que mora longe começa as despedidas.Há os que ficam, que se despedem rapidamente, pois amanhã o motivo que os uniu ali os unirá novamente. Os que moram longe conversam, se despedem de forma mais demorada - mas nem tanto, pois os fatos os obrigarão a vir em um curto espaço de tempo. É o que todos acham; mas a religião os faz acreditar em milagres, e estes milagres vêm em forma de 'almas' que os acordam e dizem exatamente isso, que eles não precisarão voltar muito breve.
Garagem
Quatro dos sete carros e 16 dos vinte e cinco presentes vão embora.
Há uma sensação de que , às vezes, as coisas ruins servem para trazer algumas coisas boas, não tão perceptíveis, mas igualmente importantes.
A união que o estado de saúde do patriarca proporcionou é uma delas.
Ato Quatro
Sala
A tv ligada no jogo de um dos dois times da família. Da minoria; dois torcem a favor, seis contra; 'secam' ainda mais com o gol de empate do time adversário e com o nervosismo de um dos que torcem pelo time local que joga. Ele fica brabo, sai da sala. Tios, primos, e uma "intrusa", amiga de uma das tias, secam. Mas o jogo acaba empatado.
Mesa principal e secundária
Estão quase vazias; começa as conversas para qual a melhor maneira de se aproveitar o restante do almoço para se fazer uma boa janta. A prima de vinte e poucos anos, não muito ativa em matéria de preparação de comida, se manifesta. Silêncio entre as tias e a avó.
"Vamos testar nossa sobrinha" devem ter pensado.
Ato Cinco
Mesa Principal
É hora da janta. Corta-se as carnes restantes do meio dia, mistura-se a orégano e azeite, põe-se na panela. Misturada com farofa pronta Ioki, maionese e outras coisas restantes do almoço, está feita a janta. Toma-se vinho, sempre, para acompanhar e temperar as conversas.
O assunto que uniu todos ali ainda é prioridade; todos estão otimistas, as piadas são mais aceitas, os causos - referentes ao assunto,sempre - se tornam mais frequentes. Tios, tias, primos acima dos vinte, os mais velhos. A prima teve a idéia da carne com orégano; mesmo com receio de fazer besteira, tudo ficou muito bom; aprovada. Fará outras vezes?
Mesa Secundária
Primos abaixo dos vinte, tios com dores de cabeça jogam truco.
Sala
Para os que não tem espaço na mesa principal. O Fantástico como pauta para os assuntos. Tias e primos mais novos, com a adição dos que transitam entre a comida da mesa principal e a tv da sala.
Ato Seis
Mesa Principal
Chegam mais tios, juntam-se a mesa. Mais vinhos são trazidos. Sobram os tios na mesa; as mulheres vão para sala.
Mesa Secundária
O truco acabou.
Sala
Tias, primos, priminhas enchem a sala. Olham tv, conversam, as primas brincam, olham fotos. Risadas. A filosofia é motivo de discussão entre duas tias professoras e um primo estudante, que, por ser mais novo, tem a memória melhor e ganha a parada. As tias consentem
Prólogo
Sala
O primo que mora longe começa as despedidas.Há os que ficam, que se despedem rapidamente, pois amanhã o motivo que os uniu ali os unirá novamente. Os que moram longe conversam, se despedem de forma mais demorada - mas nem tanto, pois os fatos os obrigarão a vir em um curto espaço de tempo. É o que todos acham; mas a religião os faz acreditar em milagres, e estes milagres vêm em forma de 'almas' que os acordam e dizem exatamente isso, que eles não precisarão voltar muito breve.
Garagem
Quatro dos sete carros e 16 dos vinte e cinco presentes vão embora.
Há uma sensação de que , às vezes, as coisas ruins servem para trazer algumas coisas boas, não tão perceptíveis, mas igualmente importantes.
A união que o estado de saúde do patriarca proporcionou é uma delas.
Domingo em família (1)
Um Domingo de confraternização (?),uma família de origem italiana com aquisições castelhanas, bugras e polonesas, unida ( mesmo que por ocasião que ninguém queria que existisse...), almoçam:
Ato Um:
Mesa principal
As carnes, as saladas verdes com bacon/cebola cozidos (huumnnnnn...), os 'tios', os assadores, os mais velhos, o vinho, a maionese, a conversa alta, os 'causos'.
Mesa secundária
Primos abaixo dos vinte e cinco anos, refrigerantes, televisão, primas menores contando suas 'façanhas', a fase lésbica de toda menina (dos 6 aos 10 anos), a posterior fase das respostinhas, a fase reflexiva e piadística dos acima de 17 anos.
Ato Dois
Mesa Principal
Terminado o almoço. Conversas, mais causos, vinho, sobremesas ( bolo de morango, pudim, merengue), 'tios', primos dos vinte aos trinta, gargalhadas , vinho, futebol, PT, e claro, o motivo de todos estarem ali é o assunto mais discutido, às vezes até com bom humor, o que alguns consideram de mal gosto fazer piadas ou tiradas com assunto tão trágico...
Mesa secundária
Não há mais ninguém; todos na sala, em frente a Tv olhando fotos antigas e achando muita graça de quase tudo. Tias juntam-se a sala, lêem os jornais, comem o bolo, conversam e procuram na tv, com o controle, aquele programa de duas mulheres que mudam o visual de outras mulheres. Quando acham, riem, se divertem, e os primos vão jogar baralho (truco).
Ato Três
Mesa Principal
As mesmas conversas, o vinho, mais gargalhadas e mais silêncios também. Assuntos menos sérios, sono, o mate se aprontando.
Sala
Mais pessoas. Primas se juntam, os primos voltam (cansaram do truco), um primo adolescente passando mal deita e toma Coca, o Remédio Universal.
Trocam-se os canais freneticamente, copos de plástico se acumulam na mesinha e as tias pedem para os seus filhos levarem eles para o lixo, o que não é prontamente atendido.
Então, o sono surge. As tias começam a fechar os olhos, devagar, de uma em uma; os tios, que a essa hora já saíram da mesa e juntaram-se à sala trazendo o mate, 'cabeceiam' lendo o jornal; as primas se retiram para outro lugar, querem conversar. Os primos que restam, valentes, comandam o troca-troca dos canais, até que acham a Fórmula Um e param. Dois dos primos valentes não gostam de corrida. Vão para os quartos se entregar ao sono. Os que restam, aguardam o passar do dia.
Fim da Primeira Parte
Ato Um:
Mesa principal
As carnes, as saladas verdes com bacon/cebola cozidos (huumnnnnn...), os 'tios', os assadores, os mais velhos, o vinho, a maionese, a conversa alta, os 'causos'.
Mesa secundária
Primos abaixo dos vinte e cinco anos, refrigerantes, televisão, primas menores contando suas 'façanhas', a fase lésbica de toda menina (dos 6 aos 10 anos), a posterior fase das respostinhas, a fase reflexiva e piadística dos acima de 17 anos.
Ato Dois
Mesa Principal
Terminado o almoço. Conversas, mais causos, vinho, sobremesas ( bolo de morango, pudim, merengue), 'tios', primos dos vinte aos trinta, gargalhadas , vinho, futebol, PT, e claro, o motivo de todos estarem ali é o assunto mais discutido, às vezes até com bom humor, o que alguns consideram de mal gosto fazer piadas ou tiradas com assunto tão trágico...
Mesa secundária
Não há mais ninguém; todos na sala, em frente a Tv olhando fotos antigas e achando muita graça de quase tudo. Tias juntam-se a sala, lêem os jornais, comem o bolo, conversam e procuram na tv, com o controle, aquele programa de duas mulheres que mudam o visual de outras mulheres. Quando acham, riem, se divertem, e os primos vão jogar baralho (truco).
Ato Três
Mesa Principal
As mesmas conversas, o vinho, mais gargalhadas e mais silêncios também. Assuntos menos sérios, sono, o mate se aprontando.
Sala
Mais pessoas. Primas se juntam, os primos voltam (cansaram do truco), um primo adolescente passando mal deita e toma Coca, o Remédio Universal.
Trocam-se os canais freneticamente, copos de plástico se acumulam na mesinha e as tias pedem para os seus filhos levarem eles para o lixo, o que não é prontamente atendido.
Então, o sono surge. As tias começam a fechar os olhos, devagar, de uma em uma; os tios, que a essa hora já saíram da mesa e juntaram-se à sala trazendo o mate, 'cabeceiam' lendo o jornal; as primas se retiram para outro lugar, querem conversar. Os primos que restam, valentes, comandam o troca-troca dos canais, até que acham a Fórmula Um e param. Dois dos primos valentes não gostam de corrida. Vão para os quartos se entregar ao sono. Os que restam, aguardam o passar do dia.
Fim da Primeira Parte
quarta-feira, setembro 21, 2005
Quem sabe
"Quem sabe, faz. Quem não sabe, ensina. Quem não sabe ensinar, ensina a ensinar. E quem não sabe ensinar a ensinar, vira crítico".
Peguei essa citação de uma entrevista do Antonio Abujamra, o grande provocador. Não é dele a frase, mas não sei de quem é.
Peguei essa citação de uma entrevista do Antonio Abujamra, o grande provocador. Não é dele a frase, mas não sei de quem é.
terça-feira, setembro 20, 2005
Los Hermanos
"Fez-se mar
Sem ar no meu penar
Demora não, demora não
Vai ver, o acaso entregou
Alguém pra lhe dizer
O que qualquer dirá
Parece que o amor chegou aí
Eu não estava lá, mas eu vi "
Overdose de Los Hermanos, do último CD. A cada nova escutada descubro alguns achados nas letras, uns jogos de palavras interessantes, uma história bem contada.
As letras desse álbum, ao meu ver, são a mais pura poesia, daquelas que a gente lê uma coisa e relê outra, sempre despertando novas interpretações, acionando a nossa inteligência. São todas bastante subjetivas, podendo até na primeira escutada parecer sem sentido ou sem nexo.
Mas é engraçado, não consigo enjoar. Cada dia tem uma melhor música do CD. As letras são completamente diferente de tudo que é feito na música brasileira atual, muito superiores no lirismo. Da dó de escutar uma música brasileira bastante tocada em rádio (CPM 22, por exemplo) e , inevitavelmente, comparar às do Los Hermanos. É outro nível, um outro patamar de subjetividade, de poesia.
Olha essa, simples e bela declaração de amor.
Paquetá
Ah, seu eu aguento ouvir
outro não, quem sabe um talvez
ou um sim
eu mereço enfim
é que eu já sei de cor
qual o quê dos quais
e poréns, dos afins, pense bem
ou não pense assim
eu zanguei numa cisma eu sei
tanta birra é pirraça e só
que essa teima era eu não vi
e hesitei, fiz o pior
do amor amuleto que eu fiz
deixei por aí
descuidei dele quase larguei
quis deixar cair
(tst tst)
Mas não deixei
peguei no ar
e hoje eu sei
sem você sou pá furada
Ai! Não me deixe aqui
o sereno dói
eu sei, me perdi
mas eu só me acho em ti
Que desfeita, intriga, o ó
Um capricho essa rixa e mal
Do imbrólio que qui-pro-có
e disso bem fez-se esse nó
e desse engodo eu vi luzir
de longe o teu farol
minha ilha perdida aí
o meu pôr do sol
É um deleite para se escutar, pensar, refletir, ler, despertar a inteligência acomodada com tantas coisas que nos são jogadas prontas, sem qualquer espaço para se pensar.
Sem ar no meu penar
Demora não, demora não
Vai ver, o acaso entregou
Alguém pra lhe dizer
O que qualquer dirá
Parece que o amor chegou aí
Eu não estava lá, mas eu vi "
Overdose de Los Hermanos, do último CD. A cada nova escutada descubro alguns achados nas letras, uns jogos de palavras interessantes, uma história bem contada.
As letras desse álbum, ao meu ver, são a mais pura poesia, daquelas que a gente lê uma coisa e relê outra, sempre despertando novas interpretações, acionando a nossa inteligência. São todas bastante subjetivas, podendo até na primeira escutada parecer sem sentido ou sem nexo.
Mas é engraçado, não consigo enjoar. Cada dia tem uma melhor música do CD. As letras são completamente diferente de tudo que é feito na música brasileira atual, muito superiores no lirismo. Da dó de escutar uma música brasileira bastante tocada em rádio (CPM 22, por exemplo) e , inevitavelmente, comparar às do Los Hermanos. É outro nível, um outro patamar de subjetividade, de poesia.
Olha essa, simples e bela declaração de amor.
Paquetá
Ah, seu eu aguento ouvir
outro não, quem sabe um talvez
ou um sim
eu mereço enfim
é que eu já sei de cor
qual o quê dos quais
e poréns, dos afins, pense bem
ou não pense assim
eu zanguei numa cisma eu sei
tanta birra é pirraça e só
que essa teima era eu não vi
e hesitei, fiz o pior
do amor amuleto que eu fiz
deixei por aí
descuidei dele quase larguei
quis deixar cair
(tst tst)
Mas não deixei
peguei no ar
e hoje eu sei
sem você sou pá furada
Ai! Não me deixe aqui
o sereno dói
eu sei, me perdi
mas eu só me acho em ti
Que desfeita, intriga, o ó
Um capricho essa rixa e mal
Do imbrólio que qui-pro-có
e disso bem fez-se esse nó
e desse engodo eu vi luzir
de longe o teu farol
minha ilha perdida aí
o meu pôr do sol
É um deleite para se escutar, pensar, refletir, ler, despertar a inteligência acomodada com tantas coisas que nos são jogadas prontas, sem qualquer espaço para se pensar.
segunda-feira, setembro 19, 2005
Cortazarianas beatnik (3)
No limiar da pusilânime confiança, estará o medo disfarçado de matador de aluguel à espreita da sua vítima indefesa como uma leoa a uma zebra em savanas sul-africanas, e ela, a leoa, não se entregará até que não tenha abocanhado a zebra, assim como o matador de aluguel não sairá da espreita de sua vítima enquanto não matá-la, e assim como nesse limiar a pusilanimidade estará observando cada passo tentando não deixar a confiança andar com as suas agora fortes e não mais hesitantes pernas em direção ao caminho perdido ,que dizem existir, da atitude correta.
Sonho não se faz assim
Pequeno conto, inspirado em muitas coisas.
Sonho não se faz assim
Antes de acordar, vou pensar que não, aquilo que você quis me dizer não era mais do que um sonho teu, e quem sabe meu também, porque aquilo não era pra ser dito, extravasado para fora de ti sem se prever as consequências, não pode haver um sorriso doce tão carregado de mentiras - não são mentiras? então são sonhos, devaneios de alguém perturbado por alguma coisa tão grande que não teve como guardar para si.
Alguma coisa entre o que querias dizer e o que disse é o que deveria ter dito, se é tão grande a agonia solitária, e , sim, é difícil, eu sei que é difícil ficar assim, mas nem por isso, nem por toda essa dor que diz sentir mas que eu digo que sei mas não sei se realmente conheço, nem por ela, nem por nada é justificável as palavras que você usou, sem medir consequências que parecem existir desde sempre, e você sabia delas, ah sabia, e então, fez tudo sabendo, pelo gosto de dizer e de ver o tanto de sofrimento que certas palavras podem trazer, muito pior do que qualquer coisa, e você sabia disso, agora ficou claro, você sabia, e usou tudo com tamanho cuidado que se esqueceu, ou não quis, lembrar do que havia acontecido, da história que existia, dos sentimentos que parecem fantasmas presos a uma casa que não mais serve de moradia à eles. Tanto foi tão pouco, ao menos agora parece ter sido, tardiamente percebido.
Antes de acordar, o dia já se fará, e o acordar não vai mais ser necessário, se é assim que você quer.
Sonho não se faz assim
Antes de acordar, vou pensar que não, aquilo que você quis me dizer não era mais do que um sonho teu, e quem sabe meu também, porque aquilo não era pra ser dito, extravasado para fora de ti sem se prever as consequências, não pode haver um sorriso doce tão carregado de mentiras - não são mentiras? então são sonhos, devaneios de alguém perturbado por alguma coisa tão grande que não teve como guardar para si.
Alguma coisa entre o que querias dizer e o que disse é o que deveria ter dito, se é tão grande a agonia solitária, e , sim, é difícil, eu sei que é difícil ficar assim, mas nem por isso, nem por toda essa dor que diz sentir mas que eu digo que sei mas não sei se realmente conheço, nem por ela, nem por nada é justificável as palavras que você usou, sem medir consequências que parecem existir desde sempre, e você sabia delas, ah sabia, e então, fez tudo sabendo, pelo gosto de dizer e de ver o tanto de sofrimento que certas palavras podem trazer, muito pior do que qualquer coisa, e você sabia disso, agora ficou claro, você sabia, e usou tudo com tamanho cuidado que se esqueceu, ou não quis, lembrar do que havia acontecido, da história que existia, dos sentimentos que parecem fantasmas presos a uma casa que não mais serve de moradia à eles. Tanto foi tão pouco, ao menos agora parece ter sido, tardiamente percebido.
Antes de acordar, o dia já se fará, e o acordar não vai mais ser necessário, se é assim que você quer.
sábado, setembro 17, 2005
Saudade
Fim de semana chuvoso, frio, excelente pra ficar em casa sem fazer nada escutando Los Hermanos.
Sapato Novo
Bem, como vai você?
Levo assim calado de lá
tudo que sonhei um dia
como se a alegria
recolhesse a mão
pra não me alcançar
Poderia até pensar
que foi tudo sonho
ponho meu sapato novo
e vou passear
sozinho como der
eu vou até a beira
besteira qualquer
nem choro mais
só levo a saudade morena
é tudo que vale a pena
Não sei se a saudade é tudo que vale a pena, realmente não sei, porque ela traz sofrimento, mesmo que embutido na felicidade dos bons momentos.
Pior de tudo é não ter momentos, nem ruins nem bons, para se sentir saudade.
Sapato Novo
Bem, como vai você?
Levo assim calado de lá
tudo que sonhei um dia
como se a alegria
recolhesse a mão
pra não me alcançar
Poderia até pensar
que foi tudo sonho
ponho meu sapato novo
e vou passear
sozinho como der
eu vou até a beira
besteira qualquer
nem choro mais
só levo a saudade morena
é tudo que vale a pena
Não sei se a saudade é tudo que vale a pena, realmente não sei, porque ela traz sofrimento, mesmo que embutido na felicidade dos bons momentos.
Pior de tudo é não ter momentos, nem ruins nem bons, para se sentir saudade.
Pois é...
Pois é, hoje eu recolho a ressaca moral, emocional, sentimental e tudo que é mais al de ter saído ontem. Confirmei uma das hipósteses, que sair sozinho não significa porra nenhuma! Pior, nos passamos por bêbados estranhos agarrados a uma garrafa de cerveja conversando com seres igualmente sozinhos, sem perspectiva de nada. Sempre se ahca alguém pra conversar, isso é fato que comprovei ontem, mas não gostei de verificar que sair sozinho, pelo menos nas circunstãncias de ontem, é muito, muito ruim.
sexta-feira, setembro 16, 2005
Alone
Pode parecer meio chato, mas algo que eu nunca fiz é sair sozinho de casa em direção a alguma festa. Sozinho, sozinho, sem a forte perspectiva de encontrar alguém conhecido nessa festa, nunca. Não sei porque, mas parece a mim que é como um teste de provação do qual eu não consigo passar. Algumas vezes acho que poderá ser um divisor de águas, outras que não significará porra nenhuma. Mas que é um teste de coragem sair, sozinho, à noite, a pé, na rua, para entrar em algum lugar, e lá ficar sozinho bebendo, isso é. A princípio, essa idéia de que eu vou ficar sozinho nun canto bebendo sozinho, sem fazer nada além de observar as pessoas, é muito improvável, pois se eu ficar bebendo sozinho num canto eu, à qualquer hora, vou ter de puxar papo com alguém minimamente conhecido ou nem isso, um completo desconhecido. Mas é uma necessidade, e a pior das perspectivas possíveis - ficar sozinho num lugar a noite inteira, sem falar com ninguém - é completamente absurda, pois com ALGUÉM eu vou conversar. Mas, por via de saciar minhas dúvidas, vou arriscar fazer isso hoje, sair sozinho. Daqui a pouco estou indo, e quando chegar eu conto o que deu.
segunda-feira, setembro 12, 2005
De volta a realidade
Depois de uma semana sem se preocupar com nada além de se divertir e conhecer lugares e pessoas diferentes, eis que a volta a rotina se torna necessário, e cruel também, por que não, já que é tão mais fácil se acostumar com as coisas boas e despreocupadas...
É necessário um ou dois dias à readaptação parcial, porque a completa demora mais, quase um mês, e é nesse período da adaptação parcial para a compelta é que surge as maiores vontades de se colocar tudo pro alto outra vez e sair por aí, em outros dias ou semanas de nada de preocupações e muito de divertimento. É um período perigoso, até porque não se sabe se realmente se quer isso, a rotina certinha, ou a rotina louca que nunca tem uma adaptação completa.
É necessário um ou dois dias à readaptação parcial, porque a completa demora mais, quase um mês, e é nesse período da adaptação parcial para a compelta é que surge as maiores vontades de se colocar tudo pro alto outra vez e sair por aí, em outros dias ou semanas de nada de preocupações e muito de divertimento. É um período perigoso, até porque não se sabe se realmente se quer isso, a rotina certinha, ou a rotina louca que nunca tem uma adaptação completa.
domingo, setembro 04, 2005

" Assim na América quando o sol se põe e eu sento no velho e arruinado cais do rio olhando os longos, longos céus acima de Nova Jersey e posso sentir toda aquela terra crua e rude se derramando numa única, inacreditável e elevada vastidão até a costa oeste, e toda aquela estrada seguindo em frente, todas as pessoas sonhando nessa imensidão, e em Iowa eu sei que agora as crianças devem estar chorando na terra onde deixam as crianças chorar, e você não sabe que Deus é a Ursa Maior? e a estrela do entardecer deve estar morrendo e irradiando sua pálida cintilância sobre a pradaria, reluzindo pela última vez antes da chegada da noite completa que abençoa a terra, escurece todos os rios, recobre os picos e oculta a última praia e ninguém, ninguém sabe o que vai acontecer a qualquer pessoa, além dos desamparados andrajos da velhice, eu penso então em Dean Moriarty, penso até no velho Dean Moriarty, o pai que jamais encontramos, eu penso em Dean Moriarty. "
Trecho final do On the Road, de Jack Kerouac. Um dos livros da minha vida.
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